Por Bernardo Guimarães (1872)
Leonel, para remover toda e qualquer suspeita que alguém pudesse nutrir a seu respeito, quis que se desse rigorosa busca em tudo quanto era seu, em todos os valores que trazia consigo, e nada encontrou que o pudesse comprometer.
Todavia, como bem se pode julgar, Leonel estava longe de viver tranqüilo depois daquele desacato, e esperava com a maior impaciência e inquietação o domingo seguinte para efetuar o seu casamento, e depois- com a noiva ou sem ela- evaporar-se. Teria desaparecido incontinenti, se esse passo não viesse despertar contra ele as mais bem fundadas suspeitas, não fosse um terrível indício, uma confissão tácita de seu crime. Via-se enleado em um labirinto, cuja saída se lhe ia tornando extremamente difícil.
Mas como Elias nenhuma outra prova tinha contra ele mais do que a sua palavra, e além disso estava por poucos dias a ver-se livre do compromisso que ainda o detinha na Bagagem, ainda não julgava tão crítica a sua situação que devesse tomar logo o partido extremo da fuga. Para manter-se na reputação que soubera conquistar, de leal e honrado cavalheiro, forçoso era levar a cabo o odioso drama em que se envolvera. Uma vez casado, ou a pretexto de ir arrecadar seus bens, ou em virtude de uma carta que recebesse de seu pai ou de sua mãe, que estava à morte, chamando- o junto a si, se retiraria poucos dias depois muito honestamente, e sem despertar suspeitas teria tempo de pôr-se a salvo.
Para melhor disfarçar sua perfídia e mais arras dar de generosidade e cavalheirismo, como o crime de Elias era particular, e por ele não poderia ser acusado sem haver parte queixosa, Leonel desistiu da acusação judiciária, mas protestando sempre que apenas o visse solto, ou havia de morrer às suas mãos, ou havia de lavar em seu sangue a afronta de que fora vítima.
Mas seus amigos tiveram o cuidado de dissuadi-lo, fazendo-lhe ver que nenhum desdouro sofria em sua honra em conseqüência do desatino de um louco rematado; que ele seria tão louco como o seu ofensor se fosse arriscar a sua existência nas garras de uma fera intratável, por motivos de pundonor; que se vingava do coice de um burro, ou da cornada de um touro bravio.
Leonel, que não primava pela coragem, e que sabia quanto o seu adversário era vigoroso e destro no manejo de toda a espécie de armas, mostrou ceder com dificuldade a estes conselhos, reservando-se todavia interiormente o direito de tomar alguma cobarde e traiçoeira vingança, se porventura tivesse ocasião.
A riqueza, principalmente quando é acompanhada de um verniz de cortesia, generosidade e cavalheirismo, é sempre cortejada e adulada.
Leonel tinha pois uma numerosa roda de aduladores, que só para não incorrerem em seu desagrado deixaram de cumprir um dever de humanidade para com o pobre moço, que jazia na prisão sozinho, abandonado, sem ser visitado por quase ninguém.
Elias passou essas amargas horas, umas vezes sepultado em profundo abatimento, numa letargia da alma e do corpo, outras em acessos de raiva e exasperação, esbravejando, vociferando, e dando com a cabeça pelas paredes. Estes transportes de furor ainda mais confirmaram a crença em que estavam, de ter ele caído em alienação mental em razão dos horríveis contratempos que o tinham fulminado naqueles últimos dias. O infeliz bem via e conhecia os motivos do abandono em que o deixavam seus conterrâneos por amor de um astuto aventureiro que os soubera engordar, e os lamentava do fundo da alma: mas não podia refletir, sem estremecer e encher-se de furor, na sorte que esperava a pobre Lúcia, nas garras daquele bandido sem fé, sem costumes, sem consciência; e o que mais desesperava ainda era o pensar que ela ali estava bem perto, ela! que era a causa de todos os seus sofrimentos, ouvindo talvez tranqüila os seus bramidos de dor, e reputando- o, como os demais, um louco digno apenas de comiseração.
Estas e infindas outras considerações dolorosas davam-lhe febre e delírio; sentia arder-lhe o crânio e o coração túmido de angústias como que lhe não cabia no peito. A idéia do suicídio, que há dois dias antes lhe apresentara como o único meio de livrar-se daquela situação infernal, já não lhe sorria. O desejo de ver-se vingado o prendia à vida, e essa vingança ele a entrevia pendente sobre a cabeça dos culpados, ameaçadora e terrível. Era esta esperança que o alentava e o fazia suportar com alguma resignação as inclemências da sorte e as injustiças dos homens.
XII – MOEDEIRO FALSO
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.