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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

O alagoano, que pela primeira vez tratava com o Manhães, estranhou-lhe o modo agressivo com que discutia e não retrucou. Valdevino continuou a falar no meio do silêncio dos companheiros, não perdendo ocasião de aludir à sua viagem à Europa e ao bom acolhimento que tivera em Lisboa.

Camargo apoiava tudo quanto ele dizia por espírito de coleguismo e em atenção ao diretor da Revista. Mas Valdevino lembrou-se de que se comprometera a jantar no Globo com uns rapazes, e, estabanadamente, despediu-se de todos. Foi então, só então, que o Camargo abriu a boca, para dizer que o Valdevino era um idiota, uma besta!

Ismael Pessegueiro olhou Furtado e baixou a cabeça. Evaristo, mais positivo e menos convencional, estendeu a mão ao poeta:

— Toque, amigo! O senhor agora disse tudo o que muita gente pensa e não tem coragem de dizer.

— Um homem que vive a escrever asneiras e a rabiscar sujidades! Um repetidor de frases ocas! Porque veio da Europa, entende que é já um mestre, um alto personagem nas letras... Uma cavalgadura é o que ele é!

— Pobre Valdevino!... — lamentou Furtado ironicamente.

— Pobre Dr. Condicional! — fez Evaristo.

— É o que lhes digo — continuou o poeta. — Quando Ramalho Urtigão aqui esteve, no Rio, a primeira pessoa que correu a beijar-lhe os pés foi ele, o Valdevino.

— Os pés ou as mãos? — inquiriu malicioso, Evaristo.

— Os pés... que ele quando adula é para beijar os pés. Em literatura, como em política, é um rafeiro dos medalhões...

— Oh!... — balbuciou com um risinho especial o representante de Alagoas.

— Pode acreditar, doutor! O Valdevino Manhães é conhecido na Rua do Ouvidor; toda a gente sabe de quanto é capaz aquele idiota...

O secretário interveio com uma pilhéria.

— Vocês esquecem-se de que estão a falar do autor do Juca Pirão... – Belo título de uma obra: Juca Pirão — continuou Camargo. — Vejam vocês até onde pode chegar a estupidez humana!

— E é verdade que existe essa obra? — perguntou o deputado.

— É, doutor, infelizmente é! Faça o senhor idéia: um livro com o título de Juca Pirão!

O Dr. Ismael carregou uma risada cheia de sarcasmo.

— Deixem o pobre homem... suplicou o Furtado. — O Valdevino é uma boa criatura...

— Ouvi dizer que tem a mania do renome literário, é verdade? — perguntou o Evaristo...

— Mania que o há de levar ao hospício — resmoneou o Camargo.

— Esses literatos, esses literatos... — disse com mistério o Holanda.

— Vivem se digladiando! — acabou Furtado. — Queres mais cerveja, oh Camargo?

— Não, não, merci...

— Doutor, outro copo...

— Obrigado...

— E tu, Evaristo?

— Eu também recuso.

— Então podemos levantar acampamento.

Ergueram-se os quatro fumando, com grandes ares de capitalistas.

A Rua do Ouvidor estava num de seus dias de festiva alacridade, inteiramente cheia, como um rio a transbordar, tumultuoso, murmurejante e iluminado por um sol acariciador de primavera. Iam e vinham os habitués de ambos os sexos, numa procissão de toilettes vivas, num burburinho de festa pública entrechocando-se, acotovelando-se. Famílias conversavam à porta das lojas, moças e velhas madamas, senhoras de todas as idades e de todos os tamanhos, rindo, como se estivessem no interior de suas casas, beijando-se alto, enquanto os pais e os maridos discutiam política à porta dos cafés, à espera que elas acabassem de "fazer as compras". Ecoavam gargalhadas entre os homens. Uma banda de música a tocar polcas e valsas faria toda aquela gente esquecer-se de que estava na Rua do Ouvidor e cair num grande bailado ao ar livre. As maiores notabilidades da política, da literatura e das artes, os mais conhecidos escritores e homens de Estado viam-se ali, em grupos, à porta do Café de Londres, do Castelões ou do Pascoal, frechando, com o olhar, o madamismo suspeito e as demoiselles ricas, assistindo ao desfilar tumultuoso das cocotes, e das condessas, biografando-as uns aos outros com risinhos de inveterada malícia, observando-lhes o andar, os meneios, a toilette, a opulência das carnes, como se as quisessem devorar num ímpeto de canibalismo sexual, acompanhando-as a perder de vista, gulosos, famintos e banais. Moços de flor ao peito, no rigor da moda, alguns chegados de Paris, iam e vinham, numa ostentação pedantesca de polainas, de casimiras claras, de coletes brancos e de frases tolas, cumprimentando à direita e à esquerda, eretos como figuras de vitrina. Os armazéns de modas enchiam-se; enchiam-se os cafés e as confeitarias, e o zunzum aumentava de entontecer, dentro das lojas e na rua.

— Sabes quem é aquela, oh Evaristo? - disse, parando, o secretário. Indicava uma senhora de presença estranha, muito bem vestida, que ia pelo braço de um cavalheiro, na outra calçada. Um movimento de ansiosidade propagou-se no trecho da rua.

— Quem é?

— A baronesa de Lima-Verde, uma das mulheres mais formosas do Rio de

Janeiro...

— Oh!... Vai com o marido...

— Isso é o que ainda não está suficientemente provado.

— Que queres dizer?

— Afirmam uns que o marido, o barão, passeia na Europa e que ela, a baronesa... não gosta de andar só...

(continua...)

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