Por Bernardo Guimarães (1883)
Parece que por desgraça sua o irmão de Nha-Tuca tinha sangue turco nas veias; tinha pendor immenso para o serralho I nascera para ser um sultão, ou pelo menos um vizir. Por isso toda a fortuna que havia herdado ou adquirido á custa de algum trabalho, ia consumindo toda em colleccionar essa formosa tribu, que por força do destino teve de transmittir á sua irmã unica, sem mesmo ter o trabalho de fazer testamento. A sensualidade de um servio admiravelmente á avareza da outra.
A irmã, que não podia tirar o mesmo proveito de tão preciosa deixa, excogitou outro meio de fazel-a render o maior lucro possivel.
O vicio capital desta mulher era, como sabemos, a avareza, peccado mortal incomprehensivel para muitos e só comprehendido por aquelles que lhe sentem as delicias.
Obedecendo a esta sua tendencia innata, Nha-Tuca concebeo e realisou o projecto de fundar com as raparigas, que herdára, uma especie de prostibulo ou alcouce, dirigido por ella em pessoa, do qual esperava auferir grandes vantagens pecuniarias. Mas Mugimirim era então uma pobre Villa, talvéz arraial ainda, e não podia offerecer campo assáz vasto para suas altas especulações. Portanto Nha-Tuca tomou o accôrdo de vender tudo quanto possuia em sua terra natal, e de emigrar com seu formoso rebanho para a capital da provincia, onde poderia desenvolver em mais larga escala sua lucrativa industria.
Em S. Paulo comprou fóra da cidade o predio em que pela primera vez a encontrámos, e onde estabeleceo com excellentes commodos e por preços modicos venda, rancho e hospedaria.
Á freguezia, logo desde principio, tornou-se cada vez mais numerosa. O serviço da hospedaria era feito com grande esméro e aceio pelas seis ou oito escravas, jovens c vistosas, e sempre trajadas com certo luxo provocador, que attrahia a attenção dos sybaritas, Ellas, habilmente industriadas pela abelha mestra, cercavão os viandantes de mil cuidados e attenções, a que não era possivel resistir. Erão outras tantas Hebes, offertando o Jove a taça de ambrosia.
Muita vez acontecia que o viajor, esquecendo-se de interesses que reclamavão a prompta continuação de sua viagem, encantado pela deliciosa hospedagem, que alli encontrava, falhava quasi sem querer um, dois, tres e mais dias; tanta era a obsequiosidade, tantos os carinhos de que se via rodeado. Em todo caso, quando o viandante não falhava, lá ficava, além da despeza ordinaria, uma grossa somma, ou uma rica joia, que as fieis servidoras nunca deixavão de entregar á senhora. Nem lhes era mistér guardar cousa alguma. Nada lhes faltava, nem quanto á alimento nem quanto á vestuario. Gozavão de liberdade quasi absoluta, e comprehendendo o reciproco interesse que as ligava á sua senhora, vivião com ella em pereito pé de intelligencia e harmonia. A propria dona da casa, apezar de velha e adoentada, trabalhava tanto ou mais do que as escravas, que tafulonas e peraltas só se occupavão em servicos delicados e em fazer sala aos hospedes, emquanto a senhora era apenas ajudada por uma preta velha no serviço grosseiro da casa. Tudo isso porém se fazia por gosto da senhora, que o dava por muito bem empregado.
E não era só com os passageiros, que se especulava. A rapaziada da vizinhança tambern lá acudia attrahida pela fama da boa bebida, que lá havia, e das bonitas raparigas, que servião de caixeiras e de serventes na hospedaria. Mais de um filho de caipira bem arranjado alli deixou, sem saber como, os rendimentos de todo o bom negocio que havia feito na cidade, e arruinou seu pae com as repetidas invernadas na taberna de Nha-Tuca.
E não ficavão só em casa as vergonhosas especulações da velha ; estendião-se a mais longe. Todos os domingos e dias santos NhaTuca expedia para a cidade tres ou quatro de suas mais lindas raparigas, bem vestidas e promptas a armar laço á bolsa dos estudantes. Em toda parte onde ha academia, universidade, ou cousa que o valha, ha sempre numerosa cafila de moços ricos, prodigos e libertinos, que não hesitáo cm sangrar consideravelmente a bolsa paterna em beneficio das cantoneiras. Voltavão portanto as Venus para a casa então com cara de mãe da humanidade ! . . . Mas emfim, que hei-de eu fazer?... não hei-de deital-a aos porcos, oh ! isso não... Mas... mas..., continuou ella, coçando a cabeça, avizinhandose do berço, inclinando-se sobre elle, e reparando com attenção a creança. — Ora esta!...eu sou mesmo uma patéta?... é cousa que está entrando pelos olhos. Foi minha boa fortuna que aqui me trouxe esta creança... Vejamos, proseguio ella, murmurando sempre em vóz baixa e arredando as faixas, que envolvião a cueancinha. — Coitadinha ! está dormindo ! como é bonitinha oh! . . . e é femea tanto melhor. E é tal qual como a defunctinha, sem tirar nem pôr. E esta !... sahe-me uma morta pela porta afóra, e entrame outra viva pela porta a dentro! ... mil graças a quem me fez tão delicado presente, e tão a proposito !
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.