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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

  Aproximara-se nhá Tudinha com a curiosidade de ver a quem Berta falava, e como reconhecesse o menino, escapou-lhe um gesto de visível repugnância. Mas um olhar da menina bastou para apagar essa repulsa, e convertê-la em agasalho. 

- Ande, Brás! disse a viúva com afabilidade. Tome uma coisa que lhe guardei. 

  Desta vez nem se deu o rapaz ao trabalho de responder com a voz. Fez uma careta má a nhá Tudinha e voltou-lhe as costas. 

- Brás!... 

  Nesse monossílabo proferido por Berta, com sua voz sempre doce e melodiosa, percebia-se uma vibração íntima que destoava no meio daquela harmonia. Era como o brandimento da corda que estalava, ou como o áspero triscar do diamante no vidro. 

Voltou-se Brás e veio dócil e humilde, acompanhando a indicação do gesto de Berta, colocar-se em frente dela, que, depois de lavar-lhe as mãos e cortar-lhe as unhas, o sentou a seu lado no banco da mesa. Aí tomou um prato, que lhe serviu ela, e comeu com uns modos comedidos, embora um tanto hirtos, que ia copiando da moça. Ninguém diria que fosse este o mesmo lambaz, que na mesa de Galvão metia o queixo na xícara, deixava na toalha uma roda de sobejos, e lambuzava a cara de sopa e manteiga. 

  Foi rápido o almoço. 

  Nhá Tudinha não tirava o sentido do forno onde assava um bolo de mandioca puba; além de que de prova em prova já petiscara seus biscoitos bons. Berta, essa comia como um passarinho, aos beliscos. Antes de sair de casa pela alvorada, tomara café, e de caminho trincara as roscas de goma que levava para Zana. 

 O Brás também não tinha fome. O constrangimento, em que o punha a presença da menina e a sua fascinação, deviam de embotar-lhe o apetite insaciável, com que de ordinário devorava quanto lhe deixassem. 

 

XXIV 

A lição 

 

  Àquela hora da manhã, projetava a casa larga sombra para o oitão voltado ao poente.  

Nessa fresca penumbra, que recatava da estrada uma cerca de estacas de cambuís já enramadas, acomodou-se Berta para passar a sesta, que se aproximava. Daí avistava-se por uma ogiva rendada que abria a folhagem em arabescos, o caudal Piracicaba, adormecido no regaço da campina. 

  Sentara-se a menina em um pedaço de alto pranchão, que aí tinham colocado para servir de banco; e suas mãos sutis e ligeiras tomavam o ponto às meias, ou serziam e remendavam a outra roupa lavada, que precisava de conserto e enchia o balaio posto a seu lado na ponta do tabuão. 

  Adiantando a sua tarefa diária, que pelo hábito já os dedos ágeis faziam às cegas e com uma presteza admirável, escutava com atenção ao Brás, ajoelhado ao outro lado do balaio, na esteira de tábua, que servia de tapete, ou antes de tabuleiro para a roupa já consertada, a fim de não misturar-se com a outra da cesta. 

  Com as mãos postas, e um modo sério, repetia o rapaz de cor a Salve-Rainha, sem titubear. Dirse-ia que estava lendo no formoso semblante de Berta por mágica influição aquelas palavras ignotas, tal era a fixidez da pupila e a absorção de sua alma no hausto desse olhar. 

  Era sem dúvida a primeira vez que o Brás dizia certa a oração, pois no gesto da menina, onde vislumbrara uma vaga inquietação, derramou-se grande contentamento pelo triunfo obtido sobre a fatalidade que encadeava aquele espírito bronco. 

- Assim, Brás! disse a gentil mestra desfolhando-se, como uma bonina, em ledos sorrisos.  

- Til contente? perguntou timidamente o rapaz, com certa brandura de voz, que desvanecia o tom brusco e explosivo. 

- Muito!... 

  E a menina cingiu com o braço esquerdo a cabeça do rapaz e a estreitou ao seio com efusão. O sentimento de bem- aventurança que difundiu-se pela fisionomia do idiota; o êxtase de felicidade, no qual se embeberam suas feições, sempre transtornadas pela imbecilidade, e agora consertadas por um plácido sopitamento; essa elação ao toque da meiga carícia, não há traços para esboçar. 

  A transição súbita de um informe toro em estátua acabada, somente pode dar uma idéia da transfiguração, que um supremo gozo havia operado nessa infeliz criatura, cujo vulto descomposto e malamanhado negava muitas vezes a forma humana. 

  Esteve Berta a espiar-lhe por entre os revoltos cabelos essa expressão inefável de rosto que ela conservava unido ao seio; e de seus olhos um tanto amortecidos e brandos naquele instante, manava uma ternura santa e imensa, na qual ressumbravam extremos da maternidade. 

- Agora a Ave-Maria! disse Berta afastando a cabeça do rapaz, e tornando à anterior posição.  

Arrancando ao enlevo, como um galho decepado que rola ao chão, ou como a lasca do penedo que se alteava no píncaro do alcantil e vai sumir-se no abismo, sentiu o idiota romper-se-lhe o coração e estalar com dores cruas e dilacerantes. Era a alma arremessada do céu ao báratro. 

(continua...)

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