Por Inglês de Sousa (1891)
A palavra circulava. Era um diabinho o demônio do Manduquinha Barata!
O Chico Ferreira soprava a flauta. O Manduca sapateiro raspava com fúria a rabeca, fazendo macaquices.
A maior parte dos convidados havia chegado às portas da sala, para ver a dança. Os compassos monótonos da Varsoviana apressavam-se. O querosene dos lampiões tresandava.
Quando cessou a música por deliberação unânime da orquestra, os pares separaram-se ofegantes. As damas correram a tomar as cadeiras, tonteando, rubras, excitadas. Os cavalheiros suados, abanando-se com o lencinho, dirigiram-se às portas, com o fim de se furtarem à evidência, misturando-se com os espectadores em grupos. O Manduquinha Barata veio para o lado de Macário que a curiosidade fizera adiantar-se até à porta da sala, e, descuidosamente, se deixara ver de todos, distraído na contemplação da linha de senhoras novas, sentadas nos canapés e cadeiras. O Manduquinha, um fedelho, quis brincar com o sacristão, e gritou, do meio da sala, para chamar a atenção:
— Olá, este rato de sacristia por cá! Então, seu Macário, que faz aí que não vem tirar a sua dama? Tinha graça, saias com saias!
Os olhares apontaram para o Macário, numa corrente elétrica o riso disparou pelas bocas.
Macário quis responder com um desaforo àquele desacato, mas não valia a pena! o Manduquinha era um criançola a quem puxaria as orelhas na primeira ocasião.
Grave e digno, o sacristão afastou-se sem dizer palavra, e meteu-se pelo corredor. Um homem de sobrecasaca de brim branco, e chapéu de manilha na cabeça, passava sobraçando botijas de cerveja Bass. Era o dono da casa, o Bernardino Santana. Macário parou e cumprimentou.
— Oh, quem é você?
— Sou o Macário de Miranda Vale, sacristão da Matriz.
— Ah, meu filho me disse que havia convidado a você para espiar o baile. Que diz, hein? Está de arromba! Eu quis que tudo ficasse decente, por causa das más línguas. Tem muita cerveja, licor, vinho do Porto, chá e café. Pela madrugada há de haver chocolate. Não faça cerimônia. Eu não sou soberbo...
Macário começou um cumprimento. Não faltava ninguém, estava ali toda a gente de Silves!
— Quais, não me diga isso, retorquiu o Bernardino, são bondades que não mereço. De mais a mais falta muita gente. O diacho da pândega dos castanhais chama muito povo. Se não fossem os castanhais a casa não chegava!
— Com licença... acrescentou, seguindo o seu caminho. A orquestra dava o sinal duma contradança. Macário continuou pelo corredor até à sala de jantar, transformada em sala de palestra e de jogo. A uma mesa pequena o capitão Fonseca e o Neves Barriga jogavam o pacau, a grão de milho. A uma outra mesa, maior, jogavam o três-sete o Valadão, o Costa e Silva, o Mapa-Múndi e o Regalado, a grão de milho também. Estavam na sala, além desses, o José Antônio Pereira, o professor Aníbal e outras pessoas gradas. A um canto, solitário e sarcástico, o Chico Fidêncio rola as unhas, chupando de vez em quando o cigarro.
A sala de jantar estava cheia de fumo, havia copos de cerveja, a meio vazios, sobre as mesas. Da cozinha vinha um cheiro forte de café e de peixe frito.
— Um de rei! bradava triunfante o Neves, na ocasião em que Macário chegava. Tome lá para o seu tabaco, compadre.
Sereno e grave, o coletor respondeu:
— São coisas da sorte, felicidades de cada um. A vaza é nossa, compadre.
— Leve lá, que essa não me faz falta, acudiu generosamente o Neves. E metendo a mão no bolso traseiro da sobrecasaca tirou a caixa de couro e abriu-a, magnânimo:
— Vá lá uma pitada de amigo, compadre.
— Estou encaiporado hoje, exclamou o Mapa-Múndi, esfregando o lenço no rosto, no pescoço, nas mãos, para enxugar o suor em bica. Começou por aquela estopada do sermão, e acaba por esta infelicidade ao jogo. Macacos me comam, se eu não largo isto já.
— Tenha paciência, Guimarães, a roda anda e desanda. Não há meia hora que estamos jogando, e já você está desesperado. Tenha paciência, homem.
E o Costa e Silva baralhava as cartas, judicioso e satisfeito.
— Isto de sorte é assim mesmo, opinou o Valadão, tossindo. É como as mulheres, muda.
O Regalado aplaudiu. O Valadão tinha boas saídas! O diabo era aquela tosse, mas também porque o Valadão não deixava as xaropadas e não se tratava pela homeopatia? A homeopatia era o único sistema verdadeiro, isso estava mais que provado.
O coletor voltou-se para a mesa do três-sete, e aprovou a opinião do Regalado; ele em pessoa, era a melhor prova da excelência do sistema. Curara-se dum ar de vento pela homeopatia, depois de desenganado, mas entendia que além das doses se devia usar o Óleo de mamona.
— E o leite de maçarunduba para o peito, acrescentou o Neves intervindo. É muito bom para abertura do peito.
Para o peito, não há como o peitoral de cereja de Ayer, disse o Costa e Silva. Tenho lá na loja uma porção de caixas, é bom e barato.
— Nada de misturas! exclamou o Regalado, largando as cartas. A homeopatia só, sem mais nada! Ou bem que samos, ou bem que não samos...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.