Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

- Não, não estava morta, infelizmente, mas estava muito moída de bordoada! E, ainda bem não me tinha visto entrar na sala, começou a chorar com gana e disse-me então que o borracho do marido, além de que lhe não dava de comer, punha-a naquele estado. "Tem fome?" perguntei-lhe eu. "Muita" respondeu-me ela com a voz fraca. "Quer vir cear comigo?" "Onde?" "Em minha casa". "E meu marido?..." "Mande-o plantar batatas!" Ela aceitou; pôs um xale sobre a cabeça, chamou a mulatinha e saímos todos três.

Quando o Almeida chegou a esse ponto da sua narração, ouviram-se fortes soluços dentro da alcova de Teobaldo. O Almeida sacudiu os ombros e prosseguiu:

- Desde essa noite ela ao meu lado substituiu minha mulher. Despedi a mulatinha, que era alugada, montei esta casa e...

- E o marido?

- Morreu pouco depois, no hospital.

- Não deixou filhos?

- Creio que não; pelo menos foi o que ela me disse.

- Bem! fez Teobaldo, erguendo-se. De sorte que tudo isso que aí está no primeiro andar foi comprado pelo senhor?

- Tudo, e a casa também.

- Logo, tudo lhe pertence?

- Não, porque pertence àquela ingrata...

- E está sempre disposto a separar-se dela?...

- De certo.

- E quanto ela lhe custava em despesa por mês?

- Para que deseja saber?

- Para medir a altura do meu sacrifício.

- Dava-lhe oitenta mil réis por mês em dinheiro e comprava-lhe muitas coisas: roupa, calçado, chapéus, tudo que ela precisava.

- Bem. Pode ir quando quiser.

- Estamos então entendidos, não é verdade? concluiu o Almeida, apertando a mão do estudante e ganhando a saída; fico ao seu serviço - rua do Piolho, n.0 5.

- Seja feliz! disse Teobaldo, sem lhe voltar o rosto. E, logo que o viu sair chamou por Ernestina.

- Ouviu o que eu acabo de praticar? perguntou ele.

- Ouvi... disse ela abaixando os olhos.

- E no entanto a senhora tem plena certeza de que eu nada fiz para merecer semelhante espiga!

- Por que não declarou enquanto era tempo?

- Porque nunca me desculpo comprometendo uma mulher, seja ela quem for, ainda que eu lhe vote a mais completa indiferença.

- Então o senhor não me tem amor?

- Não, digo-lhe agora com franqueza, já que assim o quis.

- Mas por que não disse isso mesmo ao Almeida? por que consentiu que ele me abandonasse!... por que não lhe pediu para...

- Eu não peço nada a ninguém...

E, enquanto ela soluçava:

- Pelo respeito que devo a mim mesmo, tive de comprometer-me a sustentá-la. Seja! Darlhe-ei uma mesada, mas nunca porei os pés nesta casa. Retiro-me hoje mesmo.

- O senhor também me abandona?

- Não a abandono, porque nunca a amparei!

- Sou muito desgraçada! exclamou ela, deixando-se cair sobre uma cadeira, a soluçar. O senhor perdeu-me para sempre!

- Essa agora é melhor! Eu não a perdi! Não tenho culpa de que a senhora seja indiscreta!

Quem lhe mandou vir ao meu quarto e fechar-se por dentro? Ora essa!

- Ai, meu rico Almeida! Como tu é que eu não encontrarei nenhum!

A esta exclamação de Ernestina a porta da sala abriu-se; o tipo do Almeida apareceu de novo, não com o aspecto de há pouco, mas risonho e ressumbrante de ventura.

- Oh! Ainda o senhor? disse Teobaldo.

- Ouvi tudo, meu amigo...

- Ouviu ou escutou?

- Escutei, escutei por detrás da porta...

E estendendo-lhe a mão:

- Toque!

- Hein?...

- Toque! Desejo apertar a sua mão! Poucos homens tenho encontrado tão nobres como o senhor! Seu procedimento para com uma mulher, que o acaso comprometia, foi mais do que de um fidalgo, foi de um príncipe! Toque!

Teobaldo consentiu afinal que o Almeida lhe apertasse a mão, mas resolveu de si para si mudar-se quanto antes daquela casa.

- Nada! refletia ele, enquanto os outros dois se abraçavam chorando. Isto não me convém! É sempre desagradável estar entre um tolo e uma mulher apaixonada! Safo-me!

VI

Com efeito, Teobaldo, daí a dias mudava-se para o Hotel de França, abandonando a Ernestina todos os trastes que ele possuía no segundo andar...

Foi então que lhe chegou às mãos uma carta do pai, a primeira que tratava de questões pecuniárias. O barão, a pesar seu, tinha de entrar nesse assunto e pedia ao filho que apertasse um pouco os cordéis da bolsa.

Não estamos no caso de fazer muitas larguezas, meu querido filho, dizia ele depois de confessar que « sua vida achava-se um tanto complicada; ultimamente persegue-me um azar terrível: em nada do que empreendo me saio bem, e a continuarem as coisas deste modo teremos fatalmente a ruína pela proa! É preciso que desde já restrinjas as tuas despesas. No primeiro ano de Rio de Janeiro gastaste um conto de réis, no segundo quase três e ainda não findou o terceiro e já tens despendido neste muito mais do que nos outros dois reunidos. Acredita que não te falaria nisto se a tal não me obrigassem as circunstâncias. Acabo de ajustar contas com o meu correspondente, não lhe fiz recomendação nenhuma a teu respeito, porque entendo melhor faze-la a ti próprio; tens bastante critério para avaliar o que aqui vai dito e tomares sérias medidas a respeito de tua vida!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3132333435...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →