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#Romances#Literatura Brasileira

Helena

Por Machado de Assis (1876)

— Um dos quatro grandes profetas. Levado cativo a Babilônia, ganhou as graças de Nabucodonosor e as invejas de alguns, que não descansaram enquanto não o viram lançado à fossa dos leões. Milagrosamente, no dia seguinte, foi encontrado são e salvo.

Surgiu, entretanto, um obstáculo temporário. A madrinha de Eugênia, a fazendeira que lhe mandara um dia a opala, que a moça admirou namorando ao mesmo tempo os olhos do futuro noivo, a madrinha de Eugênia adoeceu gravemente, menos ainda da moléstia que a acometeu que dos anos que lhe pesavam nos ombros. Era senhora rica, viúva, flanqueada por duas sobrinhas solteiras, uma cunhada, um primo, dois filhos destes e uma vintena de afilhados. Já daqui se pode inferir a estreiteza das esperanças de Camargo. Posto que ele não tivesse nunca preterido os deveres que lhe impunha o vínculo espiritual, dando à fazendeira todas as provas possíveis de um grande afeto, ainda assim era de recear que a última vontade da moribunda não trouxesse o cunho da estrita justiça, ou, quando menos, de razoável eqüidade. Nestas circunstâncias, a viagem a Cantagalo era urgentíssima, e cumpria realizá-la à custa dos maiores incômodos. Todo o incômodo é aprazível quando termina em legado. Camargo não perdia a esperança desse desenlace igualmente afetuoso e pecuniário. Resolveu ir com a família toda, e avisou por carta ao futuro genro.

Estácio estimou o obstáculo, mas não contou com o que ele trazia no bojo. Chegando ao Rio Comprido achou aflitos o médico e D. Tomásia; Eugênia recusava sair da Corte. Em vão lhe mostravam a conveniência de corresponder, em ocasião tão grave, à afeição da madrinha; debalde lhe diziam que era ser ingrata não ir recolher o último suspiro da venerável senhora, sua mãe espiritual. Eugênia recusava a pés juntos.

Assistiu o noivo à última fase da luta entre os pais e a filha. Esta trazia os olhos vermelhos de chorar; batia com as mãos uma na outra, declarando que só iria à força. Estácio procurou chamá-la à razão, apoiando as reflexões do pai, sem alcançar mais do que ele. Enfim, Eugênia pós uma condição à sua aquiescência:

Irei, se o Dr. Estácio for conosco.

Camargo aprovou a condição in petto; verbalmente, opôs-se ao sacrifício. Estácio enfiara; posto entre a espada e a parede, já a viagem de Eugênia lhe parecia supérflua.

Acompanha-nos? insistiu a moça.

Não é possível, acudiu o médico, tamanho incômodo por um simples capricho.

Pois então não vou!

D. Tomásia ficou um tanto vexada com a teima de Eugênia. Estácio mordia o lábio, olhando para a moça, cujo rosto o interrogava instantemente. Venceu-o o decoro; considerando Eugênia sua mulher, quis cortar por uma cena que lhe parecia ridícula.

Acompanhá-los-ei, disse ele, sem entusiasmo.

A solução era favorável a todos; os três aceitaram de boa feição. Marcou-se a viagem para dois dias depois. D. Úrsula, apesar dos bons olhos com que via o casamento, achou desnecessária a ida do sobrinho, mas não empreendeu dissuadi-lo. Helena aprovou tudo. Ele fez sentir às duas parentas a extensão do sacrifício, e esteve a ponto de retirar a palavra. Era tarde. A última noite passada em Andaraí foi cruel para ele; as horas voaram ligeiras como nunca. Como devia sair no dia seguinte, logo cedo, ali mesmo se despediu da tia e da irmã, despedida de alguns dias que lhe custou como se fora de anos. Prometeu, entretanto, que o regresso seria breve.

O que ele não podia prometer era conjurar o drama que se lhes preparava, drama que ia enfim desenvolver-se, intenso, funesto e irremediável, — do qual não o consolariam jamais nem as doçuras da paz doméstica, nem as glórias da vida pública.

CAPÍTULO XV

Estácio levantou-se ao amanhecer. Uma vez pronto, quis surpreender a tia e a irmã com uma lembrança sua, e escreveu numa folha de papel estas simples palavras: “Até à volta; 6 horas da manhã.” Dobrou-a e foi pô-la sobre a mesa de costura de D. Úrsula. Dali passou à sala de jantar, depois à varanda. Aqui chegando, deu com os olhos em Helena, que o esperava ao pé da escada.

Silêncio! disse graciosamente a moça. Não faça espantos, que pode acordar titia.

Vim saber se você precisa de alguma coisa.

De nada, respondeu Estácio comovido. Mas que imprudência foi essa de se levantar tão cedo?

Cedo! O sol não tarda a cumprimentar-nos. Adeus! muitas recomendações a Eugênia. Não lhe falta nada, não é assim?

Nada.

Estácio recebeu a mão que Helena lhe estendera e ficou a olhar para ela.

Olhe que é tarde!

Dizendo isto, Helena apertou-lhe a mão e procurou retirar a sua; Estácio reteve-a.

Se soubesses como me custa ir!

São apenas alguns dias...

Valem por meses, Helena! Adeus, não te esqueças de mim. Escreve-me; eu escreverei logo que chegar. Não faças imprudências; não saias a passeio enquanto eu estiver ausente.

Adeus!

Adeus!

Estácio quis dar-lhe o abraço da despedida; mas a moça, menos ainda com a palavra que com o gesto, fê-lo recuar.

Não, disse ela afastando-se; as despedidas mais longas são as mais difíceis de suportar.

(continua...)

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