Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Os Bruzundangas

Por Lima Barreto (1922)

Certo dia, ele leu nos jornais a notícia que o doutor Adhil Ben Thaft tinha tido permissão do governo para dar alguns tiros com os grandes canhões do grande couraçado da esquadra do país — "Witopá".

Leu a notícia toda e feriu-lhe o fato da informação dizer: "Esse maravilhoso clínico é, certamente, um exímio artilheiro..."

Clínico maravilhoso! Com muito esforço de memória, pôde conseguir recordar-se de que aquele nome já por ele fora lido em qualquer parte.

Maravilhoso clínico! Quem sabe se ele, não curaria daquela dorzita ali, no estômago? Meditava assim, quando lhe entra pela venda adentro, o Sr. Hutekle, empregado na Repartição das Arapucas, funcionário público, homem sério e pontual no pagamento.

Krat foi-lhe logo perguntando:

— Senhor Hutekle, o senhor conhece o doutor Adhil Ben Tad?

— Thaft, emendou o outro.

— Isto mesmo. Conhece-o, Senhor Hutekle?

— Conheço.

— E bom médico?

— Milagroso. Monta a cavalo, joga xadrez, escreve muito bem, é um excelente orador, grande poeta, músico, pintor, goal-keeper dos primeiros...

— Então é um bom médico, não é meu caro senhor?

— É. Foi quem salvou a minha mulher. Custou-me caro... Duas consultas...

— Quanto?

— Cinqüenta mil-réis cada uma... Some.

O merceeiro guardou a informação, mas não se resolveu imediatamente a ir consultar o famoso taumturgo urbano. Cinqüenta mil-réis!

E se não ficasse curado com uma única consulta? Mais cinqüenta...

Viu na mesa o cozido, olente, fumegante, farto de nabos e couves, rico de toucinho e abóbora vermelha, a namorá-lo e ele a namorar o prato, sem poder gozá-lo com o ardor e a paixão que o seu desejo pedia. Pensou dias e afinal decidiu-se a descer até à cidade, para ouvir a opinião do doutor Adhil Ben Thaft sobre a sua dor no estômago, que lhe aparecia de onde em onde.

Vestiu-se o melhor que pôde, dispôs-se a suportar o suplício das botas, pôs ao colete o relógio, a corrente e o medalhão de ouro com a enorme estrela de brilhante que parece ser o distintivo dos pequenos e grandes negociantes de todas as terras, e encaminhou-se para a estação da estrada de ferro. Ei-lo no centro da cidade.

Adquiriu a entrada, isto é, o cartão, nas mãos do contínuo do consultório, despedindo-se dos seus cinqüenta mil-réis com a dor de pai que leva um filho ao cemitério. Ainda se o doutor fosse seu freguês... Mas qual! Aqueles não voltariam mais...

Sentou-se entre 'cavalheiros bem vestidos e damas perfumadas. Evitou encarar os cavalheiros e teve medo das damas... Sentia bem o seu opróbrio, não de ser taverneiro, mas de só possuir de economias duas miseráveis dezenas de contos... Se tivesse algumas centenas — então, sim, ele! — ele poderia olhar aquela gente com toda a segurança da fortuna, de dinheiro, que havia de alcançar certamente, dentro de anos, o mais breve possível.

Um a um, iam eles entrando para o interior do consultório; e pouco se demoravam. Suza, começou a ficar desconfiado... Diabo! Assim tão depressa? Boa profissão, a de médico! Ah! Se o pai tivesse sabido disso... Mas qual! Pobre pai! Ele mal podia com o peso da mulher e dos filhos, como havia de pagar-lhe mestres? Cada um enriquece como pode...

Foi, por fim, à presença do doutor. Krat gostou do homem. Tinha um olhar doce, os cabelos já grisalhos, apesar de sua fisionomia moça, umas mãos alvas, polidas.

Perguntou-lhe o médico com muita macieza de voz:

— Que sente o senhor?

Krat Ben Suza foi-lhe dizendo logo o terrível mal no estômago de que vinha sofrendo, há tanto tempo, mal que aparecia e desaparecia mas que não o deixava nunca. O doutor Adhil Ben Thaft fê-lo tirar o paletó, o colete, auscultou-o bem, examinou-o demoradamente, tanto de pé, como deitado, sentou-se depois, enquanto o negociante recompunha a sua modesta toilette.

Suza sentou-se também, e esperou que o médico saísse de sua meditação. Foi rápida. Dentro de um segundo, o famoso clínico dizia com toda segurança:

— O senhor não tem nada.

O humilde vendeiro ergueu-se de um salto da cadeira e exclamou indignado:

— Então, senhor doutor, eu pago cinqüenta mil-réis e não tenho nada! Esta é boa! Noutra não caio eu!

E saiu furioso do consultório que merecia da cidade uma romaria semelhante à da milagrosa Lourdes, no doce país de França.

A ORGANIZAÇÃO DO ENTUSIASMO

A curiosa República de que me venho ocupando, é acusada pelos seus filósofos de não ter costumes originais. É um erro de que participam quase todos os seus naturais — erro muito naturalmente explicável, pois mergulhados na sua vida, não possuem pontos de referência para aquilatar da originalidade das usanças especiais de sua terra.

Os estrangeiros, porém, logo as percebem e contam nos seus livros.

Li muitos livros de viagem na Bruzundanga; e, em nenhum deles vi referências a um costume curioso daquele país —"a manifestação".

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3132333435...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →