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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

— Esperai, acudiu Bento Simões; antes de tudo, reparação vos é devida. Há pouco vos ameaçamos; aqui tendes as nossas armas. 

— Sim, depois do que se passou, é justo que desconfieis de nós; tomai. Os dois tiraram os punhais e as espadas. 

— Guardai as vossas armas, disse Loredano escarnecendo, servirão para me defenderdes. Eu sei quanto vos é preciosa e cara a minha existência! 

Ambos os aventureiros empalideceram, e seguiram o italiano, que depois de uma meia hora de caminho chegou à touça de cardos que já descrevemos. 

A um sinal de Loredano, os seus companheiros subiram à árvore, e desceram pelo cipó ao centro dessa área cercada de espinhos, que tinha quando muito três braças de comprimento sobre duas de largura. 

De um lado, na quebrada que fazia o terreno, via-se uma espécie de grata ou abóbada, restos desses grandes formigueiros que se encontram pelos nossos campos, já meio aluídos pela chuva. Neste lagar, à sombra de um pequeno arbusto que nascera entre os cardos, sentaram-se os três aventureiros. 

— Oh! disse o italiano imediatamente; há algum tempo já que não venho dessas bandas; mas parece-me que ainda deve haver aqui o quer que seja que vos dará no goto.  

Reclinou-se, e estendendo o braço pela cava retirou uma botija que ali estava deitada, e que colocou no meio do grupo. 

— É de Caparica, mas do bom. Deste cá não vem! 

— Diabo! tendes uma adega!... exclamou Bento Simões a quem a vista da botija tinha restituído todo o bom humor. 

— A falar a verdade, disse Rui, esperaria tudo, menos ver sair deste buraco uma botija de vinho. 

— É para verdes! Como costumo vir a este lugar, onde às vezes passo bem boas soalheiras, precisava ter um companheiro com quem espairecesse. 

— E não podíeis achar melhor! disse Bento Simões dando uma empinadela à botija e estalando a língua. Já lhe tinha saudades! 

Cada um dos três tomou a sua vez de vinho e a botija voltou ao seu lugar. 

— Bom, disse o italiano, agora tratemos do que serve. Prometi, quando vos convidei a seguir-me, que vos faria ricos, muito ricos. 

Os dois inclinaram a cabeça. 

— A promessa que vos fiz vai-se realizar: a riqueza está aqui perto de nós, podemos tocá-la. 

— Onde? perguntaram os aventureiros lançando um olhar ávido em roda. 

— Não vai assim também; fala-se figuradamente. Digo que a riqueza está diante de nós, mas para nos apoderarmos dela é preciso... 

— O quê? Dizei? 

— A seu tempo; agora quero contar-vos uma história. 

— Uma história! replicou Rui Soeiro. 

— Da carocha? perguntou Bento Simões. 

— Não, uma história verídica como uma bula do nosso santo padre. Ouvistes falar algum dia, em um certo Robério Dias? 

— Robério Dias... Ah! sei! um tal do São Salvador? disse Rui Soeiro. 

— O mesmo, sem tirar nem pôr. 

— Vi-o há coisa de oito anos em São Sebastião, donde se passou às Espanhas. 

— E sabeis o que ia fazer às Espanhas esse digno descendente de Caramuru, amigo Bento Simões? perguntou o italiano. 

— Ouvi rosnar que se tratava de um tesouro fabuloso que contava oferecer a Filipe 11, o qual em volta o faria marquês, e grande fidalgo de sua casa. 

— E o resto, não vos chegou à noticia? 

— Não; nunca mais ouvi falar do tal Robério Dias. 

— Pois ouvi lá; chegando a Madri, o homem fez a sua oferta mui lampeiro; e foi recebido na palma das mãos por el-rei Filipe 1I que, como sabeis, tinha as unhas demasiado longas. 

— E cinzou-o como uma raposa que era? acudiu Rui Soeiro. 

— Enganai-vos; dessa vez a raposa tornara-se macaco; quis ver o coco antes de pagá-lo.

— E então? 

— Então, disse o italiano sorrindo maliciosamente, o coco estava oco. 

— Como oco? 

— Sim, amigo Rui, tinham-lhe deixado apenas as cascas; felizmente para nós, que vamos lograr o miolo. 

— Sois um homem de caixas encouradas, Loredano! 

— Dá-se a gente a tratos, e não é possível entender-vos. 

— Tenho culpa eu, que não sejais lido na história das coisas de vossa terra? 

— Nem todos são mitrados como vós, dom italiano. 

— Bom, acabemos de uma vez; o que Robério Dias julgava oferecer em Madri a Filipe 11, amigos, está aqui! 

E Loredano dizendo estas palavras assentou a mão sobre um seixo que havia ao lado. Os dois aventureiros olharam-se sem compreender, e duvidando da razão de seu companheiro. Quanto a este, sem se importar com o que eles pensavam, tirou a espada, e depois de desenterrar a pedra, começou a cavar. 

Enquanto prosseguia neste trabalho, os dois observando-o passavam alternadamente a botija de vinho, e faziam conjeturas e suposições. 

O italiano já cavava há tempo, quando o ferro tocou num objeto duro, que o fez tinir. 

— Per Dio, exclamou, ei-la! 

Daí a alguns momentos retirava do buraco um desses vasos de barro vidrado, a que os índios chamavam camuci; este era pequeno e fechado por todos os lados. 

Loredano tomando-o pelas duas mãos abalou-o e sentiu o imperceptível vascolejar que fazia dentro um objeto qualquer. 

— Aqui tendes, disse ele lentamente, o tesouro de Robério Dias; pertence-nos. Um pouco detento, e seremos mais ricos que o sultão de Bagdá, e mais poderosos que o doge de Veneza. 

(continua...)

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