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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

A senhora pusera-se a cismar, distraída, coçando de leve a cintura, o lugar das ligas e as outras partes do seu corpo que estiveram comprimidas por muito tempo. Mônica voltou com uma camisola toda cheirosa, impregnada de junco, a qual, abrindo-a com os braços, enfiou pela cabeça de Ana Rosa, esta ergueu-se e deixou cair a seus pés a camisa servida e conchegou a outra à pele, afagando os seus peitos virgens num estremecimento de rola. Depois suspirou baixinho e deu uma carreira para a rede, na pontinha dos pés, como se não quisesse tocar no chão.

A cafuza ajuntou zelosamente a roupa dispersa pelo quarto e guardou as jóias.

— laiá quer mais alguma coisa?

— Água, disse a moça, aninhando-se já nos lençóis defumados de alfazema. Só se lhe via a graciosa cabeça, saindo despenteada dentre nuvens de pano branco.

A cafuza trouxe-lhe uma bilha de água, e a senhora, depois de servida, beijou-lhe a mão.

— Boas noites mãe-pretinha. Abaixe a luz e feche a porta.

— Deus te faça uma santa! respondeu Mônica, traçando no ar uma cruz com a mão aberta.

E retirou-se humildemente, toda bons modos e gestos carinhosos.

Mônica orçava pelos cinqüenta anos; era gorda, sadia e muito asseada; tetas grandes e descaídas dentro do cabeção Tinha ao pescoço um barbante, com um crucifixo de metal, uma pratinha de 200 réis, uma fava de cumaru, um dente de cão e um pedaço de lacre encastoado em ouro. Desde que amamentara Ana Rosa, dedicara-lhe um amor maternalmente extremoso, uma dedicação desinteressada e passiva. Iaiá fora sempre o seu ídolo, o seu único 'querer bem”, porque os próprios filhos esses lhos arrancaram e venderam para o Sul. Dantes, nunca vinha da fonte, onde passava os dias a lavar, sem lhe trazer frutas e borboletas, o que, para a pequenina, constituía o melhor prazer desta vida. Chamava-lhe “sua filha, seu cativeiro” e todas as noites, e todas as manhãs, quando chegava ou quando saia para o trabalho, lançava lhe a bênção, sempre com estas mesmas palavras: “Deus te faça uma santa! - Deus te ajude! Deus te abençoe!” Se Ana Rosa fazia em casa qualquer diabrura, que desagradasse a mãe-preta, esta a repreendia imediatamente, com autoridade; desde, porém, que a acusação ou a reprimenda partissem de outro, fosse embora do pai ou da avó, punia logo pela menina e voltava-se contra os mais. Havia seis anos que era forra. Manuel dera-lhe a carta a pedido da filha, o que muita gente desaprovou, “terás o pago!...” diziam-lhe. Mas a boa preta deixou-se ficar em casa dos seus senhores e continuou a desvelar-se pela laia melhor que até então, mais cativa do que nunca.

Ana Rosa, mal ficou sozinha, no aconchego confidencial da sua rede, intima tranqüilidade do seu quarto frouxamente iluminado à luz mortiça do candeeiro de azeite, principiou a passar em revista todos os acontecimentos desse dia. Raimundo avultava dentre a multidão dos fatos como uma letra maiúscula no meio de um período de Lucena; aquele rosto quente, de olhos sombrios, olhos feitos do azul do mar em dias de tempestade, aqueles lábios vermelhos e fortes, aqueles dentes mais

brancos que as presas de Uma fera, impressionavam-na profundamente. “Que espécie de homem estaria ali!...”

Procurava com insistência recordar-se dele em algum dos episódios da sua infância—nada! diziam-lhe. entretanto, que brincara com ela em pequenino, e que foram amigos, companheiros de berço criados juntos, que nem irmãos. E todas estas coisas lhe produziam no espírito um efeito muito estranho e singular. As meias sombras, as reservas e as reticências, com que a medo lhe falavam dele, ainda mais interessante o tomavam aos olhos dela. “Mas, afinal, quem seria ao certo aquele belo moço?... Nunca '“o explicaram; paravam em certos pontos, saltavam sobre outros como por cima de brasas; e tudo isto, todos estes claros que deixavam abertos a respeito do passado de Raimundo, todos esses véus em que o envolviam como a Uma estátua que se não pode ver emprestavam-lhe atrações magnéticas, Um encanto irresistível e perigoso de mistério, uma fascinação romântica de abismo. Entontecia de pensar nele. O hibridismo daquela figura, em que a distinção e a fidalguia do porte se harmonizavam caprichosamente com a rude e orgulhosa franqueza de um selvagem produzia-lhe na razão o efeito de Um vinho forte, mas de Uma doçura irresistível e traidora ficava estonteada; perturbava-se toda com a lembrança do contraste daquela fisionomia, com a expressão contraditória daqueles olhos, suplicantes e dominadores a Um tempo; sentia-se vencida, humilhada defronte daquele mito; reconhecia-lhe certo império, certa preponderância que jamais descobrira em ninguém; quanto mais o comparava aos outros, mais o achava superior, único, excepcional.

(continua...)

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