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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Voltaste, afinal, meu pequeno! disse ele procurando sorrir. Fizeste bem! cá estávamos nós outros, como dois tolos, à espera da morte, e afinal chegas tu, que és a vida, a alegria, a mocidade! Com mil cartuchos! Não há como ter vinte anos!

— Mas, que escuridão, meu Deus! disse Gabriel olhando em torno de si. Como se pode viver em uma casa fechada deste modo?!

E escancarou uma janela que dava para a rua.

Uma baforada quente do ruído de fora invadiu com a luz do meio­dia a sala do coronel, e despertou­a do seu fundo entorpecimento.

— Que diabo faz este piano paralítico, que não me dá um ar de sua graça? exclamou o rapaz estacando defronte do sombrio instrumento. Ah! supunhas que não te havia de pôr mais os dedos? Ora, espera, meu velho entrevado, que já te vou escovar a alma!

E, sem ouvir o coronel, que lhe gritava da cama, Gabriel sacou a capa do velho piano e abriu­o com estrondo.

— Olha que me afliges com isso, Gabriel! dizia o pobre veterano. Depois da minha Anita, ninguém mais tocou nessas teclas! Não me faças chorar!...

Mas já ninguém o podia ouvir, porque um doido turbilhão de notas enchia a sala com a sonoridade retumbante dos seu ecos.

Era um infernal! bailado de Offenbach. As notas palpitavam vertiginosamente no ar adormecido daquela sala, como um bando de máscaras endemoninhadas invadindo uma sacristia.

E tudo parecia ir a pouco e pouco revivescendo com o delírio da música. Os graves trastes, cheios de pó e alquebrados de abandono, pareciam resistir ao desejo de atiraram­se aos pinchos do cancã.

Os retratos a óleo, o venerando relógio de armário, as estantes, os tremós, o canapé, tudo parecia acordar à mágica fascinação do rei da gargalhada musical. Gaspar esfregava as mãos.

— É a mãe tal qual! A mesma vivacidade! a mesma voz a mesma formosura!

E limpava os olhos, apressado, para os não ocupar com outra cousa que não fosse Gabriel.

— Como é vivo! Como é belo! exclamava ele, com a fisionomia iluminada de amor paterno.

Não obstante, o velho coronel chorava silenciosamente a um canto. Só ele não participou da alegria geral; ao contrário, aquela música, petulante e sarcástica, doía­lhe por dentro como um insulto à sua tristeza.

A casa palpitava e estremecia na onda vertiginosa das vibrações, quando de súbito assomou à porta o vulto magro do Marmelada, o chapéu para a nuca e as botas encalavradas, a dançar o som do palpitante bailado.

O pobre homem tinha, inteiramente fora de seus hábitos e talvez em conseqüência da fome, apanhado uma formidável bebedeira; e, no entanto, não podia ser melhor o impulso que o levava ali; ia prestar um grande serviço, fazer uma revelação importantíssima para o coronel.

Depois daquele delírio em que este o expulsara de casa, o infeliz ainda mais se afundara no seu desânimo moral e físico. O sogro mandara chamá­lo por várias vezes, mas Alfredo resmungava que lá não poria os pés!

— Haviam­no enxotado, como se enxota um cão; ele porém, é que não voltaria como os cães! Sabia que era um pobre diabo, mas tinha consciência de não fazer mal a ninguém, nem cometer baixezas, para que o tratassem daquele modo!

E o caso é que, apesar de toda a sua miséria, nunca mais voltaria com efeito, se não fosse o seguinte:

Na manhã desse dia, toscanejava estendido em um dos bancos do Passeio Público, quando dois homens se assentaram no banco imediato, conversando. Alfredo reconheceu­os; eram o comendador Moscoso e o Melo Rosa.

O viúvo de Ana fingiu que dormia, escondeu o rosto e prestou ouvidos.

Os outros não lhe descobriram as feições, nem desconfiaram de sua presença, tão miserável era o aspecto de Alfredo e tão borracho parecia estar.

O comendador, entretanto, ia dizendo, em continuação à sua conversa:

— Pois o bicho escondeu­se! Suas mofinas produziram o efeito desejado... Mais umas duas da mesma força, e lavra­se­lhe a certidão de óbito. Foi obra!

Melo Rosa tirou uma tira de papel do bolso e leu com intenção:

"O nosso coronel, sem milho e crivado de dívidas não sai do buraco, nem à sétima facada; tem medo dos cadáveres, coitado! Mas nós havemos de arrancá­lo do esconderijo, nem que seja a marmelada! Lá diz o outro que macaco velho quando se coça, é que está tramando alguma! Vamos ter nova patifaria! Olho vivo! — A Sentinella.".

— Que tal a acha?... perguntou o Melo ao comendador.

— Não sei... disse este. Faltava­lhe graça... Você tem sido mais feliz das outras vezes. Veja se faz alguma cousa mais picante, mais mordaz...

Melo guardou silenciosamente a tira no bolso, e prometeu arranjar cousa melhor.

E depois acrescentou com interesse:

— É verdade, preciso que o comendador me adiante cinqüenta mil­réis... é um aperto sério!

Adiantar era o seu termo, quando pedia dinheiro.

— Homem! disse o outro. Você ultimamente me come bastante dinheiro!... Lembre­se de que não há muitos dias que eu...

— Bagatelas! replicou o Melo com um ar superior; bagatelas, comendador!

— Bagatelas, não!

(continua...)

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