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#Romances#Literatura Brasileira

O Cortiço

Por Aluísio Azevedo (1890)

O estudante atirou-se, sôfrego, sentindo-lhe a frescura da sua carne de lavadeira, mas sem largar as pernas do coelho.

Passou-se um instante de silêncio entre os dois, em que as folhas secas do chão rangeram e farfalharam.

— Olha! pediu ela, faz-me um filho, que eu preciso alugar-me de ama-de-leite... Agora estão pagando muito bem as amas! A Augusta Carne-Mole, nesta última barriga, tomou conta de um pequeno ai na casa de uma família de tratamento, que lhe dava setenta mil-réis por mês!... E muito bom passadio!... Sua garrafa de vinho todos os dias!... Se me arranjares um filho dou-te outra vez o coelho!

E o pobre brutinho, cujas pernas o estudante não largava, começou a queixar-se dos repelões que recebia cada vez mais acelerados.

— Olha que matas o bichinho! reclamou a lavadeira. Não batas assim com ele! mas não o soltes, hein!

Ia dizer ainda alguma coisa, mas acudiu-lhe o espasmo e ela fechou os olhos e pôs-se a dar com a cabeça de um lado para o outro, rilhando os dentes.

Nisto, passos rápidos fizeram-se sentir galgando as plantas, na direção em que os dois estavam; e Henrique, antes de ser visto, lobrigou a certa distancia a insociável figura do Bruno.

Não lhe deu tempo a que se aproximasse; de um salto galgou por detrás das bananeiras e desapareceu por entre o matagal de bambus, tão rápido como o coelho que, vendo-se livre, ganhara pela outra banda o caminho do capinzal.

Quando o ferreiro, logo em seguida, chegou perto da mulher, esta ainda não tinha acabado de vestir a saia molhada.

— Com quem te esfregavas tu, sua vaca?! bradou ele, a botar os bofes pela boca.

E, antes que ela respondesse, já uma formidável punhada a fazia rolar por terra.

Leocádia abriu num berreiro. E foi debaixo de uma chuva de bofetadas e pontapés que acabou de amarrar a roupa.

— Agora eu vi! sabes! Nega se fores capaz!

— Vá à pata que o pôs! exclamou ela, com a cara que era um tomate. Já lhe disse que não quero saber de você pra nada, seu bêbedo!

E, vendo que ele ia recomeçar a dança, abaixou-se depressa, segurou com ambas as mãos um matacão de granito que encontrou a seus pés, e gritou, erguendo-o sobre a cabeça:

— Chega-te pra cá e verás se te abro aqui mesmo ou não o casco!

O ferreiro compreendeu que ela era capaz de fazer o que dizia e estacou lívido e ofegante.

— Arme a trouxa e rua! sabe?

— Olha a desgraça! Tinha de muito assentado de ir! Queria era uma ocasião! Nem preciso de você pra nada, fique sabendo!

E, para meter-lhe mais raiva, acrescentou, empinando a barriga:

— Já cá está dentro com que hei de ganhar a vida! Alugo-me de ama! Ou pensará que todos são como você, que nem para fazer um filho serve, diabo do sem-préstimo?

— Mas não me hás de levar nada de casa! Isso te juro eu, biraia!

— Ah, descanse! que não levarei nada do que é seu, nem preciso!

— Põe essa pedra no chão!

— Um corno! Eu arrumo-ta na cabeça se te chegas pra cá!

— Sim, sim, sim, contanto que te musques por uma vez! — Pois então despache o beco!

Ele virou-lhe as costas e tornou lentamente por onde viera, de cabeça pendida, as mãos nas algibeiras das calças, aparentando agora um soberano desprezo pelo que se passava.

Só então foi que ela se lembrou do coelho.

— Ora gaitas! disse, endireitando-se e tomando direção contrária à do marido.

Este fora ai direito ao cortiço narrar, a quem quisesse ouvir, o que se acabava de dar. O escândalo assanhou a estalagem inteira, como um jato de água quente sobre um formigueiro. “Ora, aquilo tinha de acontecer mais hoje mais amanhã! — Um belo dia a casa vinha abaixo! — A Leocádia parecia não desejar senão isso mesmo!” Mas ninguém atinava com quem diabo pilhara o Bruno a mulher no capinzal. Fizeram-se mil hipóteses; lembrando-se nomes e nomes, sem se chegar a nenhum resultado satisfatório. O Albino tentou logo arranjar a reconciliação do casal, jurando que o Bruno estava enganado com certeza e que vira mal. “Leocádia era uma excelente rapariga, incapaz de tamanha safadagem!” O ferreiro tapou-lhe a boca com uma bolacha, e ninguém mais se meteu a congraçá-los.

(continua...)

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