Por Franklin Távora (1878)
No sobrado habitualmente silencioso, notava-se a animação, o bulício que acompanham fatalmente esta festa popular.
Viam-se senhoras na sala dos hospedes. Algumas delas eram mulheres, outras eram filhas dos nobres proprietários convidados para a reunião; e conversavam sentadas nas cadeiras de sola com pregaria que guarneciam a sala e das quais ainda se vêm algumas, que são como as relíquias do tempo em que representaram grande adiantamento da arte.
A mobília, não obstante ser de uma casa em que se professavam hábitos de nobreza e riqueza, não era de dar na vista; ao contrario, pouco adiantava á que se encontra presentemente em alguns engenhos, donde grande parte dos hábitos daquele tempo não desapareceu inteiramente. Além das cadeiras viam-se dois canapés, também cobertos de sola, três ou quatro bancas de acaju, e uma grande cômoda de nogueira com muitas ordens de gavetas. Sobre as bancas havia alfaias de prata e sobre a mesa estava assente um candeeiro grande do mesmo metal. Pendiam da parede, fronteiros e na mesma altura dois quadros em que apareciam retratados o senhor e a senhora do engenho.
A sala das mulheres, aquele momento deserta, atestava melhor o gosto, a educação e a mocidade de d. Damiana. Sobre cômoda de formas menos pesadas do que o da sala contígua, certamente obra de fora, em que se procurara entalhar uns longes do gosto de Luiz XIV, via-se um rico santuário de jacarandá, que, estando aberto, deixava ver por entre ramalhetes de frescas flores naturais, formosas e ricas imagens, adornadas com seda, ouro e pedras preciosas. Por junto da parede corria um estrado coberto de damasco, e fronteiro a ele mostrava-se o bufete de especial estimação da aristocrática senhora. Um tear ao canto, bancas de jacarandá de delicadas entalhas e sobre as bancas garrafinhas e frascos de vidro e cristal completavam, com o grande espelho afixado na parede, a sala particular de d. Damiana.
Ao acender as fogueiras achavam-se os homens, não na sala-de-visitas, mas no aposento imediato – espécie de gabinete onde tinha João da Cunha cama para descansar, papeis, roupas e armas.
Á luz amarelenta de um candeeiro, colocado sobre uma secretária de forma de piano, lia o senhor de engenho, para os amigos ouvirem, as ultimas regras de uma carta que recebera de André da Cunha, morador em Olinda.
<Eis o extremo a que chegamos. Os mascates em armas, senhores do porto, das fortalezas e agora do governo, visto que tem o bispo guardado por 150 soldados e ás ordens deles, tudo podem contra nós, enquanto nós muito pouco ou coisa nenhuma podemos contra eles. Se o bispo tivesse espirito, ou se o seu espirito fosse tão grande como é o seu coração, certo as coisas presentes seriam para nós pequenas. Mas é fraco e entende pouco de estratégias e ciladas. Que força se pode esperar de um governador que se deixou cair, por moleza, nas mãos dos seus próprios inimigos?> - Que havia de fazer ele? inquiriu Matias Vidal. Aquele feixe de virtudes não é para semelhantes lutas. - É isto exatamente o que escreve André respondeu João da Cunha. E prosseguiu a leitura:
< Enfim o Recife está cercado de trincheiras, fortemente guarnecidas de gente e providas de munições de guerra. < Como não tenho certeza de que esta vá Ter ás suas mãos, por isso que a todo canto a nobreza se está picando nos espinhos da traição, finalizo, rogando a Deus se sirva olhar por nós e por nossas famílias ameaçadas de toda sorte de calamidades, das quais a menos crua será a morte.
< Olinda, 19 de junho de 1711. – André da Cunha.>
- Meus amigos – disse João da Cunha dobrando a carta e metendo-a em um dos escaninhos da secretaria – foi menos para tomardes parte no meu prazer do que na desgraça da pátria, que me pareceu mandar chamar-vos á minha casa. Estão consternadoras para nós – os pernambucanos – as coisas publicas. Comandada a força militar por Miguel Correa, Manoel Clemente, Euzebio de Oliveira e Antonio de Souza Marinho, mascates conhecidos como odientos por todos nós, aos filhos da terra não nos resta, a meu parecer, outro recurso que o de lançarmos mãos das armas. Devemos acudir com as nossas fabricas e moradores, ao lugar do perigo, e ai castigar a audácia dos rebeldes. Este recurso deve ser usado sem perda de tempo. Dar pancada mortal na cabeça da cobra peçonhenta.
Não obstante ser mais forte João da Cunha em preconceitos de fidalguia do que em eloquência, dote que vem do berço mas que a cultura acrescenta e apura, suas palavras ressoaram, como ecos de discurso divino, nos corações dos amigos.
Entre estes viam-se alguns que eram mais bem versados em letras e em orações incendiarias do que o sargentomór.
Contava-se neste numero Cosme Bezerra dentre todos os que ali se achavam o mais ardente membro da nobreza, e o que, por sua força de vontade e grandeza de espirito, maior nome deixou nas crônicas do tempo, porque, degredado para a Índia em 1713, dai não voltou mais á sua pátria. Era juiz ordinário e capitão de ordenanças. Tinha a presença atrativa e gestos largos e arrebatados.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.