Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
Ela já me fez conhecer a sobras o mundo e os homens. Doravante nada mais pode ensinar-me que seja novo para mim.
Se ma arrancarem, se a quebrarem, ficarei em todo caso com a ciência que ela me deu; Que a quebrem pois! Pouco importa.
O que me apavora é a incerteza e o medo dos transes, a que tenho de sujeitar-me.
Se ao menos eu soubesse, se eu pudesse prever o que se projeta, se planeja, e se realizará contra mim amanhã... de hoje a três dias, daqui a um mês ou mais tarde...
Se eu pudesse acabar de uma vez com esta incerteza que é o pior dos martírios...
Oh! . . .
O armênio me proibiu fixar a luneta mágica por mais de treze minutos, sobre o mesmo objeto, porque além de treze minutos começaria a visão do futuro.
A visão do futuro! . . . é a que eu aspiro, o que ardentemente agora desejo.
É verdade que o armênio também me assegurou que a visão do futuro me era negada, e que a luneta magica se quebraria entre meus dedos, se eu a fixasse sobre o mesmo objeto por mais de treze minutos.
Mas quem sabe se o armênio procurou enganar-me?... Quem me diz que ele não inventou esse meio, que não empregou essa proibição dolosa para impedir que eu chegasse até a visão do futuro e dela me aproveitasse?...
A visão do futuro me daria poder igual ao do mais abalizado mágico; com ela eu seria igual ao armênio...
Diz-me o coração que o armênio quis enganar-me, e que eu posso ter a visão do futuro; e por ela igualá-lo na extensão do poder mágico.
Quero fazer a experiência. Que me pode acontecer de pior?... quebrar-se a luneta entre os meus dedos... ora! . . . e sem a visão do futuro, de que, para que mais me serve esta luneta?...
XLIX
O desejo impetuoso, irresistível da visão do futuro dominou-me absolutamente.
Ardi por efetuar a experiência.
Mas o futuro que eu principalmente e antes de tudo almejava conhecer, era o meu.
Como era possível que eu fitasse a minha luneta mágica em mim próprio, no meu próprio rosto?...
Pensei debalde uma hora, e acabei entendendo que não há recursos para vencer o impossível.
Pois há! mercê do encanto prodigioso da minha luneta mágica. há.
Em um momento de inspiração que me pareceu feliz, lembrou-me de fitar a luneta na imagem do meu rosto refletida pelo vidro do espelho.
E saltei da cama, e corri ao espelho, e fitei na imagem do meu rosto a luneta mágica.
L
Vi-me pálido, abatido, desfigurado, vi-me outro, e muito diferente, do que eu ainda era um mês antes... vi meus olhos encovados, e meu olhar inquieto, cheio de flamas, e como que temeroso... vi sem dar importância ao que via, os senões e talvez os dotes físicos do meu semblante...
Eu estava ansioso pelo fim dos treze minutos; quase que não tinha consciência do que estava por força vendo... eu tremia, e esperava a visão do futuro: era a minha idéia exclusiva.
De súbito estremeci violentamente.
Oh! sem que eu nisso cuidasse, sem que eu com isso tivesse calculado, oh!... cheguei antes da visão do futuro à visão do mal!...
E quereis sabê-lo?... vi a minha perversidade!...
Meu Deus! isto e necessariamente mentira, ou castigo; meu Deus! eu não sou assim!...
Vi que sou o mais infame caluniador, e inimigo dos meus parentes! Vi que em frenesi de malvadeza infernal assaco aleives contra os homens, atiro aleives sobre nobres senhoras, e inocentes donzelas, ouso insultar ao pé dos altares os sacerdotes, respiro o mal, vivo do mal, semeio o mal...
Eu estava em convulsão... detestava-me... tinha horror de mim próprio, desprezo pela minha torpe individualidade, vi-me tão imundo, tão profundamente vil e asqueroso, que desejei cuspir, e, se pudesse, teria cuspido no meu rosto.
Vi-me ainda venenoso como a pior e a mais enraivada das serpentes; vi-me em fúrias de enraivadas atrocidades, possesso do demônio, vi-me morder em delírio todos os seres da criação, e maldito hediondo, horroroso, ultrajando a Deus, o criador.
Soltei um grito de pavor indizível, e apertando desesperado os dedos, quebrei, fiz em migalhas a luneta, e sem sentir a dor da mão ferida e ensangüentada pelos pedaços de vidro que tinham nela se entranhado, fui cair no leito chorando desabridamente, e por entre dolorosos soluços, bradando em alta voz:
—Perdão!... perdão!... perdão!...
FIM DA PRIMEIRA PARTE
SEGUNDA PARTE
INTRODUÇÃO
I
Oito dias deixei-me clausurado em casa, maldizendo da minha infelicidade.
Eu tinha recebido da experiência uma grande lição; mas como quase sempre acontece ao homem, veio-me a lição da experiência, quando não podia mais aproveitar-me.
A Insaciabilidade do desejo para a causa determinante do meu maior infortúnio.
Pobre míope o que eu mais ambicionara, por muito tempo debalde, consegui enfim obter um dia, tive uma luneta potente que deu a meus olhos a vista penetrante da águia.
Alcançado beneficio tão grande, tesouro tão precioso, aquilo que se me afigurara impossível desejei mais!
Quis ter e gozar a visão do mal, a que o armênio sabiamente me aconselhara não expor-me, esclarecendo-me sobre os seus perigos.
Mas desejei e quis ter, e tive essa visão fatal, e por ela tornei-me o homem mais desgraçado.
(continua...)
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