Por Franklin Távora (1878)
Cosme Bezerra, que foi dos primeiros que reagiram contra os mercadores, como dos que sofreram as conseqüências dessa reação, quis tomar a mão em seguida do sargento-mór; mas antecipou-se-lhe Manoel de Lacerda, ex-alcaide-mór; emprego que devera a seus longos e distintos méritos.
- Estou de acordo convosco, disse Lacerda a João da Cunha. Querem grande e rude lição esses que só têm recebido de nós hospitalidade e favores? Pois satisfaçamos á sua vontade. Não gosto de violências; mas quando sagrados direitos andam em perigo, não olho a desastres nem espero pelo dia de amanhã. O fogo, o sangue, a morte não me amedrontam, nem o receio de ser vitima na luta me retém no regaço morno da vida domestica.
- Demais, observou Cosme Bezerra, que estava impaciente por manifestar-se sobre o assunto, nas atuais circunstancias a guerra é inevitável. Certo, os mascates a esperam. Se nós não formos leva-la a eles, hão de vir eles traze-la a nós. Das fortalezas passarão ás estradas, e por estas virão Ter ás vilas mais importantes e enriquecidos, menos pela grandeza do seu trabalho do que do nosso coração e da nossa complacência projetam sobre as ruínas da agricultura, levantar em pedestais de ouro o seu comercio ilícito e plebeu. Quem julgar que eles ficam ai, engana-se. eles põem a mira em completar a obra do desmoronamento pernambucano, derramando o sangue daqueles que com os nobres portugueses, e não com a gentalha de Portugal, sustentaram no mar e nos campos de batalha a honra e o poder da lusa monarquia. Hão de ir mais longe ainda, porque em seu bestunto supõem, e até o dizem, que somos tão selvagens como os índios que eles destruíram ou escravizaram. Armarão ciladas a nossa honra, tentarão manchar nossas famílias. Em seus tenebrosos plenos, tem mais lugar a idéia de enxovalhar do que a de destruir a fidalguia, que os admitiu em sua terra, levada de dó pela miséria deles. E havemos de consentir em que esta baixeza sem nome se tente praticar ainda que não passe da tentativa? De modo nenhum. Cá por mim estou prestes para a luta e entendo que é tempo de a travar com esses vis e ingratos hospedes.
- Este pontos está fora de duvidas, acrescentou Filipe Cavalcanti. Mas o essencial é assentarmos nos meios de ferir a batalha. Temos gente pronta para seguir á metrópole da capitania? Convirá seguirmos? Ou será mais prudente esperarmos que de lá se nos peça o auxilio das nossas forças! A meu parecer são estes os pontos mais importantes e graves da presente conjuntura.
- E que mais esperaremos? Inquiriu Jorge Cavalcanti. A luva está atirada, e embora nos venha de vilão, cumpre-nos apanhá-la para castigarmos a vilania.
- A nobreza da capital, ajuntou Cosme Bezerra, está ameaçada. A tardança no socorro poderá trazer males irremediáveis.
Estava neste ponto a discussão, quando Matias Vidal tomou a mão, e disse:
- Senhores, tudo o que acabo de ouvir de vossas bocas, parece-me inspirado pelo principio da própria conservação de cada um de nós, pela dignidade da nobreza pernambucana, e pelo amor da terra de que os forasteiros querem assenhorear-se. Mas quem nos afiança que não estamos já ameaçados também de perdermos as nossas vidas e propriedades? Honroso seria corrermos imediatamente á capital, afim de reforçarmos a sua defesa; mas um dever que me parece superior a todos, exige talvez a nossa presença no seio das nossas famílias. Teremos acaso tão seguros estes penhores da nossa estima que possamos, sem risco, deixa-los entregues a se próprios, enquanto vamos auxiliar os nossos parentes e amigos longe daqui? Certamente o plano dos forasteiros ficaria abaixo das suas ambições se nele entrasse o pensamento de se hostilizar a nobreza dos arredores da vila de fresco criada. Tudo ao contrario faz crer que eles conspiram contra a nobreza de toda a província, porque sem a destruição total dela não poderão ficar senhores de todo país. Não moro na vila de Goiana, mas lá mesmo no meu mato soube que o ouro dos mascates andava por aqui nas mãos de baixos comissários.
- Tendes razão, tendes razão – disse Manoel de Lacerda. O que dizeis é verdade.
Antes de montar a cavalo para vir a esta reunião, disse-me um dos meus lavradores que soubera terem sido distribuídos em Goiana, donde chegava, 14,000 cruzados para a compra de gente que apoie a causa dos mercadores. Se isto é verídico...
- É verídico – disseram muitos dos que se achavam presentes.
Se assim é, prosseguiu Matias Vidal, não será imprudência desampararmos nossas casas, que, privadas de nosso encosto e sem nenhum meio de defesa, visto que teremos de levar conosco as nossas escravaturas, ficarão expostas a grandes desgraças.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.