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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Fez-se logo o almoço ao ar livre, debaixo de uma árvore, e à sobremesa acudiram os brindes à felicidade dos noivos e a tudo aquilo que é de costume brindar nessas ocasiões. Depois, o Lobato estendeu-se sobre a relva, tirou um jornal do bolso das calças e pôs-se a toscanejar sobre o artigo de fundo; enquanto Helena, de camaradagem com a mulher dele se entretinha a adiantar um trabalho de agulha que levava dentro da sua cesta.

Os namorados, sempre juntos, ficaram a conversar.

O sol estava já um tanto alto. Fazia calor. As árvores, agora. pareciam convidar a gente para ir deitar à tepidez aprazível das suas sombras. Reinava um grande silêncio pela quinta; só se ouviam os rumores confusos do campo e a voz longínqua de algum pastor, tangendo além o seu rebanho pelas montanhas.

Helena estendera-se mais na cadeira de balanço em que se havia assentado, deixou cair esquecida sobre os joelhos a costura, e foi pouco a pouco adormecendo no gozo plácido da digestão do almoço. A mulher de Lobato, mal a viu fechar os olhos, levantou-se e foi ter com o marido, que, às voltas com seu jornal, estava prestes a fazer o mesmo que Helena; assentou-se ao lado dele, tomou-lhe no colo a cabeça e começou a acariciar-lhe os cabelos. O Lobato aninhou-se melhor no regaço da mulher, e adormeceu de todo.

Cecília, entretanto, passeava do lado oposto pelo braço do noivo. Pedro Ruivo falava-lhe do seu amor e dizia a impaciência que o devorava naqueles últimos longos dias.

Ela sorria, olhando para o chão, e deixava que o rapaz lhe apertasse apaixonadamente o braço carnudo e bem feito.

— Se soubesse quanto sofro!... disse ele, aproximando o rosto do de Cecília. E um tormento! Hei de ver chegar o instante de minha felicidade e ainda me parecerá um sonho!...

— Falta tão pouco!... murmurou ela, com um sorriso adorável.

— Oh! faltam séculos! exclamou ele, beijando-lhe a mão. Faltam séculos!

E, arrastados pelo prazer de estar juntos, iam andando por debaixo das árvores, esquecidos de tudo e só cuidosos do seu amor.

A certa altura Cecília quis voltar, mas Pedro pediu-lhe que não, com um olhar úmido de ternura.

— Ainda não voltemos... É tão bom estarmos assim unidos, a conversar sozinhos! Tão poucas ocasiões temos tido para as nossas confidências...

— Sim, mas é que podem reparar. Voltemos! Não é bonito ficarmos aqui!...

— Espera! disse o moço, segurando Cecília pela cintura; espera um instante...

E puxou-a para si:

— Não te vás! Ouve!

Ela fugiu com o rosto, toda vergada para trás, nos braços do noivo, e suplicava:

— Não! Não insista! Podemos ser vistos! Deixe-se disso!...

Mas ele não atendeu, perseguindo-lhe o rosto com os lábios estendidos.

— Não! repetia ela. Não! não insista! Oh! Eu fico zangada.

— Mas, meu bem, tu não deves ser assim comigo! Nós somos quase casados!...

— Mas ainda não somos!

— Tens medo de qualquer coisa?...

— Tenho medo de tudo!

— Ora!... resmungou Pedro Ruivo.

E ficou muito sério.

— Estás zangado?... perguntou ela com meiguice. — Não sei. É melhor não falarmos nisso!

E continuaram a andar para diante de braço dado.

Não trocaram uma palavra.

Estás zangado comigo?... perguntou Cecília novamente, vergando o rosto para encarar o rapaz.

Ele respondeu dando-lhe um beijo em cheio nos olhos.

Ela recuou com um grito, mas Pedro Ruivo empolgou-lhe de novo a cintura e puxou Cecília para um banco de pedra que havia próximo.

Quando tornaram para casa, Helena notou a filha um tanto sobressaltada.

— Aconteceu-te alguma coisa? perguntou-lhe. Parece que te assustaste.

Cecília negou.

— Era do calor naturalmente.

E logo que se achou sozinha, cobriu o rosto com as mãos e desatou a soluçar nervosamente.

Contudo o resto do dia correu em paz, e à tarde arrumaram-se as cestas e puseram-se todos de novo a caminho para a cidade.

Pedro Ruivo encontrou em casa uma carta tarjada de preto: era a notícia da morte de seu pai. Pouco se impressionou, esperava já por isso mesmo, e, como estivesse muito fatigado do passeio do dia, adiou para depois os transportes do seu amor filial; deitou-se, e daí a instantes dormia profundamente.

Causou no Porto e no Minho grande espanto a toda a gente o saber que o pai de Pedro Ruivo, em vez de deixar ao filho uma boa fortuna, apenas lhe deixara algumas dívidas. D. Helena não o queria acreditar, e só se capacitou da verdade, quando a ouviu narrada entre lágrimas pelo próprio órfão.

— Com que o Sr. ficou inteiramente pobre?! exclamou ela, com um ar que nunca até então lhe vira o futuro genro.

— É verdade! respondeu este, sacudindo muito triste a cabeça; infelizmente, é verdade!...

— Ora essa!... resmungou a professora, pálida de raiva. Há coisas neste mundo!...

— É a sorte, D. Helena... acrescentou o Ruivo, limpando os olhos.

— E agora?! interrogou ela.

— Resta a resignação! Eu por mim saberei conformar-me com o destino!

— Mas é que nem todos pensam como o senhor! Há de permitir-me observar-lhe que era do seu dever de cavalheiro prevenir-nos em tempo da desgraça que o ameaçava. Ora essa!

— Mas se eu não sabia de coisa alguma, D. Helena...

— É impossível, senhor!

(continua...)

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