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#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

— O tratamento que proponho é concludente: algumas gotas de éter sulfúrico numa taça do líquido fontâneo açucarado; o cozimento dos frutos do coffea arábica torrados, ou mesmo o thea sinensis; e quando isto não baste, o que julgo impossível, as nossas lancetas estão bem afiadas e duas libras de sangue de menos não farão falta à doente: disse.

— Como ele fala bem, murmurou uma das moças.

Fabrício tomou a palavra.

— Sangue! Sempre sangue! Eis a medicina romântica do insignificante Broussais! Mas eu detesto tanto a medicina sanguinária, como a estercorária, herbária, sudorária e todas as que acabam em ária. Desde Hipócrates, que foi o maior charlatão do seu tempo, até os nossos dias, tem triunfado a ignorância, mas já, enfim, brilhou o sol da sabedoria... Hahnemann... Ah! Quebrai vossas lancetas, senhores; para curar o mundo inteiro basta-vos uma botica homeopática com o Amazonas ao pé!... Queimai todos os vossos livros, porque a verdade está só, exclusivamente, no alcorão de nosso Mafoma, no Organon do grande homem! Ah! Se depois do divino sistema morre por acaso alguém, é por não se ter ainda descoberto o meio de dividir cm um milhão de partes cada simples átomo da matéria! Senhores, eu concordo com o diagnóstico de meu colega, mas devo combater o tratamento por ele oferecido. Uma taça de líquido fontâneo açucarado, e acidulado com algumas gotas de éter sulfúrico, é, em minha opinião, capaz de envenenar a todos os habitantes da China! O mesmo direi do cozimento do coffea arábica...

— Mas por que não têm morrido envenenados os que por vezes os têm tomado?...

— Eis aí a consideração que os leva ao erro! ... Senhor meu colega, é porque a ação maléfica desses medicamentos não se faz sentir logo… às vezes só aparece depois de cem, duzentos e mais anos: eis a grande verdade! ... Mas eu tenho observações de moléstias de natureza da que nos ocupamos e que vão mostrar a superioridade do meu sistema. Ouçam-me. Uma mulher padecia este mesmo mal, já tinha sofrido trinta sangrias; haviam-lhe mandado aplicar mais de trezentas bichas, purgantes sem conta, vomitórios às dúzias e tisanas aos milheiros; quis o seu bom gênio que ela recorresse a um homeopata, que, com três doses, das quais cada uma continha apenas a trimilionésima parte de um quarto de grão de nihilitas nihilitatis, a pôs completamente restabelecida; e quem quiser pode ir vê-ia na rua... E certo que não me lembro agora onde, mas posso afirmar que ela mora em uma casa e que hoje está nédia, gorda, com cores e até remoçou e ficou mais bonita... Outro fato.

— Basta! Basta!

— Pois bem, basta; e propondo a aplicação das nihilitas nihilitatis na dose da trimilionésima parte de um grão, dou por terminado o meu discurso.

— O sr. Leopoldo tem a palavra.

— Senhores, eu devo confessar que restam-me muitas dúvidas a respeito do diagnóstico e, portanto, julgo útil recorrermos ao magnetismo animal, para vermos se a enferma, levada ao sonambulismo, nos aclara sua enfermidade. Além disto, eu tenho fé de que não há moléstia alguma que possa resistir à maravilhosa aplicação dos passes, que tanto abismaram Paracelso e Kisker. Ainda mais: se o diagnóstico do colega que falou em primeiro lugar é exato, dobrada razão acho para sustentar o meu parecer; porque, enfim, se simula similibus curantur, necessariamente o magnetismo tem de curar a baquites. Voto, pois, para que comecemos já a aplicarlhe os passes.

Seguiu-se o discurso de Augusto que, por longo demais, parece prudente omitir. Em resumo basta dizer que ele combateu as raras teorias de Filipe, mas concordou com o tratamento por ele proposto e falou com arte tal, que d. Carolina o escolheu para assistência de sua ama.

Augusto determinou as aplicações equivalentes ao caso, mas, não tendo entrado no número delas a essencial lembrança de um escalda-pés, caiu a tropa das mezinheiras sobre o desgraçado estudante, que se viu quase doido com a balbúrdia de novo levantada no quarto.

— Menos ruído, minhas senhoras, dizia o rapaz; isto pode ser fatal à doente!

— Ora... eu nunca vi negar-se um escalda-pés!

— Ainda em cima de não lhe mandar aplicar uma ajuda, esquece-se também de escalda-pés!

— Se não lhe derem um escalda-pés, eu não respondo pelo resultado!

— Olhem como a doente está risonha, só por ouvir falar em escalda-pés!

— Aquilo é pressentimento!

— Sr. doutor, um escalda-pés! .

— Pois bem, minha senhoras, disse Augusto para se ver livre delas, dêem-lhe o preconizado escalda-pés!

E fugindo logo do quarto, foi pensando consigo mesmo que as coisas que mais contrariam o médico são: primeiro, a saúde alheia, segundo, um mau enfermeiro e, por último, as senhoras mezinheiras.

CAPÍTULO XIV

Pedilúvio sentimental

(continua...)

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