Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Perto do cabo estão umas ilhas, no meio das quais é limpo e bom porto para surgirem naus de todo porte, e não há senão guardar do que virem. Duas léguas do cabo, da banda do norte, está a baía Formosa, e defronte dela ficam as ilhas, e entre essa baía e as ilhas há bom surgidouro. No fim dessa baía para o norte está a Casa da Pedra, perto da qual está um rio pequeno, que tem de fora bom surgidouro, e de dez até quinze braças de fundo, afastado um pouco de uma ilha que está na boca da baía. E perto dessa ilha é alto para ancorar naus, mas perigoso, porque se venta sudoeste e oeste, faz aqui dano no primeiro ímpeto, porque vem com muita fúria, como trovoada de Guiné, a qual trovoada é de vento seco e claro. Costumavam os franceses entrar por este rio pequeno e carregar pau-brasil, que traziam para as naus que estavam surtas na baía, ao abrigo das ilhas. Por essa baía entra a maré muito pela terra adentro, que é muito baixa, onde de 20 de janeiro até todo o fevereiro se coalha a água muito depressa, e sem haver marinhas, tiram os índios o sal coalhado e duro, muito alvo, às mãos cheias, de baixo da água, chegando-lhe sempre a maré, sem ficar nunca em seco.
C A P Í T U L O XLIX
Em que se declara a terra que há do cabo Frio até o Rio de Janeiro.
Do Cabo Frio ao Rio de Janeiro são dezoito léguas, que se repartem desta maneira: do Cabo Frio até ao rio de Sacorema são oito léguas; de Sacorema às ilhas de Maricá são quatro léguas, e de Maricá ao Rio de Janeiro são seis léguas, cuja costa se corre leste-oeste; o qual Rio está em vinte e três graus, e tem sobre si umas serras mui altas, que se vêem de muito longe, vindo do mar em fora, a que chamam os Órgãos, e uma destas serras parece do mar gávea de nau, por onde se conhece bem a terra. Este Rio tem de boca, de ponta a ponta, perto de meia légua, e na de lés-sudoeste tem um pico de pedra muito alto e mui a pique sobre a barra. Na outra ponta tem outro padrasto, mas não é tão alto nem tão áspero, e de um ao outro se defenderá a barra valorosamente. No meio dessa barra, entre ponta e ponta, criou a natureza uma lájea de cinquenta braças de comprido e vinte e cinco de largo, onde se pode fazer uma fortaleza, que seja uma das melhores do mundo, o que se fará com pouca despesa, com o que se defenderá este Rio a todo o poder que o quiser entrar; porque o fundo da barra é, por junto dessa lájea, a tiro de espingarda dela, e forçado as naus que quiserem entrar dentro hão de ir à fala dela, e não lhe ficará outro padrasto mais que o do pico de pedra, donde lhe podem chegar com artilharia grossa; mas é esse pico tão áspero que parece impossível poder-se levar artilharia grossa acima, e segurando-se êste pico ficará a fortaleza da lájea inexpugnável. E uma coisa e outra se pode fortificar com pouca despesa, pela muita pedra que para isso tem ao longo do mar, bem defronte, assim para cantaria como para alvenaria, e grande aparelho para se fazer muita cal de ostras, de que neste Rio há infinidade.
C A P Í T U L O L
Em que se declara a entrada do Rio de Janeiro e as ilhas que tem defronte.
Defronte da barra do Rio de Janeiro, ao sul dela quatro ou cinco léguas, estão duas ilhas baixas, e ao noroeste delas está um porto de areia bem chegado à terra, onde há abrigada ao vento sul, sueste, leste e noroeste, e como for outro vento convém fugir na volta de leste ou do norte, que serve para quem vem para o reino; e quem houver de ancorar aqui, pode-se chegar à terra até quatro ou cinco braças de fundo para ficar bem; e quem houver de entrar no Rio, dando-lhe o vento lugar, entre pela banda do leste, e sendo o vento oeste, vá pela barra de oeste, pelo meio do canal que está entre a ponta de Cara de Cão e a lájea; mas a barra de leste é melhor, por ser mais larga; e por cada uma delas tem fundo oito até doze braças até a ilha de Viragalham; e quanto mais forem a loeste, tanto menos fundo acharão, depois que passarem a ilha, e para a banda de leste acharão mais fundo em passando a ilha de Viragalham, que se chama assim, por ser este o nome do capitão francês, que esteve com uma fortaleza nesta ilha, que é a que Mem de Sá tomou e arrasou.
Defronte da barra deste Rio ao mar dela, está uma ilha, a que chamam ilha Redonda; e afastado dela para a banda de leste, está outra ilha, a que chamam a ilha Rasa; e defronte desta ilha e a ponta da lagoa, estão três ilhas no meio, e chegando à terra está outro ilhote, a que chamam Jeribatuba, em derredor da qual estão quatro ilhotes.
C A P Í T U L O LI
Em que particularmente se explica a baía do Rio de Janeiro da ponta do Pão de Açúcar para dentro.
É tamanha coisa o Rio de Janeiro da boca para dentro, que nos obriga a gastar o tempo em o declarar neste lugar, para que se veja como é capaz de se fazer mais conta dele do que se faz.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.