Por Machado de Assis (1908)
Eram felizes, e foi o marido que primeiro arrolou as qualidades novas de Tristão. A mulher deixou-se ir no mesmo serviço, e eu tive de os ouvir com aquela complacência, que é uma qualidade minha, e não das novas. Quase que a trouxe da escola, se não foi do berço. Contava minha mãe que eu raro chorava por mama; apenas fazia uma cara feia e implorativa. Na escola não briguei com ninguém, ouvia o mestre, ouvia os companheiros, e se alguma vez estes eram extremados e discutiam, eu fazia da minha alma um compasso, que abria as pontas aos dois extremos. Eles acabavam esmurrando-se e amando-me.
Não quero elogiar-me... Onde estava eu? Ah! no ponto em que os dois velhos diziam das qualidades do moço. Não mentiam; quando muito, podiam exagerar alguma, mas as que citavam deviam ser verdadeiras, bom, carinhoso, atento, justo, puro de sentimentos, índole pacífica maneiras educadas, capaz de sacrifícios, se fosse necessário. Não o tinham achado mau nem falho, quando ele chegou; agora porém, as qualidades antigas estavam apuradas, e algumas novas apareciam. Ainda que eu discordasse deles não diria nada para os não aborrecer, mas que sabia eu que pudesse contrariar essa opinião de amigos? Nada; concordei com ambos.
D. Carmo entendeu acaso que o assunto podia ser enfadonho a entranhos, e trocou as mãos à conversa. Não totalmente, é verdade; falou da casa do desembargador Campos e do que iria por lá. Eu (habilmente, confesso) querendo saber o estado de coração de Osório, perguntei se ele não estaria lá também, ele, que também é do foro. Aguiar disse logo que podia ser que sim; conforme. Sobre isto falamos um pouco, e as qualidades do advogado foram ainda honradas, mas não eram tantas, nem tamanhas como as de Tristão. Falavam com simpatia, Aguiar mais que D. Carmo; eram relações propriamente do banco e do foro.
— Mas não haverá ainda nele alguma faísca antiga? perguntei.
— Pode ser, e será mais uma razão para fugir, concluiu ele.
Não quis dizer o que vira na rua, e aliás a conclusão dele não era errada. D. Carmo escutava agora sem falar, embora com interesse. A discrição daquela senhora é das mais completas que tenho achado na vida. Não quis ela entrar em tal assunto, e o marido não tardou muito que o deixasse. Eu não retive a um nem a outro.
Assim é o destino dos namorados sem ventura; os próprios amigos, como Aguiar parece que é de Osório, tratam logo de outra coisa. Eles que se fiquem consigo. Nós passamos a tratar de algumas notícias de sociedade e das últimas notícias novelescas de Paris. Neste capítulo D. Carmo sabe mais que eu, e muito mais que o marido, que não sabe nada; mas Aguiar acompanhou a conversação como se soubesse alguma coisa. Ele compra-lhe os livros, que ela lê e resume para ele ouvir. Como a memória dele é grande, cita também as narrações escritas, com a diferença que ela, tendo impressão direta, a análise que faz é mais viva e interessante. Ouvi-lhe dizer de alguns nomes contemporâneos muita coisa fina e própria. É claro que, se o marido escrevesse também, achá-lo-ia melhor que ninguém, porque ela o ama deveras, tanto ou mais que no primeiro dia; é a impressão que ainda hoje me deixou.
Eu, para lhes ser agradável, — e um pouco a mim mesmo, porque os queria gozar também, — voltei ao assunto principal para ambos, que não seria Fidélia só, nem só Tristão, mas os dois juntos.
— Digam-me, se eles fossem irmãos e seus filhos, não seria melhor que apenas amigos e estranhos um ao outro?
Era a primeira vez que lhes dizia uma coisa destas, e o interesse foi tamanho que eles pegaram do assunto para dizer coisas interessantíssimas. Não as escrevo por ser tarde, mas cá me ficam de memória. Digo só que, quando saí, D. Carmo, apesar do joelho doente, e por mais que eu quisesse detê-la, veio comigo à porta da sala. Aguiar acompanhou-me até à porta do jardim, enquanto ela veio à janela, donde se despedia ainda uma vez.
— Olhe o sereno, boa-noite, disse-lhe eu cá de baixo.
— Boa-noite.
D. Carmo entrou. Aguiar e eu apertamos a mão um do outro. Indo a sair, lembrou-me falar do cão ali sepultado. Não lhe falei logo, dei três ou quatro investidas, mas tão rápidas que, se gastei um minuto, foi o mais; nem tanto. Aguiar ouviu-me espantado e constrangido.
— Quem lhe contou isso?
— O Dr. Tristão.
Não lhe quis citar o Campos, que também me falou do animal. Aguiar confessou calando, depois falando, mas não falou muito. Confirmou que tiveram muita amizade ao bicho. e referiu-me os padecimentos que a doença e a morte deste produziram na mulher. Não disse os seus, mas também os tivera; olhou uma vez para o lado da parede, e depois de uma pausa:
— Tristão riu-se naturalmente do nosso carinho?
— Ao contrário, falou-me com muito louvor; tem bom coração aquele rapaz.
— Muito bom.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Memorial de Aires. Rio de Janeiro: Garnier, 1908.