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#Ensaios#Literatura Brasileira

À Margem da História

Por Euclides da Cunha (1909)

"Dada en la casa de Gobierno de Lima a 6 de Julio de 1841."

Este decreto, extratado nos trechos principais, inculca ao mesmo tempo o caudilho, no recacho presuntuoso que lhe emprestam aqueles adjetivos e substantivos constrangidos a escoltarem-lhe o nome, e o governante, que primeiro traçou aos seus patrícios a marcha regeneradora para o Oriente. Mas não o reproduzimos apenas para realce dos aspectos contrariantes da História Peruana; senão também para destacar aquela figura de brasileiro, que seria inexpressiva se não constituísse o primeiro termo de uma série de compatriotas obscuros, erradios dos nossos fastos e elegendo-se por atos memoráveis entre os melhores servidores da nação vizinha.

De fato, à medida que se rastreia a marcha peruana para o levante, exposta em todos os seus pormenores, miudeada em regulamentos, em decretos, em circulares e em ofícios — porque é a suprema preocupação política, militar e administrativa do Peru — observa-se nas referências obrigatórias e incisivas ao elemento brasileiro, o intercurso de uma outra avançada obscura, mas vigorosa, e contrapondo-se-lhe numa expansão tão enérgica, para o ocidente, que com os seus efeitos a despontarem de longe em longe, precisamente nos períodos mais decisivos da primeira, se restauraria todo um capítulo da nossa História, que se perdeu ou se fracionou despercebido à visão embotada dos cronistas, para ressurgir agora, esparso em fragmentos surpreendentes, nas entrelinhas da História de outro povo. É o que demonstram outros casos, entre nós inéditos. Apontemo-los de relance.

No período abrangido pelos governos do austero Marechal Castilla, as explorações prosseguiram. Castelnau desceu das cabeceiras do Urubamba às ribas do Amazonas; Maldonado imortalizou-se descobrindo, numa excursão temerária, a nova estrada para o Atlântico ajustada ao sulco desmedido do Madre de Diós; e Raimondi desvendou os tesouros da mesopotâmia de 16.000 léguas quadradas de terras exuberantes, interferidas pelos cursos do Huallaga e do Ucaiáli. Por fim Montferrir calculou, rigorosamente, as riquezas da Canaã vastíssima: 50.000.000 de hectares, valendo o mínimo de meio bilhão de pesos.

A aritmética tornava-se quase lírica nesta dilatação de números maravilhosos. As medidas governamentais do grande Marechal tiveram para logo o alento dos mais enérgicos estímulos patrióticos, a par do anseio de fortuna dos mais desassombrados aventureiros.

Os peruanos, iludidos durante largo tempo no litoral estéril, viam pela primeira vez o novo mundo. E a conquista da terra, numa de suas fases mais agudas, desenrolou-se em toda a plenitude.

Então, contravindo a tantas esperanças sob o amparo das mais lúcidas resoluções governativas — leis, regulamentos e decretos enfeixando-se num volumoso compêndio de administração fecunda e militante — principiou uma fase desalentadora de brilhantes tentativas abortícias.

As colônias planeadas, e para logo erigidas, espelhavam por algum tempo naqueles rincões solitários a fantasmagoria de um progresso artificial; e extinguiamse prestes. Já em 1854 o governador de Loreto, pueblo obscuro cujo nome irradia hoje abrangendo aqueles lugares, ao informar do estado de duas colonizações sucessivas que ali se estabeleceram, centralizadas em Caballo-Cocha, próximas à fronteira do Brasil, indicava-as completamente extintas. E idênticos malogros generalizavam-se por toda a banda.

Eram naturais. As vagas humanas nas paragens virgens não se aquietam de súbito. Carateriza-as nos primeiros estádios a instabilidade inevitável imposta pela própria força viva adquirida no movimento da marcha. Precedendo ao equilíbrio das culturas, surge a pesquisa dos frutos ou das riquezas imediatas, como a permitir aos recém-vindos, na vida errante das colheitas, dos garimpos, dos pastoreios ou das caçadas, um reconhecimento imprescindível do seu novo habitat, antes da escolha de uma situação de descanso.

É a eterna função social do nomadismo, que mesmo no Peru já se manifestara na azáfama devastadora dos cascarileros, desvendando as paragens ignotas que vão dos cerros de Carabaya às vertentes mais afastadas do Beni.

Este incentivo, porém, ali, estava extinto.

Por aquele tempo, uma tenaz explorador, Marckam, comissionado pelo governo inglês, andava nas regiões da quina calisaya; e conseguira transplantar tão prontamente para as Índias aquele elemento da fortuna peruana que, já em 1862, mais de quatro milhões de árvores, em Darjeeling, com a produção extraordinária de 370 toneladas de quinino, iniciavam uma concorrência triunfante no primeiro assalto. Deste modo, as paragens tão ansiosamente apetecidas mostravam-se, ante os novos povoadores, desnudas desses recursos que em toda a parte se figuram adrede predispostos a que não se desenfluam as esperanças sempre exageradas dos que emigram.

(continua...)

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