Por José de Alencar (1870)
Foi então uma luta de rapidez e agilidade entre cavalos e cavaleiros; enquanto estes mudavam de atitude a cada instante, ora mascarando-se com o corpo do animal, ora, quando fugiam à desfilada, voltando a frente para não perder os movimentos do inimigo, os cavalos de seu lado apostavam de ligeireza e força nos galões que davam para o lado, e na prontidão com que empinavam para rodar sobre os pés, ou arremessar o salto.
Afinal o gaúcho, aproveitando um descuido, investiu contra o Barreda, que desfechou um sobre outro seus dois tiros. Longe de se estirar pelo flanco do animal para cobrir-se, Manuel se expôs para não sacrificar o Morzelo: mas ele confiava na sua ligeireza e na segurança do olhar. A cada tiro mergulhava, por assim dizer, no espaço que o separava da terra.
Ágil também, o castelhano evitou a ponta da lança, mas com o choque dos dois animais, esbarrado na disparada lhe resvalou um pé até o chão. Nada seria, pois facilmente ganharia ele a sela, se o Morzelo não tivesse mordido com raiva o pescoço do castanho.
Vendo-se desmontado, Barreda correu para ganhar a porta da casa, onde se ouvia alarido e choro de mulher.
Tomando então a manopla, e fazendo voltear as bolas, o gaúcho atirou-as; o castelhano caiu estropiado a cinqüenta passos da casa. Em um instante Manuel estava sobre ele, calcandolhe o pé no peito.
— Pede perdão a Deus, que chegou tua hora.
O castelhano de raiva emudecera.
A mulher do Barreda prostrava-se nesse momento aos pés de Manuel, implorando compaixão para o marido. Riu-se o gaúcho com dureza e escárnio:
— Virá outro marido para a consolar.
Arredando a desgraçada mulher, chegou o ferro da lança aos olhos do castelhano:
— Conheces!… É a lança com que há doze anos feriste meu pai à traição. Eu jurei que havia de cravá-la em teu coração, mas depois de vencer-te em combate leal. Chegou o momento.
Com uma calma feroz, espetou o ferro da lança, no corpo do assassino de seu pai, atravessando-lhe o coração como faria com uma folha seca.
Morzelo, que se conservava imóvel ao lado, durante toda esta cena, avançou a um sinal do senhor, e porventura ensinado, pisou com a pata a face contraída do moribundo, que ainda estremeceu, ante essa derradeira afronta.
Enquanto a vítima se debateu nas vascas da agonia, Manuel a contemplou friamente. Quando se apagou o último vislumbre de vida, se afastou sem lançar um olhar de compaixão à mulher desmaiada.
Nessa ocasião, o cavalo do morto chegou-se ao corpo para o farejar, soltando lamentos de dor. Comoveu-se o gaúcho com essa prova de amizade; e aproximando-se acariciou o animal. Queria ele consolá-lo da perda que sofrera?
Súbito cortou os ares um henito fremente e aflito, ao tempo que reboava pela campanha o estrondo de um tiro.
Manuel Canho tombou, rolando pelo chão.
VIII
A CRUZ
Tanto que Manuel lanceara o entrerriano assomava no teso fronteiro um peão.
Era esse o mesmo negro que, dois meses antes, o gaúcho encontrara perto da casa, em companhia do frade chamado para confessar Barreda. Pertencia ele à estância da qual era capataz o morto.
Percebendo o que sucedera, e conhecendo que seu auxílio já não podia salvar a vítima, colheu o negro as rédeas ao cavalo, que a princípio arremessara na esperança de chegar a tempo. Saltou no chão, e por cima da sela, armado o trabuco, preparou a pontaria com a maior atenção.
Quando teve bem firme pela mira a bota direita do gaúcho, o que lhe dava certeza, com o desconto da arma, de atravessar o coração da vítima, um sorriso de caçador arregaçou o beiço do negro, que desfechou o tiro.
Antes porém que batesse o cão da espingarda na caçoleta, repercutira a dois passos um relincho agudo.
Era a Morena. Saindo do mato, onde a deixara o gaúcho, a égua parara um instante no alto da lomba, e estivera contemplando de longe a cena do combate. Chegava justamente o peão, cujos movimentos despertaram a atenção do corajoso e inteligente animal.
Pressentiu a égua que a pontaria feita pelo peão ameaçava a existência de seu amigo, do homem que a restituíra a seu filho? Ou obedeceria ela a um impulso repentino, levada unicamente pelo desejo de correr ao lugar onde estava o Morzelo?
Ninguém sabe até onde se pode elevar o instinto do bruto generoso, sobretudo quando se põe em comunicação com almas da têmpera de Manuel Canho.
Arrancando aos galões, a Morena dispara como uma bala. Ao passar por junto do peão, desfechou-lhe nas costas um coice que o atirou de bruços sobre a macega, aos pés do cavalo; e foi esbarrar junto ao corpo de Canho, estendido numa barroca do terreno.
Estancando aí para farejar o corpo, sobre o qual também o Morzelo estendia o focinho, a égua soltou outro relincho estridente, e rodando sobre os pés volveu a corrida com igual velocidade, na direção onde havia tombado o peão. Tão pouco tempo decorrera, que este ainda não se recobrara da dor e surpresa, e jazia emborcado no chão.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.