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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

Erão já quatro horas da tarde, e quasi todas as pessoas, que pela manhã encontrámos junctas na taverna do francez, ainda alli se acabavão presas pela viva curiosidade, que nelles excitára a visita de um tão guapo e distincto cavalheiro em casa de uma velha brucha, que no entender delles estava prestes a dar a alma ao diabo. Si algumas dessas pessoas se tinhão retirado, em compensação tinhão chegado outras attrahidas pelo rumor que se ia propagando, de que a velha brucha, estando a expirar, tinha-se resolvido a fazer confissão publica e por todos os seus podres na rua.

Conrado e o frade, seguidos pelo francez e pelas duas outras testemunhas, dirigirão-se a pé para o rancho de Nha-Tuca. Os mais freguezes tambem os forão acompanhando em distancia, e um a um ou em pequenos grupos, forão pouco a pouco se avizinhando e acercando em torno da misera choupana da moribunda, Á curiosidade vence o pavor e desmancha todos os escrupulosos. Toda aquella gente , que ainda ha pouco fugia do rancho de Nha— Tuca como de um logar malsinado, e que quando por alli passavão tinhão o cuidado de nem olhar para elle, benzendo-se cheios de terror quando acontecia enxergarem a velha, agora sentião-se irresistivelmente attrahidos para aquelle ponto. Era a curiosidade, esse iman mysterioso, que para alli os arrastava.

Nas massas populares a curiosidade supplanta o medo, e faz arrostar todos os perigos reaes ou imaginarios. E assim, por exemplo, que por occasião de um grande incendio, a turba se aggloméra por sob as paredes de um edificio em chammas, que a cada momento póde desabar sobre ella, sendo necessario intervir a acção da policia para desvial-a. A's vezes tambem para gozar de um espectaculo o mais tri- vial e corriqueiro, a turba não hesita em collocar-se nas posições mais incommodas e perigosas, em risco de quebrar um braço ou uma perna.

O espectaculo ou mysterio, que attrahia a curiosidade de nossos caipiras, nada tinha de realmente perigoso, mas abalava-lhes a imaginação, como si tivessem de ver Satanaz em pessoa.

— Sancto Deos! exclamava um delles. — Que irá fazer alli Frei João?... Um sancto em casa de uma brucha ! . . .

— Vae fazer obra de caridade, respondeo outro. — Vae ver si ainda póde livrar das penas do inferno a alma da pobre velha.

— Isso é impossivel... pois mecê não sabe que ella é mula sem cabeça? . .

— E demais a mais tem o diabo no corpo, accrescentou outro.

— Pois que tem isso?.., é que o padre vae tirar o diabo do corpo delta. Ah! si eu pudesse estar lá dentro e ver o tinhoso sahir aos pinchos da bocca daquella tartaruga velha ! . . .

— Deus te livre ! . . . ver o que! . . a cara de Satanaz ! . . . até estou com medo de ver agora mesmo pegar fogo no rancho, e a velha sahir de lá na figura do cão tinhoso.

— Ché ! que esperança ! . . . então o frade não está lá dentro ? . . .

— Mas esse é homem de Deus; não ha mal que o pegue; ha de sahir são e salvo.

Emquanto o povo por fóra se entretinha assim com estes e outros apodos e conjecturas, o frade e seu amigo penetravão no aposento da enferma, o qual, graças á generosidade de Conrado e aos cuidados do francêz, apresentava um aspecto menos lugubre e menos nauseabundo.

Antes porém de assistirmos á scena da confissão dar velha, nos é mistér da aqui ao leitor uma rapida noticia biographica da personagem que agora jaz no leito da agonia com a alma abarrotada de peccados e crivada de remorsos,

Isto nos é indispensavel, porque a parte publica da confissão da velha versa sómente sobre um facto, que já conhecemos, a substituição de uma creança escrava e morta por outra viva e livre, donde resultou a escravisação de Rozaura. O resto porém passa-se debaixo do mysterioso sigyllo da confissão auricular, e como não somos sacerdote, e nem foi em nosso peito que ella depositou os segredos de sua abominavel e execranda vida, segredos que depois forão conhecidos e propalados a todos que tivessem ouvidos para ouvil-os, cremos que não será peccado da nossa parte divulgal-os agora.

Alguma cousa já dissemos acerca do caracter e dos costumes de Nha-Tuca; mas apenas levantámos um canto do véo que encobre as torpezas e atrocidades, que constituirão a occupação unica de sua longa vida.

Nha-Tuca não era natural da cidade de S. Paulo. Nascera em Mugimirim em mil setecentos e setenta, pouco mais ou menos. Portanto já não podia descer ao tumulo com menos de setenta e muitos a oitenta annos. Foi sómente depois que recebeo a herança de seu fallecido irmão, que tomou a resolução de mudar sua residencia para a capital da provincia, então capitania.

Essa herança, como já sabemos, na sua melhor parte consistia em uma boa porção de creoulas e mulatas, todas novas e bonitas, vigorosas e sadias.

(continua...)

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