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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— Eu o vi, acudiu Agrela, perto dêste banco. 

— Onde mete-se então? 

— Daquí não saíu, que também nós o enxergámos alí, e ninguém o viu passar, observou Manuel Abreu. 

— Procurem-no! bradou novamente Campelo, em um segundo acesso de cólera. 

Arnaldo tinha-se efetivamente sumido, e de uma maneira incompreensível. Visto por todos que haviam primeiro acorrido e que asseguravam ainda tê-lo encontrado no terreiro, desaparecera de repente como uma sombra que se houvesse dissipado. 

Entre os que se cansavam na pesquisa estava o João Coité que disse com um ar triunfante: 

— Não querem acabar de convencer-se que o capeta do rapaz é feiticeiro! 

Já a êsse tempo haviam saído ao terreiro D. Genoveva e a filha, inquietas pela irritação do fazendeiro, cuja causa vieram a saber alí, e muito as penalizou, principalmente pela razão da Justa. 

Nenhuma delas, porém, se animava naquele momento a falar ao capitão-mór que passeava de um para outro lado, pensando no desaparecimento de Arnaldo. 

Veio Agrela comunicar a inutilidade da pesquisa. 

— Êle não está aquí e também não saíu, porque além de não o ter ninguém visto fugir, não há rasto nem vestígio de sua passagem. 

O terceiro acesso e ira foi ainda mais terrível que os outros: 

— Pois vão desencová-lo ainda que seja no inferno e tragam-no vivo ou morto. O capitãomór Gonçalo Pires Campelo não seja dono da Oiticica, nem pise mais a soleira de sua porta, se… 

Não acabou o velho de proferir o formidável juramento, que fez tremer quantos o escutavam. D. Flor alçando-se para cingir o pescoço do pai, com a mão mimosa fechou-lhe a bôca murmurando-lhe ao ouvido: 

— Por sua filha, que bebeu o mesmo leite que êle, não jure, meu pai. 

O velho quedou-se um instante, ao cabo do qual travando a mão de D. Flor caminhou com ela para a casa. Chegado a um aposento interior onde ninguém o podia ver, desabafou sua ternura pousando-lhe na face um beijo. Depois vieram ao encontro de D. Genoveva, que os chamava para o almôço. 

Não tardou que aparecesse a Justa, aflita com o que tinha acontecido e ainda mais com as consequências que daí podiam resultar. Faltando-lhe o ânimo para aparecer naquela ocasião ao capitão-mór, esperou que saíssem da mesa. 

— Que foi o que aconteceu, meu Jesús de minha alma? disse a sertaneja, correndo para D. Flor. Não foi senão castigo, minha filha. 

— Castigo de que, mamãe Justa? 

— Do pecado da soberba em que ei caí esta manhã enchendo-me daquele filho e da proteção de Nossa Senhora da Penha de França. Nunca a gente se deve gabar do favor de Deus e dos Santos; mas deve-se fazer ainda mais humilde para merecer a sua graça. Foi o que me ensinou o sr. padre Teles e eu não fiz caso, para agora ser bem castigada. 

— Quem pecou por soberba não foi você, Justa, mas seu filho que chegou a desobedecer ao sr. Campelo, coisa que até hoje nunca se tinha visto nesta fazenda, disse D. Genoveva. 

— Como isto foi, minha Mãe Santíssima, é que eu ainda não sei! Êle que adora o sr. capitão-mór, e daria a vida para serví-lo, como é que havia de faltar-lhe com o respeito? Só se foi alguma tentação do Inimigo! 

— Ou estouvamento de rapaz, que é o mais certp, tornou D. Genoveva. 

— Arnaldo sempre foi de gênio arrebatado, disse D. Flor; mas são uns ímpetos que passam logo, porque êle tem bom coração. 

— E agora, senhora dona, o que vai ser de meu filho, se não me valer com sua intercessão e mais a de meu querubim. 

— O sr. Campelo, você bem sabe, Justa, quando diz uma coisa há de se fazer por fôrça: ninguém o arreda dalí. O melhor é você ir ter com seu filho e trazê-lo à presença do meu marido para pedir perdão da desobediência e cumprir com o que êle mandar. Assim conte que não lhe acontece nada, porque êle era muito amigo do defunto Louredo e também de seu pai. 

— Pois eu vou fazer o que me diz a senhora dona. Agora onde o acharei, a êsse filho de meus pecados? 

D. Flor sorriu-se. 

— Mande mamãe bebé procurá-lo, que ela dá com êle.

— É mesmo! 

Foi-se a Justa. D. Genoveva tornou às lidas da casa, que depois de tão longa ausência reclamava mais que nunca o seu govêrno, para voltar ao arranjo e ordem em que ela costumava trazê-la. 

Flor tinha destinado essa manhã para abrir seus baús e tirar os enfeites e galantarias de que a tinham acumulado, durante a estada no Recife, a ternura de sua mãe e a generosidade do pai. 

Para ajudá-la nessa tarefa e gozar do prazer de admirar aquelas bonitas coisas, chamou Alina; e ambas dirigiram-se à direita do edifício, onde ficavam seus aposentos. 

Havia de ser então mais de nove horas da manhã. O sol, ainda ardentíssimo a-pesar-dos anúncios do inverno, dardejava no céu do mais puro azul, em cuja imensidade não se descobria nem um esgarço de nuvem ou tênue vapor. Majestosa serenidade do clima tropical, em que aliás se ostenta a pujança dessa natureza em repouso, e se pressente a violência de suas comoções, quando percutida pela tempestade. 

(continua...)

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