Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
Ajoven recuou um passo, como se arrependida ficasse da acção que praticara e do tom em que fallára : corou, parecendo sentir que deixara insensivelmente escapar dos labios uma phrase que começava a atraiçoar um segredo do coração; mas logo depois flingindo-se medrosa, disse :
— Sinto rumor... alguém se approxima... Luciano ergueu-se, pensando que era Bap-tista que o vinha perturbar no momento em que o fortuna lhe concedia um sorriso ainda duvidoso... voltou-se para o lado do monte e ouvio immediatamente o leve ruido dos passos ligeiros da incognita, que fugia correndo.
— Oh ! por compaixão... disse, elevando a voz e estendendo os braços para a fugitiva.
Ella parou : volveu o rosto para Luciano, seus olhos brilharão com divino fogo, seus labios sorrirão de novo com encanto e doçura e murmurarão emfim :
— Até amanhã.
V.
N'aquella simples, mas animadora phrase « até amanhã! » e no olhar e no sorriso que a acompanharão, havia um futuro immenso de esperanças e de amor.
Luciano passou o dia a sonhar mil venturas: abella incognita fizera-lhe adivinhar o paraiso, pronunciando duas palavras.
Ao meio-dia um pobre lavrador da vizinhança viera pedir ao estudante que fosse ver sua mãi que enfermara no dia anterior.
Luciano apromptou-se depressa para sahir, e emquanto esperava que lhe trouxessem o cavallo, perguntou ao lavrador :
— Suppõe que seja grave o estado de sua mãi?...
— Tenho medo de que venha a tornar-se tal: hontem cahio com uma febre que parecia fogo, e, bem que ao amanhecer de hoje ficasse livre d'aquella maldita fervura do sangue, diz a senhora D. Dionysia, que foi ver a minha bôa velha, que é provavel ou quasi certa a volta da febre.
— Então... a Sra. D. Dionysia...
— Aquillo é um anjo, meu senhor! lá ficou ao pé de minha pobre mãe...
Luciano voltou logo ao seu quarto, e tornando a apparecer ao lavrador, deu-lhe algum dinheiro, e disse-lhe :
— Ha um excellente medico na freguezia : ahi tem com que pagar-lhe até dez visitas, vá chamal-o ; eu não posso ir ver sua mãi.
E vergonhoso da acção que praticara, recusando-se a um serviço de caridade, correu para furtar-se ás vistas do lavrador, que ficara sorpreso e boquiaberto.
Luciano tinha hesitado ante a idéa de encontrar-se com Dionysia; pareceu-lhe que vêla e fallar lhe n’aquelle dia, chegaria a ser uma offensa feita á bella incognita, cuja imagem devia ser a unica que occupasse toda a sua alma e todos os seus cuidados.
O amor suffocou-lhe a consciencia.
A noite, Eugenio perguntou ao filho se pretendia caçar na manhã seguinte.
— Talvez, meu pai, respondeu o mancebo corando.
— Entretanto eu contava poder conversar comtigo alguns momentos amanhã de manhã.
— Meu pai, se quizesse, poderia marcar-me uma hora para...
— As nove da manhã.
— Ah! então a minha caçada não será incompativel com a minha obediencia.
— Tens te tornado um caçador incansavel! observou Eugênio, sorrindo ; mas não importa, aproveita as tuas ferias.
Ao romper da aurora d'esse dia mimoso que fora aprazado pela formosa incognita, Luciano correu, como era de suppôr, não para o ingazeiro do monte, mas immediatamente para o lago do bosquesinho.
A jovem romanesca já alli estava. O estudante affligio-se com razão por ser o segundo a chegar: um meigo e carinhoso sorriso socegou-o porém immediatamente.
— Eu o esperava, disse com accento commovido a bella incognita, não dormi... preoccupou-me toda a noite esta hora que vamos passar juntos, e que é uma hora solemne, que vai decidir do meu destino.
Luciano sentio-se fortemente abalado por aquella voz suave e melancolica, que lhe parecia um canto entoado por um anjo.
— Antes de tudo, uma observação que o vai penalisar, mas que a minha franqueza não me consente esconder. Hontem o senhor negou-se a ir ver uma pobre velha doente: fez mal. Sabe rei um dia, em breve, romper este mysterio e mostrar-me na altura da posição que apaixonada ou generosamente me offerece.
O estudante ia fallar; mas a bella incognita como para obrigal-o ao silencio, poz uma de suas mimosas mãos sobre os labios do mancebo, que imprimio n'ella um ardente beijo.
Recolhendo vergonhosa a mãosinha provocadora, a bella incognita tirou do seu seio uma pequena imagem de ouro que representava a Mãi Santissima.
— Eis aqui a imagem da Mãi de Deos, o symbolo do mais profundo amor e de celeste pureza; jura-me, Luciano, que serás meu esposo no dia em que eu provar que sou digna do teu amor, digna do teu nome e da benção de teus pais!
— Juro! disse Luciano, cahindo de joelhos.
A bella incognita beijou nos pés a pequena imagem ; o mancebo depositou no mesmo lugar um outro beijo.
— E quando será esse dia ? perguntou
Luciano, cheio de ardor e de esperança.
— Mais cedo do que pensas, respondeu a moça.
— Oh! dize!...
A bella incognita levantou os olhos para o céo, procurando o sol, e de novo olhando para Luciano, observou-lhe sorrindo.
— O tempo correu voando ; devem ser mais de sete horas : não te lembras de que prometteste a teu pai estar em casa ás nove horas da manhã ?...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.