Por Aluísio Azevedo (1884)
— Ó Borges! interrompeu o Barroso, ofendendo-se. Eu ainda sou o mesmo! Ainda sou aquele mesmo amigo para a vida e para a morte! Por que estás mudado e porque já não dás idéia do que foste, não se segue que os mais também se tenham transformado! Oh!
— Bem sei, bem sei, meu bom amigo; perdoa! E olha, vai sábado lá à casa; a mulher arranjou uma festa... leva contigo quem quiseres.
— Sempre as festas! censurou o Barroso acremente. Sempre as festas!...
— Que queres tu? Filomena obriga-me a estas coisas! Hoje, creio até que eu próprio já não poderia passar sem isso! Tudo vai do hábito! — É imperdoável, mas irei, irei à tua casa...
E meneando a cabeça:
— Pobre Borges! Pobre Borges!...
— Traze mais cerveja! disse este ao caixeiro, com uma voz plangente.
— Pois vais beber ainda?... observou o outro admirado.
— Quero festejar o restabelecimento de nossa amizade!
— Seja; mas eu não te posso acompanhar. Bem sabes que a minha conta é um copo...
— Sei, sei! Quantas vezes noutro tempo, assentados invariavelmente nos fundos da venda do Sampaio, não fiz caretas ao teu copinho de cerveja!... Então era eu quem se admirava de que "houvesse no mundo alguém que a bebesse por gosto..." entretanto... tu continuas a tomar a tua cervejinha todas as noites, ao passo que eu...
— Todas as noites... confirmou o Barroso. É o meu vício! Com a diferença de que agora, em vez de a tomar na casa do Sampaio, tomo-a quase sempre ao lado de minha mulher.
— É verdade! Não me lembrava que havias também casado. E como vais te dando com a vida?
— Bem! Não tenho razão de queixa! A Sabina, justiça se lhe faça, é uma excelente mulher! Bom gênio... acomoda-se com tudo... não gosta de festas!... Às vezes até é preciso que eu a obrigue a sair de casa para distrair-se um bocado, coitada!
— Sim? hein?...
— Vivemos como Deus com os anjos!...
Houve uma pausa.
— Já temos um pequeno, sabes?... acrescentou ele depois.
Borges continuou silencioso, a cabeça derreada numa taciturnidade invejosa. Só mudou de posição para esgotar o copo e tornar a enche-lo.
— Ainda?! censurou o outro. — Que queres, homem?!...
E depois de alguns goles:
— Com que então, és feliz?... E suspirou.
— Sou, graças a Deus! sou! respondeu o Barroso estirando-se na cadeira. Lá a minha Eva não é nenhuma senhora que meta vista, lá isso não é!... Ao contrário, coitada! não serve para se haver com etiquetas e cerimônias; porém, no que se diz — arranjo de casa, doçura de gênio, tratamento do filho e mimos cá com o nhonhô... nisso não quero que haja segunda! Meiguice ali! Ela é incapaz de uma resinga! Sempre a mesma! Sempre! Além disso muito asseada, muito amiga de arrumar e ativa, ativa que faz gesto! Ainda há pouco tempo ficamos três dias sem criada. Pois, filho! acredita que a Sabina, arregaçou as mangas, meteu-se na cozinha, agarrou-se a uma vassoura, e, tantas voltas deu, tanto virou, que a criada não fez falta! Foi preciso que eu ralhasse para a ver sossegar um instante! Não! como dona de casa não quero que haja outra!... mas também podes ver de que maneira a trato!...
— Ai. ai! suspirou o Borges. Garçon!, mais cerveja.
— Não bebas mais!, aconselhou o Barroso.
— Deixa-me!, balbuciou o outro limpando os olhos. Deixa-me!
Quando se levantaram para sair, o marido de Filomena, muito atacado dos nervos, muito excitado pela cerveja, chorava como uma criança.
Consola-te, homem! dizia o amigo, batendo-lhe no ombro. Consola-te! Mais tem Deus para dar que o diabo para tomar!
Porém, no dia seguinte, quem fosse à casa do Sr. barão de Itassu, das nove da noite às seis da madrugada e o visse fantasiado de chicard no meio da dança, não seria capaz de acreditar que ali estivesse o mesmo homem da véspera.
Era de um cômico o Borges de cabeleira de arminho e capacete com penacho vermelho. O seu vigoroso tipo de montanhês não se acomodava bem dentro da extravagante camisola de seda cor de rosa, franjada de ouro, que lhe mostrava os ombros e os grossos braços nus, e parecia reagir contra as pitorescas botas de montar, que lhe iam até ao joelho.
— Falta-te qualquer coisa!... dissera-lhe a mulher a considerá-lo de alto a baixo, na ocasião em que ele lhe perguntou que tal o achava. Deves dar mais elasticidade aos movimentos; não trazer esse capacete assim caído sobre a nuca, e puxar o canhão das botas mais para cima.
Ela é que apareceu encantadora numa fantasia espanhola, que lhe deixava bem patente o rijo desenho do corpo e mostrava um princípio de pernas, parte do colombino seio, e completo aquele famoso pescoço cor de camélia, tormento de muita gente nas poucas vezes que se expunha.
Os adoradores crivavam-no à ponta de olhares gulosos, e desfaziam-se em galanteios.
A festa foi no primeiro pavimento, e toda ela de um brilho original e deslumbrante.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.