Por Adolfo Caminha (1893)
Nem sequer tomava café no hotel. Pulava da rede às pressas, sem perder tempo, enfiava as botinas, as calças, o paletó surrado, e abalava por ali afora, escadas abaixo. Às vezes ainda encontrava a porta da viúva fechada. Batia devagar com a ponta dos dedos: “— Sou eu, Loureiro!” Imediatamente D. Amanda vinha abrir, embrulhada nos lençóis, cabelos soltos, em mangas de camisa. E a faina começava. Escancaravam-se as portas para dar entrada livre ao arzinho fresco da manhã que se derramava por toda a casa como um fluido que se evaporasse de repente de um depósito aberto. O Loureiro tirava o paletó, abria a toalha no ombro, e enquanto se punha a ferver água para o café, refestelava-se num confortável banho frio puxado de véspera na grande tina que havia no “banheiro”. Era tempo de cajus. O guarda-livros tinha a mania dos depurativos. Antes do banho emborcava um copo de mocororó “para retemperar o sangue”, dizia ele. Depois o cafezinho quente, coado pelas mãos de D. Amanda, e, finalmente, o belo dia passado, currente calamo, tranqüilamente num longo idílio naquele canto obscuro de Fortaleza, com a “sua santa”. O hotel servia-lhe apenas para dormir, porque o Loureiro era filho do Rio Grande do Norte onde perdera pai e mãe, não tinha no Ceará sequer um parente em cuja casa pudesse passar as noites. Amigos capazes de merecerem toda a sua confiança também não os tinha. Pacato, concentrado e pouco expansivo, dificilmente comunicava-se a quem não o procurasse em primeiro lugar. Sua natureza egoísta aprazia-se com a vida sedentária. — Um esquisitão de força, uma espécie de urso! diziam os seus camaradas de comércio.
E os dias passavam, longos e modorrentos, cheios de sol, sem nuvens no azul, iguais sempre, eternamente monótonos.
Novembro estava a chegar. Novembro, o mês dos cajus e das ventanias desabridas, com as suas manhãs friorentas e claras, em que, às vezes, nuvens sombrias acumulavam-se no horizonte e vão subindo até desmancharem-se completamente num chuvisco ligeiro que apenas borrifa de leve a superfície seca do solo, pondo cintilações diamantinas nas folhas do arvoredo; novembro, o mês dos estudantes, o mês dos exames, que passa levando consigo as ilusões cor-de-rosa dos que deixam os bancos preparatórios e dos que começam a vida pública.
O Zuza não tinha pressa em se formar. De resto era uma questão de tempo o seu bacharelato. Resolvera passar mais alguns meses no Ceará com a família, e então ir-se-ia completar o curso. Já agora o Ceará não lhe era inteiramente uma terra má. Habituava-se pouco a pouco a essa vida de província pacata em que se trabalha um quase nada e fala-se muito da vida alheia. Maria do Carmo tinha-lhe escrito uma cartinha lacônica e expressiva confessando o seu amor. Entregou-a ela mesma, no Passeio Público, numa quinta-feira, à noite, uma belíssima noite de luar. A avenida Caio Prado tinha o aspecto fantástico de um terraço oriental onde passeavam princesas e odaliscas sob um céu de prata polida, com suas filas de combustores azuis, encarnados e verdes, com as suas esfinges... Senhoras de braço dado, em toaletes garridas, iam e vinham ao macadame, arrastando os pés, ao compasso da música, conversando alto, entrechocando-se, numa promiscuidade interessante de cores, que tinham reflexos vivos ao luar: de um lado e de outro da avenida duas alas de cadeiras ocupadas por gente de ambos os sexos, na maior parte curiosos que assistiam tranqüilamente o vaivém contínuo dos passeantes.
O plenilúnio muito alto dir-se-ia uma grande medalha de prata reluzente com o anverso para a terra, suspensa por um fio invisível lá em cima na cúpula azul do céu. Defronte da avenida o mar, na sua aparente imobilidade, tinha reflexos opalinos que deslumbravam, crivado de cintilações, minúsculas, largo, imenso, desdobrandose por ali afora a perder de vista, e para o sul, muito ao longe, a luz branca do farol tinha lampejos intermitentes, de minuto a minuto. No porto a mastreação dos navios destacava nitidamente, inclinando-se num movimento incessante para um e outro lado, como oscilações de um pêndulo invertido.
— Uma noite admirável, hein, Maria? dizia Lídia de braço com a amiga, levada pela onda dos diletantes.
A normalista, porém, não deu atenção à Campelinho, muito distraída, caminhando maquinalmente, a pensar no estudante. Decididamente entregava-lhe a carta, fosse como fosse. Eram oito horas já e o Zuza ainda não havia chegado. Estava aflita, inquieta, impaciente. E se ele não fosse ao Passeio nessa noite? Ela rasgaria a carta e nunca mais havia de o procurar. O seu coração batia com força. Ia e vinha, cansada de esperar, com ímpetos de voltar para casa.
— Tem paciência, menina, disse a outra. O rapaz não tarda. Está no clube, talvez.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.