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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

— Agora, disse a velha, com um suspiro de alívio – vocês podem cuidar do trabalho, que ficarei tomando conta da casa. Se não fosse esta pobreza, tomaria uma menina para fazer-me companhia, varrer o terreiro, dar-me um caneco d'água, enquanto estivessem fora labutando... Já passei, aqui, dias e dias sem ver vivalma, até que a Luzia voltasse da obra... Que dias compridos!...

— Dias que não voltarão, tia Zefa, porque aqui estou eu, que a não largo mais...

— Se houvesse por aí – continuou a velha – uma pasta de algodão, fiaria um novelo para não estar banzando sem fazer nada... e só pensando na moléstia ...

Às nove horas Luzia, ansiosa por saber o que lhe começara a contar Alexandre, a revelação interrompida pela sobrevinda insolente de Crapiúna, partia com o almoço para o desconsolado preso, que, mal terminada a refeição, lhe perguntou se sabia alguma coisa de novo; e, pois lhe a rapariga respondesse com simples gesto negativo, disse, à puridade, suspeitar da interferência maligna de algum interessado em desgraçá-lo.

— Sabe o que me fizeram – continuou, amargurado - Levantaram-me uma calúnia... Você conhece a Gabrina, aquela moça morena, que perdeu a mãe, há pouco tempo?... Pois não inventaram que eu lhe havia dado dinheiro e dois cortes de vestido?...

— O quê?!... – exclamou Luzia, franzindo os sobrolhos, e encarando no moço.

— Eu que nunca alevantei meus olhos para semelhante criatura senão para salvá-la, quando nos encontrávamos no trabalho.

— Quem disse isso?

— Há gente para tudo, até para levantar falsos contra os seus semelhantes.

— Mas... quem inventou esse aleive?... Ela?!... É possível que uma rapariga tão moça tenha maldade para tanto?...

— Disse que eu andava há muito tempo atrás dela, seduzindo-a com promessas de casamento e que, sozinha no mundo, sem ter quem se doesse dela, não se lhe dera de consentir... Veja que mulherzinha mais desalmada... E eu, disse ela, lhe dera os mimos para que ela saísse logo de casa comigo...

— E você jura que isso é mentira?...

— Eu?... Eu não preciso jurar; basta, Luzia, que lhe afirme...

— Por certo... Demais, que tenho eu com os seus particulares?... Você não tem necessidade de negar... Mentira ou verdade, é livre, desimpedido, senhor da sua vontade para empregar o bem-querer em quem for do seu agrado. Isto não é da minha conta...

— Mas... queria explicar...

— Para quê? São desnecessárias para mim essas explicações. Deve dá-las ao Delegado...

— Luzia – continuou Alexandre, fitando-lhe uns olhos pisados de mágoa – Você tem sido, abaixo de Deus, minha protetora, meu anjo da guarda nesta desgraça, que me apanhou. Não tenho outra pessoa que puna por mim... se me abandonar...

— Abandonar!... Não penso em semelhante ingratidão. Além disso, é obrigação fazer o que tenho feito pelo senhor e ainda mais, se necessário for, muito embora, depois de solto, satisfaça o capricho do seu coração. Serei sempre a mesma, somente não estou para levar fama sem proveito, como já me tem acontecido...

— Sei quanto tem sofrido por minha causa...

— Não vale a pena. Fui eu quem lhe trouxe caiporismo. Mas, só peço a Deus que me ajude a tirá-lo desta cadeia. Depois, o senhor toma o seu rumo e eu o meu. Será melhor assim para ambos...

Houve prolongada pausa. Alexandre, conturbado àquelas palavras secas e cruéis, contemplava, num misto de espanto e mágoa, a figura da moça, enteada, e de olhos cerrados, quase absorta em torturantes pensamentos. Rompeu ele, a custo, o oprimente silêncio.

— Que rumo tomarei, Luzia, senão o seu? Para onde for, hei de acompanhála como a minha estrela, a minha guia, segui-la como o cachorro vai atrás do dono que o abandonou e o despreza. Se eu entulho o seu caminho, se quer ver-se livre de mim, não me tire daqui; não empregue mal os seus passos... Deixe-me entregue à minha sorte, apodrecendo nesta sepultura de vivos, infamado... esquecido como um malfazejo, que nem compaixão merece. Só lhe peço a esmola de não desconfiar da minha inocência... Caiu-me em cima uma infelicidade que não sei explicar, uma vingança de mulher, de inimigos miseráveis; mas não sou ladrão... Nunca!...

— Vingança de mulher!... – murmurou Luzia, num grande entono de cólera indomável.

— Atenda-me. Essa, Gabrina, além de má, é ingrata. Quando a mãe caiu doente e foi desenganada, foi comigo que se achou para arranjar remédios e um caldo chilro para a infeliz. Eu sabia que a filha era uma doida, que apressara a morte da mãe com desgostos, arrebates e más respostas, por isso tive somente em mira fazer obra de caridade para não a deixar morrer à míngua. Você sabe que morreu mesmo; e, então, a filha foi para a companhia da Chica Seridó; e nunca mais me ocupei com a vida de semelhante desmiolada... É verdade que não faltou quem atribuísse os meus atos a embelezamento pela moça, que dava cabo ao machado, inculcando-se...

— Já lhe disse que nada tenho com isso, nem desconfio do senhor...

— Então por que me ameaça com a separação?...

(continua...)

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