Por Bernardo Guimarães (1872)
– Fatalidade! eu também, d. Paulina, eu também, da outra vez que aqui estive, jurei a esse moço que nunca da minha parte poria o menor estorvo ao seu casamento...
– Jurou isso?... meu Deus!... não há esperança mais!... eu já dei-lhe o meu sim; e o senhor jurou-lhe o seu... não, ah! ah! ah!... como isto é engraçado!...
– Mas, d. Paulina, para salvá-la, para possuí-la, tudo devo tentar. Vou entender-me francamente com seu primo, dir-lhe-ei tudo sem rebuço, e se ele tem dignidade e nobreza de alma, deve desistir de sua pretensão, e me desobrigará do juramento que lhe dei.
– Roberto?... duvido; tem por mim um amor furioso... é um estonteado, e tem cabeça dura. Roberto há de se casar comigo, ainda que seja à beira da sepultura.
Nesse momento ouviu-se rumor de falas na varanda. Era Roberto que chegava com o médico. Eduardo tomou a mão de Paulina, e beijou-a ternamente; esta respondeu-lhe apertando estreitamente a dele e cravandolhe um olhar, que continha um treno de ternura, de amor e de sofrimento. Seu espírito começava a serenar-se; sentia inefável prazer em saber que era amada por aquele que seu coração escolhera, e nesse momento de gozo ficaram adormecidas todas as suas mágoas e inquietações, todos os seus sofrimentos físicos e morais.
– Ora pois! – dizia ela consigo, graças ao céu, um momento sequer já fui feliz em minha vida. Agora só me resta resignar-me para sofrer e morrer!
Capítulo XII
Dois verdugos
O médico que viera com Roberto, era um padre. Era muito comum naqueles sertões, onde havia quase absoluta falta de médicos profissionais, os padres exercerem também a medicina, sendo a um tempo médicos da alma e do corpo, reunindo em si dois sacerdócios.
Bom ! – disse consigo Paulina, quando soube dessa particularidade; eu creio que hei de precisar mais do padre do que do médico.
O médico foi logo introduzido no quarto da doente, onde se demorou cerca de um quarto de hora.
– Não há de ser nada, senhor Ribeiro, – disse ele saindo; – a menina teve e tem ainda uma forte febre maligna complicada com alguma irregularidade nas funções uterinas. Com as aplicações e o regimen, que vou prescrever, não corre risco algum, e em breve estará sã. Mas olhe que é preciso muita dieta, e muita cautela... Tais achaques são muito comuns aqui pelo sertão porque os senhores fazendeiros,– perdoe-me o dizê-lo, sr. Ribeiro, – são muito desmazelados na criação de seus filhos; deixam os meninos, como esta por exemplo, em uma idade tão crítica, andarem por aí ao rigor deste sol ardente, molharem-se, apanharem sereno, comerem frutas verdes e fazerem mil outras estrepolias...
– Há de ser isso mesmo, – acudiu bruscamente Roberto; – a prima costuma andar aí à toa no quintal o dia inteiro com a cabeça quarando ao sol, comendo só frutas, e quando vem para a mesa não come nada; depois quando é de tardinha vai ali para debaixo da gameleira, e fica apanhando sereno até a noite.
– Eis aí!... não é outra a causa de sua moléstia...
– Mas, senhor padre, – atalhou o fazendeiro, – o mal não é de agora; já vai para um ano que ela sofre.
– Não duvido; ela tem incômodo crônico do estômago, e as funções do útero, como já disse, não são muito regulares. Mas tudo isso complicase agora com uma febre aguda, que é preciso atalhar prontamente.
– Ah! senhor padre! senhor padre! – pensou consigo Eduardo, – se Vossa Reverendíssima lhe examinasse mais a alma do que o corpo, se a ouvisse de confissão em vez de tomar-lhe o pulso, acharia em outra parte a origem da moléstia.
Enquanto Joaquim Ribeiro e o padre conversavam, Eduardo, que assustado com a gravidade e os progressos do mal de Paulina não queria perder tempo, nem adiar para mais tarde a solução do problema de seu destino, chamou de parte Roberto e o convidou para uma conversa particular, decidido a dizer-lhe tudo com a mais rude franqueza. Desceram ambos a escada e dirigiram-se para um canto do curral.
– Senhor Roberto, – começou Eduardo com tom sério e comovido, – sei que o que tenho a dizer-lhe de maneira nenhuma lhe pode ser agradável; vou dar em seu coração um golpe bem cruel; mas tenha paciência; assim é preciso.
– Um golpe!... em meu coração! que quer dizer isto?!... o senhor está caçoando, senhor Eduardo.
– Nunca falei tão sério. Tenha paciência, já lhe pedi... aliás perco o meu tempo. Se fosse só por meu respeito, nunca daria este passo, e hoje mesmo me sumiria para sempre desta casa; mas é por amor daquela pobre moça, que ali jaz penando no fundo de uma cama...
– Pior ! – interrompeu Roberto com impaciência;– cada vez o entendo menos. Deixe-se de rodeios, senhor Eduardo; desembuche, que estou ardendo por saber que alhada é essa.
Roberto já se achava com uma terrível predisposição contra Eduardo, e por isso o recebia, como se costuma dizer, à ponta de baioneta.
– Se soubesse que estava de tão má disposição, e se não fosse tamanha a gravidade do caso, não o incomodaria...
– Não senhor; não há de me deixar assim com a pulga na orelha; já agora diga ao que veio...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.