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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

— Não, respondi eu, muito séria — isso é apenas a garantia da sua palavra e da minha impunidade, caso tenha eu algum dia de eliminá-lo para sempre de minha família. Esse documento só servirá na hipótese de que o senhor falte ao cumprimento de sua palavra, porque então, juro-lhe que o farei matar...

Ah!

— Sem dúvida. E ainda está em tempo de voltar atrás. O senhor ainda se não comprometeu comigo a coisa alguma.

— Recuar? Acha V. Ex.a que eu possa recuar, desistir da única felicidade que ambiciono neste mundo?!

Pense bem, antes de responder...

— Não há que pensar! Uma recusa em nada me adiantaria; V. Ex.a dispõe já de minha vida; tem-na fechada na mão! Tanto vale dar-me a morte, negando-me sua filha, como me fazendo assassinar.

O senhor só será assassinado se não cumprir com a sua palavra. Tenha a bondade de dizer o que exige de mim.

— É pouco. O senhor, depois de casado com minha filha, não coabitará com ela; o senhor morará só, numa boa casa, bem servida e bem mobiliada, que porei às suas ordens; ao passo que Palmira continuará a residir em minha companhia e só estará com o marido o tempo e às vezes que eu consentir. Serve-lhe?

Mas eu terei então de viver separado de minha esposa?

— Separado totalmente, não. O senhor poderá vê-la e estar com ela freqüentemente, não digo todos os dias, mas quase todos. Prometo mesmo que minha filha passará ao lado do marido um ou mais dias; levo até a condescendência a tolerar que fiquem juntos uma ou outra noite. Mas, desde que eu a reclame ou vá buscá-la, o senhor não poderá opor-se a que ela venha para a minha companhia...

— V. Ex.a está gracejando com certeza... ou suporá que a minha intenção é privá-la de ver a senhora sua filha todas as vezes que quiser? Mas, se assim for, valha-me Deus! não vejo razão para não morarmos juntos!...

— Não! não! Não estou gracejando, nem admitirei, nunca, que o senhor more conosco. Nunca! E só consinto no casamento, sob as condições expostas. Se elas lhe convêm, o senhor passará o documento, e minha filha será sua esposa...

Mas, permita, minha senhora, que...

— É inútil, senhor, toda e qualquer reclamação. Repito que só consentirei no casamento de minha filha com o senhor, ou seja com quem for, nas condições apresentadas. Se quer algum tempo para refletir, pode retirar-se; dou-lhe quinze dias.

Leandro, que agora parecia ouvir minhas palavras como ouve um condenado a sentença de morte, apertava os lábios, franzia as sobrancelhas e cerrava os punhos, mal contendo a sua agonia. Afinal, disse com o ar submisso e a voz resignada:

— Para que refletir, minha senhora?... Estou disposto e estou pronto para tudo. Aceito o compromisso!

— Pois aí, na saleta ao lado, declarei, erguendo-me da cadeira — encontrará o senhor papel e tinta; passe o documento pela minuta que lhe vou dar. Já a tenho escrita. Com licença.

E saí da sala, para ir buscar a minuta à gaveta da minha secretária, e principalmente para respirar, no alívio daquela solução.

Ah! felizmente estava passado o grande escolho!

De volta fui ter com Palmira. À minha primeira palavra, ela declarou, enrubescendo e sorrindo, que ouvira toda a minha conversa com Leandro.

Bisbilhoteira!... E o que tens tu a observar?... perguntei-lhe.

Eu?... Mamãe bem sabe que sempre acho bem feito tudo o que a senhora fizer...

Dei-lhe um beijo na testa e voltei ao salão, depois de fazer-lhe sinal que podia vir também.

CAPÍTULO XIV

Ai, quanto me custou a levar a cabo aquela singular conferência com meu futuro genro!... Como devia eu parecer-lhe caprichosa e ridícula!... Mas está claro que não havia de sacrificar minha filha a um falso escrúpulo de momento, a um miserável egoísmo de minha vaidade pessoal. Seria covardia indigna de mim — abandonar, à primeira dificuldade da campanha, todo o meu trabalho de tanto tempo, e comprometer para sempre a felicidade de Palmira e por conseguinte a minha própria.

Depois do pedido, principiamos logo a cuidar dos aprestos para o casamento. Mandei preparar a casa do noivo, e dispus com todo o esmero, lá em minha residência, os aposentos destinados à noiva. Eu e minha filha acompanhamos as obras com igual empenho e dedicação. Tanto em uma casa como na outra, tudo se fez para o completo conforto de um par; dir-se-ia que se tratava de acomodação, não de um, mas de dois casais.

Para meu futuro genro destaquei um pequeno e galante prédio que possuíamos em Botafogo. Ficou excelente depois de bem mobiliado e guarnecido com esmero. Para minha filha mandei arranjar, lá em nossa casa nas Laranjeiras, onde ela nascera e onde eu habitava havia vinte e dois anos, uma sala, uma larga alcova de casados, um quarto de estudo e oratório, outro de vestir, e um cômodo de toucador e banho; tudo isso independente, por modo que ela ficasse em liberdade e pudesse ter as suas entrevistas com o marido, quando as não realizasse em casa dele. Ficou tudo muito bom.

(continua...)

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