Por Adolfo Caminha (1895)
As janelas da enfermaria davam para o mar, ficavam defronte dos Órgãos, abriam para o fundo melancólico da baía. Na sala umas dez camas de ferro, colocadas em ordem, simetricamente imobilizavam-se com os seus cobertores de lã vermelha dobrados a meio e pondo uma nota viva de sangue na brancura dos lençóis. Aí, como em todos os alojamentos do hospital, predominava um cheiro erradio de desinfetantes, o vago odor característico das casas de saúde e dos necrotérios, insuportável, às vezes, como uma exalação de sepultura aberta. Os doentes, em seu uniforme branco de algodão, erguiam-se e tinham licença para recrear fora, nas dependências do estabelecimento, licença especial do médico a quem estavam entregues. Cada enfermaria tinha o seu especialista. Bom-Crioulo fora recolhido à seção dos escrofulosos, à grande sala que dizia para o mar e donde se gozava um belíssimo aspecto de natureza americana. Indiferente a tudo que não fosse o grumete, cuja lembrança infligia-lhe as maiores torturas, ninguém o vira sorrir depois que baixara ao hospital.
Carrancudo, o olhar atrevido e ameaçador — fugindo à companhia dos outros, não podia esquecer, não podia apagar do espírito aquela idéia-pesadelo: o grumete nos braços doutro homem... Ah! bastava isso para tirar-lhe o sossego, para fazer dele um ente miserável, contorcendo-se nas angústias de um ciúme bárbaro. Aleixo fazia-o padecer noites inteiras, dias sucessivos, como ave que se debate em estreita gaiola de ferro. — Amava muito decerto, queria um bem louco ao pequeno, preferia-o a todas as mulheres bonitas do mundo!
Enquanto iam-lhe cicatrizando as feridas roxas do corpo tatuado pela chibata, abria-se-lhe na alma rude de marinheiro uma grande vácuo; terrível sensação de desespero acometia-o cada vez que pensava no outro, nesse grumete sem alma que o iniciara no amor e que o fazia sofrer as amarguras de uma vida de condenada... Bom-Crioulo sentia-se transformar inteiramente; alguma cousa profunda e grave, que ele próprio não sabia explicar, assim como um prenúncio fatal de desgraça, punha-o triste, arrebatava-o às alegrias da camaradagem, dando-lhe um aspecto estranho de malvadez rebuçada.
— Aquilo não era hospital, aquilo era um inferno! monologava crispando o beiço em assomos de raiva feroz. Estava-se-lhe esgotando a paciência.
Já uma vez pedira alta; se o queriam levar a capricho, então adeus!... Morria, mas não dava parte de fraco... Era homem, que diabo! e um homem deve mostrar para que veio ao mundo...
Embirrava com toda gente, afinal: — Enfermeiros brutos! Cozinheiros de frege! O próprio médico, assim que lhe dava as costas, era logo insultado.
Seu consolo nesse abandono de galé, nessa espécie de viuvez d’alma, era o retrato de Aleixo, uma fotografia de baixo preço tirada na rua do Hospício, quando ele e o pequeno moravam juntos na corveta. Representava o grumete em uniforme azul, perfilado, teso, com um sorriso pulha descerrando-lhe os lábios, a mão direita pousada frouxamente nos espaldar de uma larga cadeira de braços, todo meigo, todo petit-jesus... Bom-Crioulo guardava essa miniatura religiosamente, com cautelas de namorado, e à noite, quando se ia deitar, despedia-se dela com um beijo úmido e voluptuoso. Habituara-se àquilo do mesmo modo que se habituara a fazer o sinal-da-cruz antes de fechar os olhos. Uma superstição pueril de amante cheio de ternuras... Agora, porém, esse amuleto inestimável acompanhava-o a toda a parte. Durante o dia mesmo, ele sacava-o fora do bolso e punha-se numa contemplação mística, num vago enleio ideal, a olhar o retrato de Aleixo, como se daquele cartão inanimado e frio lhe pudesse vir um raio de amor, um luar de esperança...
Achava-o muito parecido com o original, oh! mesmo muito... Os olhos, a boca, o sorriso, o nariz... tudo! Como é que se podia, num momento, copiar assim as feições de uma criatura! Era ele, exatamente o Aleixo!
E ficava admirado, ficava idiota, perdia a cabeça, quando seus olhos caíam sobre o pequeno “registro”... Ria-se, às vezes, para ele, sem que ninguém visse, retirado para um cano obscuro, longe dos outros.
E cada dia que passava era como se fosse um ano, um século, uma eternidade!
Lembrou-se de pedir a alguém que lhe escrevesse um recado ao grumete, duas palavras, uma linha...
Talvez ele nem soubesse onde estava o Bom-Crioulo... Falou a um rapazinho empregado no hospital: era favor, sim? um favorzinho... E ali mesmo, na enfermaria, perto da janela que olhava para os Órgãos, quase ao escurecer, traçaram estas palavras:
“Meu querido Aleixo
Não sei o que é feito de ti, não sei o que é feito do meu bom e carinhoso amigo da Rua da Misericórdia; Parece que tudo acabou entre nós. Eu aqui estou no hospital, já vai quase um mês, e espero que me venhas consolar algumas horas com a tua presença. Estou sempre a me lembrar do nosso quartinho... Não faltes. Vem amanhã, que é domingo.
Teu
Bom-Crioulo”
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.