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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

— É linda que faz gosto. Não há segunda: a Lúcia não tem melhor. Também o senhor nem sabe como lhe agradeço. 

 

E um novo granizo de beijos ia cair sobre mim; mas desta vez desviei-me a tempo. 

 

— Está gracejando! Que quer dizer isto? 

 

— Ora, faça-se desentendido! Já não se lembra de que me mandou pelo seu criado esta manhã? 

 

Julguei que a moça tinha perdido a cabeça, ou que eu sofria uma mistificação. 

 

— Ah! percebo! exclamou Nina que de seu lado também me considerava com surpresa. Queria achar-me com. ela! Tem razão. 

 

Saiu e logo voltou trazendo um cartão meu e uma caixa de jóia que eu abri precipitadamente. Tinha reconhecido a pulseira de brilhantes que dera a Lúcia no dia seguinte à ceia do Sá. 

 

Entrei no primeiro tílburi que passou, e atravessei as ruas a galope. 

 

Lúcia estava atirada a um sofá de bruços nas almofadas que escondiam-lhe o rosto. Tinha o mesmo vestido de seda escarlate que levara ao teatro, porém amarrotado, com as rendas despedaçadas e os colchetes arrancados da ourela, onde se viam os traços evidentes das unhas. Os cabelos em desordem flutuavam sobre as espáduas nuas; a grinalda despedaçada, o leque e as luvas jaziam por terra; numa cadeira ao lado estavam amontoadas todas as suas jóias. 

 

Vendo-me, ergueu-se de um salto e quis precipitar-se para mim; porém decerto o meu olhar cru a conteve, porque deixou-se cair sentada sobre o sofá em que estava. Sentei-me também, e incomodado; viera com uma cólera violenta; mas começava a sentir-me mau e pequeno diante dessa mulher sublime nas suas paixões. O seu rosto pisado, os olhos injetados de sangue e febricitantes ainda aumentaram o meu vexame. 

 

Peguei maquinalmente nas jóias que estavam sobre a cadeira. 

 

— Estas jóias são de muito valor!... Mas falta aqui uma, a mais insignificante! Não era digna por certo de brilhar no seu braço; atirou-a de esmola a alguma mendiga, e deu uma lição ao bobo que teve a ousadia de oferecer-lhe semelhante miséria. Aquilo quando muito, é o preço de uma noite de qualquer mulher à-toa, da Nina por exemplo. 

 

Ela tinha-se erguido trêmula; e foi-se a pouco e pouco retraindo até cair de joelhos. 

 

— Foi uma loucura, e eu mereço toda a sua cólera. Mas para que me fazer penar assim, meu Deus! Que prazer lhe podia dar essa mulher?... Não me tinha a mim? Uma escrava humilde, pronta para lhe obedecer, e que em paga de tanta submissão só lhe pedia que a não expulsasse! 

 

— E a senhora não chamou um velho desprezível para sua casa? 

 

— É tão diferente! Eu! Não fui atirada contra minha vontade à lama de que desejava erguer-me? Recuando ainda, não fui à noite repelida cruelmente e lançada nos braços desse homem, que no meu desespero eu procurei, por ser mesmo o ente mais vil e ignóbil que eu conheço; pois era preciso que o suplício fosse bastante violento para matar-me logo, e sem lenta agonia! No baile, apesar de tudo, não esperei uma palavra, um sinal para correr a seus pés, e suplicar-lhe como agora o meu perdão! 

 

Lúcia pousou a cabeça sobre os meus joelhos, sufocada pelo pranto; e eu não a ergui logo e não a apertei ao meu seio, porque achei-me tão infame a par dessa mulher, que sentia um vexame insuperável. Por fim levantei-a nos meus braços, e confesso que foi corando de vergonha. 

 

— Quem deve pedir perdão desta como de todas as vezes, Lúcia, sou eu: mas não o mereço, não. 

 

— Basta! Já me falou como outrora! Disse o meu nome! Que mais quero eu saber? Esqueci tudo. 

 

— Deixa-me falar; não me interrompas. Sou um miserável, indigno de ti. Eu só com o meu orgulho estúpido fui causa do que temos sofrido; mas é justo que a punição recaia sobre mim unicamente. Se a idéia de que tive um instante aquela mulher, te aflige, expele a lembrança desse mau sonho; pisei em sua casa pela primeira vez hoje, há meia hora. Vi a pulseira, compreendi tudo, e corri até aqui! 

 

Que êxtase de bem-aventurança foi o de Lúcia quando ouviu a confissão que eu lhe fazia! A mulher quebrada de fadiga, prostrada por uma noite de vigília e de violentas emoções, transfigurou-se de repente: o anjo de suave beleza surgiu na sua auréola luminosa, ao bafejo de uma felicidade celeste. 

 

— Passei esta noite, continuei, cheio de teu pensamento e de tua imagem. Às duas horas estive aqui, não te disseram? Esperei-te passeando na calçada até quase ao amanhecer; e as torturas que eu sofri é impossível dizer. Mas eu a procurei; não me posso queixar de ti, não tenho que pedir-te contas! Fui eu que te arrastei à força, louco que eu estava. 

 

— Não fale mais nisso! Acabou; foi um pesadelo que tivemos. Esqueça tudo! Eis o que vai apagar para sempre essa lembrança importuna. 

 

Dizendo isto Lúcia estendeu-me o lábio risonho; eu recuei como se visse por entre o carmim brilhar o dente de uma víbora. Ela empalideceu. 

 

— Nunca mais, eu juro, Lúcia, tu me ouvirás as palavras que ontem te disse; nunca mais também me verás rejeitar por causa das calúnias de alguns miseráveis as provas de tua afeição. Mas esse beijo, agora!… Não! não o posso aceitar, e não me perguntes a razão! 

 

(continua...)

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