Por Franklin Távora (1876)
Era quase noite, e já a lua espargia a luz suave por sobre a solidão, quando se acharam novamente na beira do despenhadeiro. Segundo um plano assentado entre eles, quatro seguiram com Matias pelo lado por onde havia descido, enquanto os outros, subindo pelo lado oposto, se dirigiram ao esconderijo a fim de se proverem dos instrumentos necessários para o assalto. Os primeiros esperariam pelos últimos na boca da mata para, reunidos, seguirem a seu destino.
No momento em que os malfeitores tomaram a direção da engenhoca, um cavaleiro, que entrara na mata por secretos atalhos, fora dar com o Cabeleira em seu retiro. Era o Teodósio.
— Arrumem as trouxas, e mudem de acampamento.
Foram estas as suas primeiras palavras.
— Donde vens tu ? Que diabo tens, Teodósio ?
— Vem aí soldados que nem terra.
— Quem te contou semelhante coisa ?
— Eu que sei. O governador está comendo fogo pelo que fizemos na noite da procissão.
— Ora !… Pois que venham. Hão de saber para quanto presto. Nunca torci a cara a homem nenhum, e não morro de careta, como sagüi.
— Eu também não tenho medo deles — disse o cabra. — Mas é bom a gente estar prevenido para não cair no mundéu como bicho do mato.
O Teodósio unicamente suspeitava o que dizia estar para acontecer. Fino, matreiro, como era, facilmente previra que não ficaria sem punição o crime que haviam eles cometido na vila.
Ora, Teodósio ! — redargüiu José com mostras de fazer pouco do que lhe dizia o camarada. — Eu, por ser bicho do mato, é que não hei de cair no mundéu. Olha tu: enquanto houver mata virgem por esse mundão de meu Deus, podem eles mandar contra mim os soldados que quiserem, que não me apanham, ainda que sejam tantos como formigas. Não me hão de ver nem a fumaça.
— Não digo menos disso — respondeu Teodósio.
— Eu sou cabra mesmo danado — prosseguiu Cabeleira. — Quem se engana comigo é porque quer. Meto a unha no chão, e entro nooco do mundo para nunca mais ninguém me por o olho em cima. As matas de Serinhaém, Água Preta, Goitá, Goiana, Paraíba, Rio Grande aí estão bem fresquinhas para esconderem em seu seio a onça pintada. É: bom que não me assanhem. Se o governador duvidar do meu sério, sou capaz de me largar daqui, pi, pi, até à vila, e lá mesmo vou mostrar lhe com quantos paus se faz jangada.
— Pois afia bem a tua faca, e escorva de novo o teu bacamarte, que o trovão não tarda a roncar.
— Eu nunca deixei de trazer a faca e o bacamarte prontinhos para o serviço.
Quem quiser, venha ver.
— Está bom. Até já — disse o Teodósio, despedindo se para sair.
— Aonde vais ? — perguntou lhe o Cabeleira.
— Tenho cá uma idéia. Vou passar pela porta do capitão mor.
— O capitão mor está na vila ? — disse José.
— Não, senhor, está aí. Veio antes de mim, que não me escapou. Vou passar me pela porta, e tirar conversa com algum soldado bisonho que aí se ache de serviço a fim dever se pesco notícia que nos oriente.
— Não é mau o que queres fazer. Mas, olha bem, não caias em alguma ratoeira.
— Macaco velho não mete mão em cumbuca — respondeu Teodósio, preparando se para montar novamente.
— Faço te companhia até o cercado da engenhoca do defunto Liberato — acudiu o Cabeleira.
E saltou sobre a garupa do cavalo que Teodósio pôs a passo pela vereda secreta que ia dar na via pública.
— Uê ! — exclamou Teodósio, voltando se para o companheiro a fim de melhor saber dele a verdade. — Pois morreu o Liberato, tão amigo nosso, que nunca nos faltou com jerimum, canas e criação ?
— Ele era camarada, é verdade. Mas meteu lhe na cabeça que havia de tirar nos o couro, e há três dias veio bulir conosco.
— Que estás dizendo ?
— Não só ele, mas também os filhos e o bom do genro.
— Foi a sua derradeira deles, hein ?
— É verdade. O Zé Rufino, que o negro fora convidar para o ajudar na tragédia que tinha ideado contra nós, correu logo a dar nos parte de tudo ainda em tempo. Quando os cabras apareceram, encontraram gente. Fizemos o bonito em poucas horas. Estão todos dentro do grotão.
— E que vais tu ver à engenhoca ?
— Vou reunir me com os outros que lá estão fazendo uma das suas. Mas onde arranjaste tu este quartau passeiro e passarinheiro que se vai derretendo na estrada depois da grande caminhada que traz da vila ?
— Falta aí engenho onde se vá buscar um animalzinho fora de horas para a gente fazer sua viagem?
— Pois então vai logo pondo de olho alguns outros para fazermos a nossa mudança se a tropa vier perseguiu nos.
— Amanhã pela manhã teremos um lote, e poderemos meter terra em meio antes que o tropão bata por cá.
Tinham deixado a vereda e achando se já na estrada que, fazendo pouco adiante um ângulo, seguia em linha mais ou menos reta até o povoado.
Ao passarem por baixo de uma pitombeira que no ângulo apontado agitava no ar a sua copa gigantesca, súbito ruído espantou o cavalo que por um triz não tirou o cabresto da mão do Teodósio. Com o violento arranco, partiu se a cilha da cangalha, e os dois cavaleiros vieram à terra.
— Diabo ! — exclamou o Teodósio contrariado e perturbado. — Foi alguma coruja que abalou da pitombeira.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.