Por Aluísio Azevedo (1897)
Foi entre o fumo das batalhas, exclamou ele estacando ao fundo do aposento e fitando o genro, que formei o meu caráter e o meu coração! Foi entre o fuzilar da metralha e o clamor dos moribundos, que se escoou a minha mocidade, limpa e vermelha, como o sangue de um justo! Nunca a mentira me anuviou o olhar, nunca a vergonha me desmaiou as faces! Fui reto e valente! Mil vezes arrisquei a vida pela pátria, mil vezes mergulhei no fogo, abraçado ao pavilhão brasileiro! Entretanto, em paga de tudo isso, ela, a pátria, só me dá o esquecimento! E a sociedade, a grande sociedade! só me dá, de quinze em quinze dias, uma inventiva pelo Jornal do Comércio! Maldito sejas tu, Brasil ingrato! Fui intrépido, leal e generoso, contudo irei para o fundo da terra isolado e crivado de insultos, como se fosse um bandido!
E avançando para Alfredo, bradoulhe com uma voz terrível:
— Tu mesmo, desgraçado, não te lembrarias de fazerme esta visita, se te sentisses menos infeliz! Vieste cá pela simpatia do desespero; entraste, porque és velho conhecido da negra miséria que cá está. Sabias que aqui pelo menos, não te cuspiriam nas costas, não te bateriam no chapéu, nem te voltariam enjoados o rosto! porém fizeste mal em vir! eu vou perfeitamente só para a sepultura. Volta por onde vieste, miserável! que já há por cá bastante mágoa, bastante agonia, bastante sofrimento! Vai exibir noutra parte a tua mingua, que ela mais me apoquenta e me irrita! Sai!
E o coronel apontoulhe a porta:
— Anda! Sai!...
Alfredo obedeceu, de cabeça baixa; tomou o chapéu, e saiu humilde e silencioso, como um cão enxotado.
Mas, ao passar pela sala de jantar, chamou a criada, que dormia, e disselhe fosse ver o amo, que estava mal.
E, ao chegar à rua, abriu a soluçar, com uma grande aflição.
— Até este!... dizia ele; até este!... A moléstia fêlo ficar como os outros!
E assentouse à soleira de uma porta, para chorar mais à vontade.
Um pequeno que passava gritoulhe:
— Ó Marmelada!
XIV
DESCOBRESE O AUTOR DAS MOFINAS
As mofinas desde que se converteram para Melo Rosa em fonte de receita, tornaramse muito mais desabridas e aleivosas. Melo excedia à expectativa do comendador Moscoso.
O coronel, coitado! já não as lia, porque nesses últimos três anos quase não se levantava da cama. "Esperando pelo desfecho. .." dizia ele com indiferença.
Gaspar, a partir de então, não lhe abandonava mais a cabeceira e lhe prestava desveladamente o duplo serviço de médico e de enfermeiro. Mas o pobre velho sacudia os ombros, e pedialhe que saísse do caminho e não estivesse a contrariar a morte!
— É melhor deixar que isto acabe por uma vez! disselhe ele certa manhã, durante a qual Gaspar lhe pareceu mais sucumbido e triste. Tu, que és moço e devias ter esperanças tu, meu filho, atravessas a existência como um espectro! Como consentiste que a mulher, a quem dedicaste todo o teu amor e a melhor parte do teu coração, levasse consigo para sempre a alegria e os sorrisos da tua mocidade?... E queres exigir deste pobre velho a coragem que te falta! Não! renuncia a tal intento e reage contra a tua tristeza, procura viver, para que ao menos possa eu fechar os olhos, na doce ilusão de que o perseguidor de teu pai há de ser um dia punido por tuas mãos!
— Jurolhe, meu pai! jurolhe, por minha honra, que o senhor, ou a sua memória, serão vingados!
— Assim! falame deste modo, meu Gaspar! dá a este coração amargurado uma idéia consoladora! Ah! sabes perfeitamente que nunca fui rancoroso e jamais me comprazí com o sofrimento alheio; mas tanto e tanto fel me verteram cá dentro, tanta e tanta lama me atiraram, que afinal todo eu me converti em lama e fel! Sintome mau! Eu, que fazia dantes consistir a minha felicidade no comprimento do dever e toda a minha aspiração em ser bom e leal, eu sou hoje cruel e vingativo! Sim! Preciso saber desde já que serás inexorável na vingança! Que calcarás debaixo dos pés o meu verdugo! Prometes, não é verdade, meu filho? Não é verdade, que serás ainda mais cruel do que eu? Fala!
— Sim! sim! meu pai! Jurolhe por minha honra!
E os dois abraçaramse comovidos.
No resto da sala corria um silêncio que já era de morte.
De repente, porém, ouviuse uma voz, fresca sonora, gritar da porta:
— Gaspar! Ó Gaspar! onde diabo estás tu?!
Aquela voz alegre despedaçou escandalosamente o silêncoi compacto da sala. Gaspar levantouse de um silêncio e precipitouse nos braços de Gabriel, que voltava dos seus estudos acadêmicos.
— Meu filho! dizia ele chorando e rindo; minha vida!
E beijavao na testa e nas faces.
— Como estás forte! Como estás belo!
E voltandose para o coronel:
— Olhe! olhe! meu pai! veja o Gabriel! Entrou aqui como um raio de sol! Já não há tristezas! exclamava o médico. Já não há tristezas! fugiram as sombras!
E abraçava o enteado.
— Como tu me dás vida! Como eu te amo, meu filho!
E Gaspar, com efeito, parecia outro; estava agora reanimado e feliz.
O coronel abraçou o filho de Violante.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.