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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

O bom do velho, ao saber que Eduardo adorava sua filha, e que nenhum impedimento havia mais para que se casasse com ele, exultava de contentamento, e tinha como já realizada a cura e a felicidade de sua filha. Quanto ao juramento, esse não lhe dava muito cuidado, porque não fazia idéia da importância que Eduardo ligava a ele, do fanático aferro e tenacidade de paulista com que guardava um juramento.

– Ah! é ele! é ele ainda!?.. exclamou a moça apenas avistou Eduardo, – que vem fazer aqui este homem?...

– Não lhe dizia eu? – disse Eduardo para o pai de Paulina, que se ia retirando, – a minha presença a incomoda.

– Não creia tal; – disse-lhe o velho em voz baixa;– deixe-se ficar por algum tempo, tenha paciência. Minha filha, continuou voltando-se para Paulina; – o sr. Eduardo não te quer fazer mal algum; ele te estima muito, e não procura senão meios de salvar-te. Ditas estas palavras o velho retirouse.

– Salvar-me ele! exclamou Paulina com um ar de insânia e um sorriso indizível. Tomara eu que ele me salve de si mesmo! aqui não há nenhuma onça, e é só das onças que ele sabe me salvar.

– Quem sabe, d. Paulina? – disse Eduardo com um triste sorriso, sentando-se em um tamborete junto à cabeceira da enferma. – Deus ainda pode permitir que eu a salve de outros males. Por quem é, não me queira mal... diga-me, vai se sentindo melhor?...

– E que lhe importa?... eu não tenho nada... Como vai a sua querida lá da Franca? seguramente já se casaram, não é assim?...

O delírio de Paulina exaltava-se com a presença de Eduardo; suas palavras desassisadas, seus olhares desvairados dilaceravam o coração do mancebo que já se arrependia da visita, que por condescender com o velho lhe viera fazer.

– Por compaixão, – respondeu-lhe o moço, – não me fale nisso, d.

Paulina, essa mulher morreu para mim...

– Morreu?... pois que tem isso? eu também não vou morrer?... não sabe? esta noite sonhei com ela... estava em uma sala de baile... vestida com um luxo e uma riqueza de espantar... começou a dançar uma valsa com o senhor... de repente foi-se virando em um dragão medonho, enroscou-selhe por todo o corpo, e começou a lhe morder a nuca... o senhor dava gritos desesperados, mas todo o mundo fugia espavorido; eu fiquei só e queria lhe acudir; mas meus pés estavam agarrados no chão, e meus braços não podiam mover-se; queria gritar, também não podia; teria morrido sufocada se meu pai, que estava perto de mim, não me acordasse...

– É singular!... ah! d. Paulina, esse sonho...

– Que tem esse sonho?...

– É uma imagem da realidade. Essa mulher era mesmo um dragão; atraiçoou-me;... achei-a casando-se com outro.

– Bem feito! exclamou Paulina com um acento indizível de malicioso prazer; – bem feito: foi castigo de Deus; porque fez tão pouco caso de mim.

– Diz bem, d. Paulina; foi mesmo castigo de Deus. Mas eu não queria parecer-me com ela. Que importa! nada perdi. Juro-lhe, d. Paulina, que depois que vi a senhora foi-me bem custoso não me esquecer dessa moça, e guardar-lhe a fidelidade que guardei.

– Deveras, sr. Eduardo!... pelo que vejo, quer-me bem...

– O meu amor para com a senhora, creio que não é de agora... creio que existia desde a primeira vez; mas ai de mim!... principiou infeliz, infeliz parece-me que vai acabar...a desgraça me persegue... hoje não me é permitido ofertar--lhe o meu amor...

– O seu amor!... exclamou Paulina sentando-se no leito, fitando no mancebo olhos ardentes, e sem atender que lhe apareciam quase nus os alvos seios arquejando-lhe afanosos; era bela assim, bela de amor e de delírio.

– Sim, o meu amor, d. Paulina! o meu amor tão grande, como eu não sei explicar, e que decerto já existia sem eu saber dentro de meu coração, e que hoje rebenta como urna labareda, que eu não posso conter nem disfarçar.

– Ah! veio tão tarde! – disse Paulina suspirando e abanando tristemente a cabeça. – Outro lhe tomou a dianteira... já não me pertenço. Olhe aqui esta face... não vê como está vermelha?... arde-me como uma brasa... foi um beijo, e não foi o senhor que mo deu.

– Um beijo!... quem lho deu?

– Um beijo, sim... foi meu marido...

– A senhora está gracejando... quem é seu marido?...

– Pois não sabe?.., o primo Roberto é meu marido... meu pai mandou-o chamar; ontem ficou tudo ajustado.

– Ah! já entendo, – murmurou Roberto alcançando que as palavras

de Paulina não eram puro delírio como a princípio pensara. – Se assim é, refletiu ele consigo, – não me resta mais esperança alguma.

– É verdade, – senhor Eduardo; – continuou Paulina como que adivinhando e respondendo ao pensamento de Eduardo; – o primo Roberto breve vai se casar comigo... Coitado! vai se casar com um cadáver; a cama do noivado há de ser um esquife... Paulina acompanhou estas palavras de um riso funéreo, que fez estremecer Eduardo; e deixou pender a cabeça.

– Mas esse seu primo será tão duro de entranhas, que queira assim sacrificá-la?

– Mas ele me quer tanto... desde criança...

(continua...)

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