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#Ensaios#Literatura Brasileira

À Margem da História

Por Euclides da Cunha (1909)

Não lhes bastariam, certo, as bombonaças para os chapéus de palha oriundos da indústria graciosa das mulheres do Moyobamba, ou os cascalhos auríferos das vertentes do Pastaza guardadas pelos huambizas ferocíssimos.

Assim, todos os atos, e magníficos decretos, e lúcidos regulamentos, e generosas concessões de terras, do último governo de Castilla, desfechariam nos mais lastimáveis insucessos se, precisamente na derradeira quadra da sua presidência, e no mesmo ano (1862) em que a cultura indiana da quina arrebatava daqueles desertos o seu maior atrativo _ um anônimo, um outro imortal humílimo evadido da nossa História, não aparecesse, eclipsando de golpe os mais imponentes lances administrativos e oferecendo aos peruanos o reagente enérgico que os alentaria até aos nossos dias na rota da Amazônia.

Um brasileiro descobriu o caucho; ou, pelo menos, instituiu ali a indústria extrativa correspondente.

No reconstruir este trecho da nossa História, que versado mais tarde por um historiador merecerá o título de "Expansão Brasileira na Amazônia", não vamos desacompanhados.

Diz-nos um narrador sincero:

"Antes do ano de 1862, não tinha ainda sido explorada a incalculável riqueza da goma elástica... Depois da entrada de alguns brasileiros para o território do Departamento, principalmente do laborioso José Joaquim Ribeiro, começou este rico produto a figurar no catálogo dos que o Departamento exporta para o Brasil. A primeira quantidade exportada foi de 2.088 quilogramas, produto dos ensaios daquele brasileiro que muito teria contribuído para o desenvolvimento dessa indústria, se ao iniciá-la não encontrasse contrariedades nascidas do cupidismo de alguns agentes subalternos que contra ele exerceram todos os ardis..."

Não comentemos o desquerer das autoridades peruanas. Era antigo. Desde 1811 o reportado D. Manoel Ijurra denunciava "los Brazileros más próximos al Perú que tienen la bárbara costumbre de armar expediciones militares con objeto de haccer correrías sobre los indios Maynas, atropelando muchas veces las autoridades..."; ou apresentava-os como "absolutos monopolizadores del comercio de importación o exportación." Cinco anos depois, em ofício alarmante, o Subprefeito de Maynas solicitava providências urgentíssimas "al intuito de que los Brazileros moradores de Caballo-Cocha, salgan fuera de esta provincia, se buenamente no quieren, por la fuerza"; e pintava-os laivando-os dos mais denegridos estigmas. Por fim o Governador-Geral das Missões (1849) determinou se exigissem passaportes de todos os brasileiros que lá entrassem, gaguejando num castelhano emperrado esta razão curiosíssima: "que no se experimentaba provecho alguno en estos negociantes del Brazil; ni menos hay bayonetas con que poder conterlos; hacen lo que quieren metiendo-se por los rios, extraendo zarza, manteca, salado e otras especies..."

Não prossigamos.

Adivinha-se nestas linhas, que poderiam ser prolongadas, a invasão formidável que se alastrava avassaladora para o ocidente, desafiando os ódios do estrangeiro; espraiando-se pelo vale do grande rio, por Loreto, Caballo-Cocha, Moremote, Perenate, Iquitos, até Nauta, na embocadura do Ucaiáli; subindo pelo Ucaiáli em fora até além do Pachitéa: deixando nos mais vários pontos, nos sítios numerosos, nas trilhas coleantes do deserto, e até nos costumes ainda persistentes, os traços indeléveis da passagem.

Se a historiássemos contraporíamos às verrinas oficiais dos subprefeitos apavorados, cujos dizeres se pejoravam à medida que progredia aquela surda conquista do solo, os próprios conceitos de Antonio Raimondi. Mas aquele belo tipo de Joaquim Ribeiro, que em 1868 o maior naturalista peruano foi encontrar nas margens do Itaia possuindo as melhores fazendas do Departamento, concretiza uma réplica irrefragável. Não o pearam tão pequeninos empeços. Criada a indústria extrativa, a exportação da borracha a partir de 1871 erigiu-se preeminente entre as dos demais produtos de Loreto. E as turmas dos extratores, sem nenhuns amparos oficiais, rompendo espontâneos de toda a parte e arremetentes com as mais desfreqüentadas espessuras, ultimaram em pouco tempo a empresa quase secular tantas vezes cindida de reveses.

Desvendou-se todo o Oriente.

Mas há um reverso no quadro.

A exploração do caucho como a praticam os peruanos, derribando as árvores, e passando sempre à cata de novas "manchas" de castilloas ainda não conhecidas, em nomadismo profissional interminável, que os leva à prática de todos os atentados nos recontros inevitáveis com os aborígenes — acarreta a desorganização sistemática da sociedade. O caucheiro, eterno caçador de territórios, não tem pega sobre a terra. Nessa atividade primitiva apuram-se-lhe, exclusivos, os atributos da astúcia, da agilidade e da força. Por fim, um bárbaro individualismo. Há uma involução lastimável no homem perpetuamente arredio dos povoados, errante de rio em rio, de espessura em espessura, sempre em busca de uma mata virgem onde se oculte ou se homizie como um foragido da civilização.

(continua...)

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