Por Machado de Assis (1908)
Apesar de não ser dado a melancolias, nem achar que o ofício de banqueiro vá com tais lástimas, separei-me dele com simpatia. Vim pela Rua da Princesa, pensando nele e nela, sem me dar de um cão que, ouvindo os meus passos na rua, latia de dentro de uma chácara. Não faltam cães atrás da gente, uns feios, outros bonitos, e todos impertinentes. Perto da Rua do Catete, o latido ia diminuindo, e então pareceu-me que me mandava este recado: "Meu amigo, não lhe importe saber o motivo que me inspira este discurso; late-se como se morre, tudo é ofício de cães, e o cão do casal Aguiar latia também outrora; agora esquece, que é ofício de defunto".
Pareceu-me este dizer tão sutil e tão espevitado que preferi atribuí-lo a algum cão que latisse dentro do meu próprio cérebro. Quando eu era moço e andava pela Europa ouvi dizer de certa cantora que era um elefante que engolira um rouxinol. Creio que falavam da Alboni, grande e grossa de corpo, e voz deliciosa. Pois eu terei engolido um cão filósofo, e o mérito do discurso será todo dele. Quem sabe lá o que me haverá dado algum dia o meu cozinheiro? Nem era novo para mim este comparar de vozes vivas com vozes defuntas.
20 de setembro
Aquele dia 18 de setembro (anteontem) há de ficar-me na memória, mais fixo e mais claro que outros, por causa da noite que passamos os três velhos. Talvez não escrevesse tudo nem tão bem; mas bastou-me relê-lo ontem e hoje para sentir que o escrito me acordou lembranças vivas e interessantes, a boa velha, o bom velho, a lembrança dos dois filhos postiços... Continuo a dar-lhes este nome, por não achar melhor... Principalmente aquela felicidade média ou turva de pessoas que vão perder um de dois bens do céu, essa expressão que vi em D. Carmo mais forte ainda que no Aguiar...
21 de setembro
Ao sair hoje de casa, vi passar na rua, do lado oposto, a irmã do corretor Miranda, D. Cesária, tão risonha que parecia falar mal de mim, mas não falava, ia só,—ou falava de mim consigo; mas só consigo não teria tanto prazer. Cumprimentamo-nos e seguimos.
22 de setembro
...encantadora Fidélia! Não escrevo isto porque a deseje, mas porque é assim mesmo: encantadora! Pois não é que esta criatura de Deus, encontrando-se comigo de manhã, veio agradecer-me a companhia que fiz aos seus amigos do Flamengo, na noite de 18?
— Não tive merecimento nisso; fui lá, achei-os sós, passei a noite.
— Isso mesmo, D. Carmo disse-me que, se não foi uma noite cheia, foi só por lhe faltarmos o Dr. Tristão e eu, mas que, ainda assim, o senhor teve o dom de nos fazer esquecer.
Sorri incredulamente, depois expliquei o caso, dizendo que, se os fiz esquecer, foi por serem eles o próprio assunto da conversação. . .
— Isso é que ela não me disse, interrompeu Fidélia espantada.
—Nem dirá; nem lho pergunte. O melhor é crer que eu, com os meus cabelos brancos, ajudei a encher o tempo. A senhora não sabe o que podem dizer três velhos juntos, se alguma vez sentiram e pensaram alguma coisa.
— Sei, sei, já tenho visto e ouvido os três.
— Mas nessas ocasiões a senhora dá outra nota recente e viva à conversação.
Era verdade e era cumprimento; Fidélia sorriu agradecida e despediu-se. Eu — aqui o digo ante Deus e o Diabo, se também este senhor me vê a encher o meu caderno de lembranças, — eu deixei-me ir atrás dela. Não era curiosidade, menos ainda outra coisa, era puro gosto estético. Tinha graça andando; era o que lá disse acima: encantadora. Não fazia crer que o sabia, mas devia sabê-lo. Ainda não encontrei encantadora que o não soubesse A simples suposição de o ser tenta persuadir que o é.
No Largo de S. Francisco estava um carro dela, perto da igreja. Íamos da Rua do Ouvidor, a dez passos de distancia ou pouco mais. Parei na esquina, vi-a caminhar, parar, falar ao cocheiro, entrar no carro, que partiu logo pela travessa, naturalmente para os lados de Botafogo. Quando ia a voltar dei com o moço Tristão, que ainda olhava para o carro, no meio do largo, como se a tivesse visto entrar. Ele vinha agora para a Rua do Ouvidor, e também me viu; detive-me à espera. Tristão trazia os olhos deslumbrados, e esta palavra na boca:
— Grande talento!
Percebi que se referia ao talento musical, e nem por isso fiquei menos espantado; quase me esqueceu concordar com ele. Concordei de gesto e de palavra, sem entender nada. Também eu gosto de música, e sinto não tocar alguma coisa para me aliviar da solidão; entretanto, se fosse ele, e apesar de todos os Schumanns e seus êmulos, ao vê-la parar no Largo de S. Francisco e entrar no carro, não soltaria a mesma exclamação, antes outra, igualmente estética, é verdade, mas de uma estética visual, não auditiva. Não entendi logo.
Depois, quando nos separamos na esquina da Rua da Quitanda, entrei a cogitar se ele, ao dar comigo, compôs aquela palavra para o fim de mostrar que, mais que tudo, admira nela a arte musical. Pode ser isto; há nele muita compostura e alguma dissimulação. Não quis parecer admirador de pés bonitos; referiu-se aos dedos hábeis. Tudo vinha a dar na mesma pessoa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Memorial de Aires. Rio de Janeiro: Garnier, 1908.