Por Aluísio Azevedo (1881)
E Ana Rosa deixava-se invadir lentamente por aquela embriaguez esquecendo-se, alheando-se de tudo, sem querer pensar em outro objeto que não fosse Raimundo. De repente surpreendeu-se a dizer: “Como deve ser bom o seu amor!...” E ficou a cismar, a fazer conjeturas, a julgá-lo minuciosamente, da cabeça aos pés. Parou nos olhos: “Quantos tesouros de ternura não estariam neles escondidos? neles, do feitio de amêndoas, banhados de bondade e cercados de pestadas crespas e negras, como os pêlos de um bicho venenoso; aquelas pestanas lembravam-lhe as sedas de uma aranha caranguejeira.” Estremeceu, porém, vieram-lhe desejos de os apalpar com os lábios. “Como devia ser bom ouvir dizer Eu te amo! - por aquela boca e por aquela voz!...” E ficava assustada, como se de fato, no silêncio da alcova, Uma voz de homem estivesse a segredar-lhe, junto ao rosto, palavras de amor.
Mas logo tomava a si com a idéia do porte austero e frio de Raimundo. Esta indiferença, ao mesmo tempo que lhe pungia e atormentava o orgulhoso, levanta-lhe. na sua vaidade de mulher, Um apetite nervoso de ver rendida a seus pés aquela misteriosa criatura, aquele espectro inalterável e sombrio, que a vira e contemplara sem o menor sobressalto.
E entre mil devaneios deste gênero, com o sangue a percorrer-lhe mais apressado as artérias, conseguir afina! adormecer. vencida de cansaço. E, quem pudesse observá-la pela noite adiante. Vê-la-ia de vez em quando abraçar-se aos travesseiros e, trêmula, estender os lábios, entre abertos e sôfregos. como quem procura um beijo no espaço.
Na manhã seguinte acordara pálido e nervosa, a semelhança de uma noiva no dia imediato às núpcias. Faltava-lhe animo até para se preparar e sair do quarto: deixava-se ficar deitada na rede, a cismar, sem abrir de todo os olhos cheia de fadiga.
Parecia-lhe sentir ainda na face o calor do rosto de Raimundo.
Decorreram duas horas e ela continuava na mesma irresolução: as pálpebra]s lânguidas, as narinas dilatadas pelo hálito quente e doendo: os beiços secos e ásperos; o corpo moído sob um fastio geral, que lhe dava espreguiçamentos de febre e má vontade. E., assim prostrada, deixava-se ficar entre os lençóis, tolhida de vexame e enleio, pelas loucuras da noite.
A voz clara de Raimundo que conversava na varanda enquanto tomava café, despertou-a; Ana Rosa estremeceu, mas, num abrir e fechar de olhos, ergueu-se. lavou se e vestiu-se. Ao fitar o espelho, achou-se feia e mal enforcada, posto não estivesse pior que nos outros dias, endireitou-se toda, cobriu o rosto de pó de arroz, arranjou melhor os cabelos e escovou um sorriso.
Apareceu lá fora com grande acanhamento; deu a Raimundo um “Bons dias” frio. de olhos baixos. Não podia encará-lo. Maria Bárbara já lá estava na labutação, a cuidar da casa, a dar voltas. a gritar com os escravos.
— Olha esse bilhete da Eufrásia. disse ela, ao ver a neta. E passou-lhe uma tira de papel. engenhosamente dobrada em laço com um galhinho de alecrim enfiado no centro.
Ana Rosa teve um gesto involuntário de contrariedade. Aborrecia-lhe agora sem saber por quê, a amizade da viúva, dela, que era ate ai a sua íntima, a sua confidente, a sua melhor amiga; dos outros havia muito que se tinha enfastiado o seu desejo, naquele instante, era ficar só, bem só, num lugar em que ninguém pudesse importuná-la.
Serviu-se de uma xícara de café, deu-se por incomodada.
— V. Exª sente alguma coisa? perguntou Raimundo com delicadeza.
Ana Rosa sobressaltou-se ligeiramente, ergueu os olhos, viu os do rapaz, abaixou logo os seus e entressorrindo, gaguejou:
— Não é nada... Nervoso...
— É isto! acudiu Maria Bárbara, que parara para ouvir a resposta da neta. Nervoso! Olhem que estas moças de agora são tão cheias de tanta novidade e de tantas invenções!... E o nervoso! é a tal da enxaqueca! é o flato! é o faniquito! Ah, meu tempo, meu tempo!...
Raimundo riu-se e Ana Rosa deu de ombros, simulando indiferença pelo que dizia a velha.
— Não faça caso, moço! Esta menina está assim já de tempos, e ninguém me tira que foi quebranto que lira botaram!...
Raimundo tomou a rir. e Ana Rosa endireitou-se na cadeira em que acabava de assentar-se. 'Esta vovó!... pensou ela envergonhada. Que idéia não ficará ele fazendo da gente!...”
— Não se ria, nhô Mundico! não se ria, prosseguiu a sogra de Manuel, que aqui esta — e bateu no peito — quem já andou de quebranto a dar-não-dá com os ossinhos no Gavião!
E, tirando do seio um trancelim, com uma enorme figa de chifre encastoada em ouro:—Ai, minha rica figa, a ti o devo! a ti o devo, que me livraste do mau-olhado!
— Mas, Srª D. Maria Bárbara, conte-me como foi essa história do quebranto, pediu Raimundo.
— Ora o quê! Pois então o senhor não sabe que o mau-olhado pegando Uma criatura de Deus — está despachadinha?... Então, credo! que andou o senhor aprendendo lá por essas paragens que correu?!
— V. Ex.ª, minha prima, também acredita no quebranto? interrogou o moço, voltando-se para Ana Rosa.
— Bobagens... murmurou esta, afetando superioridade.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.