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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Ouvindo o estrupido do animal que se aproximava e receoso de uma nova refrega, o negro levantou a cabeça a custo, e estremeceu. A égua estava sobre ele; porém, coisa mais terrível do que o vulto do animal tinham distinguido seus olhos. 

Na altura do braço esquerdo da Morena, onde termina a omoplata, apareceu-lhe um semblante ameaçador que o espavoriu. Ao mesmo tempo, semelhante à projeção de mola de aço, vibrou um punho que arrebatou-lhe da mão o trabuco fumegante. 

O Canho pois não estava morto, como supusera o negro, nem sequer ferido. 

Para o gaúcho, o rincho era a palavra do cavalo; ele compreendia o sentido dessa linguagem rude, mas enérgica. Na Morena sobretudo, nenhuma impressão, nenhum movimento traduzia a voz do inteligente animal, que não repercutisse fielmente n’alma do rio-grandense. 

Ouvindo-lhe o nitrido, Manuel adivinhou às primeiras notas o soçobro do temor e a angústia, pela trêmula vibração da voz sempre límpida e argentina. Voltando-se de chofre, entreviu rapidamente o salto da égua e o vulto do negro com o trabuco apontado para ele. Antes do pensamento já o instinto da conservação o tinha lançado ao chão, contra uma leiva natural do terreno, que o podia proteger. 

Fora inútil, se a Morena o não tivesse prevenido, derrubando o negro antes que o tiro partisse. A mãe extremosa acabava de pagar sua dívida de gratidão ao homem que lhe salvara o filho, salvando por sua vez a existência do generoso amigo. 

Manuel o compreendeu; quando ele caiu, já o tiro havia soado, e contudo não fora ferido, nem ouvira sibilar a bala. Estremeceu, pensando que em sua dedicação o intrépido animal se houvesse sacrificado, arrojando-se contra a arma assassina. 

Com que extremo de gratidão e alegria não cingiu ele o colo da Morena, inquieta por vêlo no chão! A égua, porém, não lhe deu tempo de acariciá-la, pois voltou sobre os pés, levando suspenso à espádua o gaúcho seguro apenas pela ponta da bota na anca, e pela mão esquerda segura na cernelha. Não passara de todo o perigo; o negro ainda conservava na mão a arma homicida. 

Arrebatando-a, Manuel a brandiu nos ares, para esmigalhar o crânio do inimigo. Este, erguendo meio corpo sobre os cotovelos, juntou as mãos, implorando compaixão. 

Ainda o gaúcho pôde ver o movimento quando já desfechava o golpe; imprimindo à arma diverso impulso, foi ela, girando como a pedra de uma funda, cair longe numa touça de macega.

— Vai enterrar teu capataz, disse Manuel. 

O negro obedeceu à ordem. A haste da lança, cravada no coração da vítima, surdia fora da cova cerca de uma braça. Manuel quebrou um troço da outra lança com que pelejara Barreda, e atou-o de través com um tento de couro cru, formando os braços de uma cruz. 

Terminada assim a triste cerimônia, procurou no campo uma pedra para deitá-la no pé da cruz, sendo ele o primeiro a praticar esse ato de piedade e respeito pelas cinzas do morto. 

Muita gente ignora o que significa esse costume de chegar o passante uma pedra para a cruz, erigida à beira do caminho. É uma singela devoção do povo. Em falta de lousa, sela-se o túmulo com um cômoro de seixos. 

Quando Manuel partiu desse triste lugar, sentiu na face uma ligeira umidade: era lágrima, ou gota de suor que lhe escorria da fronte? 

Atravessando a Banda Oriental, o gaúcho passou a fronteira em Jaguarão. Queria ver Bento Gonçalves e falar-lhe. Depois do que fizera, carecia para viver tranqüilo da aprovação de seu padrinho. O coronel era para ele o símbolo da coragem, da honra, da justiça, da virtude. Aquilo que ele achasse bom devia merecer a graça de Deus. 

Bento Gonçalves tinha em Camacã duas propriedades: a chácara do Cristal, residência habitual de sua família, e a estância de São João, distante daquela quatro léguas. O serviço militar porém o retinha constantemente em Jaguarão, onde aquartelava o 4º regimento de cavalaria, cujo comando reunia ao da fronteira. 

Muitas vezes o chamavam fora da vila as necessidades do serviço, ou visitas às próximas estâncias, nas quais havia de ordinário jogo forte de parada. Como todo o homem habituado a uma existência cheia de perigo e agitações, o coronel carecia das emoções desse passatempo. 

 

IX 

A VIOLA 

 

Em caminho da fronteira, que ele acabava de transpor para a vila, teve Manuel a fortuna de encontrar o coronel. O comandante oriental, D. Frutuoso Rivera, o convidara para uma tertúlia.  

— Pois agora é que voltas, rapaz? exclamou o coronel, reconhecendo o afilhado. Já te supunha estaqueado! 

— Ainda não, meu padrinho! disse o gaúcho a rir. 

— É que os tais amigos são da pele do cão; o cuchillo não lhes cochila na mão, replicou o coronel fazendo um trocadilho com o nome castelhano de punhal. 

— Desta vez, cochilou e está dormindo, que só há de acordar no dia do juízo. 

— Então?… 

Esta pergunta do coronel foi acompanhada de um revés da mão direita estendida, figurando o bote de uma espada. 

— Nada; plantei-lhe no coração a lança que ele deixara lá em casa há doze anos. 

— Conta-nos isso, rapaz. Quero ver como te saíste. 

(continua...)

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