Por Aluísio Azevedo (1895)
Os enxovais também foram aviados em duplicata, à exceção, bem visto, do vestido da noiva. Em qualquer das duas habitações podia um casal instalar-se comodamente. Minha filha palpitava de alegria no antegozo do seu amor, e eu sentia-me feliz por vê-la feliz; mas ninguém poderá calcular a dose de energia e a constância de caráter que tive de pôr em ação, para impedir que o noivo interferisse e se intrometesse nestes arranjos domésticos, e não estivesse sempre encarapichado às nossas saias. O pobre rapaz queria também, como é do costume no Brasil, vir todas as noites visitar a noive e pespegar-se ao lado dela durante o serão até o momento de servir-se o chá. Não faltava mais nada! desalojei-o logo dessa pretensão, declarando que a ninguém recebíamos senão às quartas-feiras; mas, o demônio insistiu, recorrendo para vencer-me a todos os carinhosos recursos da adulação; e afinal, reforçando suas súplicas com as de Palmira, conseguiram os dois apanhar-me mais um dia na semana, que ficou sendo o Domingo.
Só nas vésperas do casamento permiti que se vissem todos os dias.
Por essa ocasião realizamos os três, e mais o meu velho amigo César, um belo passeio à Floresta da Tijuca.
Ao despontar de sol estávamos já à raiz da serra. Levávamos farnel e um criado para tomar conta dele. Deixamos na cocheira daquele ponto o carro que nos conduziu até aí, e tomamos, para subir a formosa cordilheira, uma vitória de dois lugares, onde eu iria com César, e em cuja boléia o criado se arranjaria com o farnel.
Palmira e Leandro tinham, prontos à sua espera, dois cavalos escolhidos.
Era outubro, e a manhã saíra-nos encantadora. Foi deliciosa a subida até o alto da serra, por entre as vegetações e os penhascos da estrada, ao primeiro transbordamento do dia. A quaresma e a sucupira abriam já, na sombra azul das matas, flores roxas e amarelas. Inebriava o espírito deslizar suavemente naquele vasto rescender de aromas resinosos, ao hino matinal dos campos, que se iam, ainda mal acordados dos seus sonhos de opala, preguiçosamente desnevoando à dourada fulguração da luz nascente.
Não nos quisemos deter na cascatinha, e continuamos a subir para a Floresta.
A Floresta! Ah! quantas recordações não tinha eu desses lugares, onde tantas vezes passeei pelo braço de Virgílio, antes do nosso casamento, antes da nossa desilusão, quando eu ainda o amava com amor de mulher! César ao meu lado, no carro, parecia também esquecido nas suas saudades, porque ia abstrato e mudo, olhando fixamente o misterioso horizonte de verdura, com as mãos sobpostas ao queixo e firmadas no castão da sua bengala.
Palmira e Leandro seguiam adiante cavalgando emparelhados, a rir e a conversar, gárrulos e donairosos. Ah! esses não ficavam quietos e calados um só instante, porque iam vivendo do presente e do futuro. Avançavam a galope, resplendentes e soberbos no orgulho do seu amor e da sua mocidade, sem volver para trás os olhos enamorados; alheios a tudo, encarando com desdém o resto do mundo, como do alto da montaria olhavam no caminho as pobres cambaxilras, que esvoaçavam escorraçadas fugindo e gralheando à sua vitoriosa passagem.
Penetramos no coração da Floresta. Minha alma, de comovida, abriu-se de par em par, num êxtase contrito, num doce e profundo enlevo religioso. Tive vontade de ajoelhar-me à sombra das velhas árvores e chorar.
Como eu te amava ainda, casto paraíso das minhas saudades! ó minha querida floresta! Não tinhas, como eu, envelhecido, odorante e sombrio templo de verdura! encontrei-te moça e garrida como te deixara, e como a mim tinhas visto, dantes, muito dantes, à flor da minha juventude; o que agora te não achei foi tão minha amiga, tão minha confidente e tão comunicativa como dantes. Eras alegre, paraíso! achei-te triste!
Não! já não eras para mim o mesmo éden carinhoso e sorridente, que com todas as tuas vozes me falavas de amor e de vida! Reconheci as tuas místicas estradas murmurantes; os teus brancos caminhos serpeados entre montanhas de veludo verde; as tuas árvores patriarcais, de longas barbas venerandas, em que se engrimpam e dependuram orquídeas e parasitas; o teu lago quieto e melancólico, em que as taquaras e samambaias se miram furtivamente, por entre a esparsa e mergulhada cabeleira das algas e nenúfares; reconheci a música plangente das tuas águas rebatidas, de cascata em cascata, a sombra amorável e doce das tuas grutas escondidas; reconheci tudo isso, todas essas paragens encantadas; mas já não eras a mesma para mim, Floresta, que me embalaste os sonhos de esperança!
Oh! como Palmira nesse mesmo instante devia achar-te alegre, triste Floresta! Triste e morto paraíso de saudades!
Em que cisma, minha amiga?... perguntou-me César, tomando-me uma das mãos.
— No mesmo em que você pensava ainda há pouco — no passado... Cismas de velho!...
E suspiramos ambos, desconsoladamente.
Voltei desse longo passeio, de um dia inteiro, com uma fria impressão de tristeza, que se não dissolveu em lágrimas, mas que enlutou de sombras dolorosas o meu velho coração de mulher.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.