Por Aluísio Azevedo (1884)
— Cá está a despensa. Compramos tudo em porção, do mais caro, mas também podes ver a fazenda! Tudo de primeira! Ah! Eu cá sou assim, — um monstro! Meus hóspedes não se podem queixar!
E destapava vivamente a lata das farinhas e dos feijões, mostrava o vinho engarrafado em casa, as mantas de carne-seca ressumbrando sal , o arroz ,o café, e o resto.
Tudo de primeira! — repetia com entonações mercantis, a passar ao colega um punhado de feijões. — Tudo de primeira!
— Ë exato, resmungou Amâncio, sem ver.
Isto agora são quartos de hóspedes, enunciou Coqueiro seguindo adiante. — Aqui embaixo só temos três. Neste, disse mostrando o n° 1, está o Dr. Tavares, um advogado de mão-cheia; caráter muito sério!
No segundo declarou que morava o Fontes:
— Não era mau sujeito, coitado! Fora infeliz nos negócios: quebrara havia dos anos e ainda não tinha conseguido levantar a cabeça.
E abafando a voz:
— Dizem que ficou arranjado...não sei!...Paga pontualmente as suas despesas, mas é um “unha-de–fome”, regateia muito, chora — vintém por vintémo dinheiro que lhe sai das mãos! Está sempre com uma cara muito agoniada, sempre se queixando. E agora, vão ver:
furão como ele só; especula com tudo; tem o quarto cheio de fazendas, fitas e tetéias de armarinho; vende essas miudezas pelas casas particulares, e dizem que faz negócio. A mulher, uma francesa coxa, é empregada na Notre Dame e só vem a casa para dormir.
E, indicando o n° 3 :
— Aqui é o Piloto.
— Que Piloto? Perguntou logo Amâncio.
— O Piloto, homem! Aquele repórter da Gazeta!
Amâncio não conhecia.
— Ora quem não conhece o Piloto! Um rapaz tão popular. Um que anda sempre ligeiro, olhando para os lados, como um calango. Não conheces?!
Amâncio disse que sabia quem era, - para acabar com aquilo.
— Bom hospede! Acrescentou o outro. — Também só aparece à noite; não incomoda pessoa alguma.
— Bem.... disse Amâncio com bocejo. São horas de ir-me chegando.
— Que?! Bradou Coqueiro. —Tu jantas conosco! Minha gente conta contigo...
não te dispensamos! E, demais, quero mostrar-te o resto da casa. Vem cá ao segundo andar.
O provinciano lembrou timidamente que isso podia ficar para outra ocasião; mas o Coqueiro respondeu puxando-o pelo braço na direção da escada:
— Venha para cá! Não seja preguiçoso!
Depois de subir, acharam-se em um corredor estreito e oprimido pelo teto. Ao fundo uma janela de grades verdes coava tristemente a luz que vinha de fora. Liase nas portas em algarismos azuis, pintados sobre um pequeno círculo branco, os números de 4 e 11.
— Aquilo tinha aspectos de casa de saúde... pensou Amâncio, com tédio.— Não devia ser muito agradável morar ali. Todos os quartos, entretanto, estavam tomados.
Coqueiro principiou logo, em voz soturna, a denunciar os competentes moradores: — N°4 — O Campelo, um esquisitão, porém bom sujeito, do comércio; não comia na casa senão aos domingos e isso mesmo só de manhã. N.° 5 — o Paula Mendes e a mulher; casal de artistas, davam lições e concertos de piano e rabeca; muito conhecidos na Corte. N.° 6 — Um guarda-livros; bom moço, tinha o quarto sempre asseadinho e à noite, quando voltava do trabalho, estudava clarinete. O N.° 7 era de um pobre rapaz português; doente: vivia embrulhado em uma manta de lã, por cima do sobretudo, e saía todas as manhãs a passeio para as bandas da Tijuca.
A porta do N.° 8 estava aberta e Amâncio viu de relance, a cauda de uma saia que fugia para o interior do quarto. E logo uma voz aflautada, de mulher, gritou:
— Cora! Fecha essa porta.
— É uma tal Lúcia Pereira... segredou o Coqueiro — mora ai com o marido, um tipo!
Estavam na casa há muito pouco tempo. Coqueiro não podia dizer ainda que tais seriam, porque só formava o seu juízo depois de paga a primeira conta.
O N° 9 era do Melinho — uma pérola! Empregado na Caixa de Amortização; não comia em casa; mas, as vezes, trazia frutas cristalizadas para Mme. Brizard e Amelinha. Belo moço!
Coqueiro não se lembrava como era ao certo o nome do sujeito que ocupava o N° 10 : “Lamentosa ou Latembrosa, uma coisa por ai assim!” ele tinha o nome escrito lá embaixo. — Mas que homem fino! Delicadíssimo! Um verdadeiro gentleman! E tocava violão com muito talento.
O n.° 11, que ficava justamente encostado à janela do corredor, pertencia a um excelente médico, o Dr. Correia; estava, porém ,quase sempre fechado, visto que o doutor só se utilizava do quarto para certos trabalhos e certos estudos, que, por causa das crianças, não podia fazer em casa da família. Vinha às vezes com freqüência e às vezes não aparecia durante um mês inteiro; mas pagava sempre e bem.
Esse quarto, como o outro que ficava na extremidade oposta do corredor, tinha saída para a chácara.
Amâncio propôs ao Coqueiro que descessem por aí.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.