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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

Adelaide estava mais expansiva; trocou algumas palavras, diretamente com o secretário, emitiu opiniões, teve risos gostosos; enfim, já não era a mesma que D. Branca surpreendera com os olhos no teto, a pensar e que se conservara silenciosa ao almoço, enquanto as outras pessoas comentavam o piquenique.

As noites eram mais frescas então; respiravam-se as primeiras brisas do equinócio das flores, o sol ia perdendo a intensidade abrasadora e caniculante que afugentara para Petrópolis e Friburgo os satélites imperiais do monarca. A vida fluminense, por assim dizer interrompida com a ausência da aristocracia palaciana, voltava a funcionar, é verdade que sem o estímulo habitual, porque a sabedoria de Hipócrates ordenava ao imperador uma retirada para o outro continente, e os olhos do povo e da nobreza cedo começavam a chorar a ida inevitável do augusto e perpétuo defensor do Brasil. Voltavam tristes as andorinhas de Petrópolis, e essa tristeza comunicava-se ao meigo rebanho que atravessara dezembro e janeiro ao sol, enquanto a asa negra da febre amarela estendia-se pavorosa, sobre a heróica cidade.

Os jornais, numa faina lúgubre, pediam contas ao governo sobre o verdadeiro diagnóstico da imperial moléstia e já se dizia por toda a parte que "o rei ia, mas não voltava... — Diabetes ... glicosúria... surmenage... eram palavras que enchiam a Rua do Ouvidor subindo e descendo com os transeuntes. — Quem ficava no trono! Quem se responsabilizava pelos destinos da grande pátria americana? Toda a gente sabia que era a princesa, mas toda a gente perguntava: — Quando era o dia do embarque? — e cada boca era uma interrogação e cada olhar uma profecia. Republicanos, abolicionistas, em conciliábulos secretos, viam na doença do imperador o triunfo das novas idéias, a conquista da liberdade, a grande hora da fraternização brasileira..." E reduzido às míseras proporções de inválido, o segundo Alcântara, bisneto da Sra. D. Maria I, universalmente conhecido pelos seus versos ao bom povo ituano e pelo seu amor às letras, que na Europa dava-lhe foros de primeiro poeta do Brasil - O celebrado amigo de V. Hugo e das canjas do Teatro Lírico ia sulcar o Atlântico para bem do povo e felicidade da nação, desse povo que tanto o amava e dessa nação que ele governava há meio século.

Povo e nação volviam os olhos para a Tijuca à espera de que saísse o augusto enfermo, com o seu préstito de áulicos e turiferários, humilde agora mais do que nunca, dentro de um cupê imperial, abatido e tristonho na grande dor que o pungia... Quantas pessoas ainda não o tinham visto e queriam vê-lo agora no embarque! As ruas haviam de se encher, as ruas e as praças quando os clarins dessem sinal da aproximação d'Ele. Oh, havia de ser um espetáculo comovedor, uma tristeza enorme, um pranto geral nos palácios e nas choupanas, onde quer que brilhasse a fama do seu queridíssimo nome. Os republicanos mesmo não se conservariam insensíveis.

— Porque — dizia, numa roda, o secretário — vocês podem negar tudo, menos que o imperador seja querido pelos brasileiros.

A roda compunha-se dele Furtado, de Evaristo, de Valdevino Manhães, do deputado Ismael Pessegueiro, de Alagoas, e do Freitas Camargo, outro poeta, companheiro do Manhães na Revista Literária.

O tema era a viagem do imperador daí a alguns dias. Estava-se em fins de maio. Aboletados ao redor de uma mesinha no Castelões, cada um expunha o seu juízo acerca do monarca e da imperial viagem à Europa. O secretário do Banco apelava para a consciência de todos: - era ou não estimado no Brasil o imperador?

Valdevino Manháes, cavalgando o pincenê afetadamente, e cruzando as pernas com um ar doutoral, lembrou as suas tradições republicanas e disse que, apesar de nunca ter merecido favor nenhum do Império, não ousava negar a estima do povo ao rei; mas isso não queria significar adesão eterna do povo às instituições monárquicas: era um sentimento pessoal, uma generosidade afetiva, um respeito mesmo às barbas brancas do velho...

— Engana-se, amigo — interrompeu o representante de Alagoas calmo, sem se mover na cadeira, fitando os olhos no Dr. Condicional. — Pedro II enraizou a monarquia no Brasil, e, ainda que tivéssemos o desgosto de lamentar a sua morte hoje ou amanhã, o Brasil havia de ser sempre Império do Brasil, nunca uma república. Desejar o sistema republicano para o nosso país é querer a ruína de uma das maiores nações do mundo. Veja o senhor a Inglaterra.

— Exatamente - apoiou Furtado.

— A Inglaterra é uma nação decadente! - berrou o Manhães. — Não há termo de comparação entre a Inglaterra e o Brasil. O Brasil um país novo, ainda nas faixas infantis...

— Por isso mesmo, por isso mesmo! — argumentou o deputado. — Os países novos precisam de um freio, como o indivíduo na infância.

Qual freio, Sr. Doutor! De freio precisam os burros, e nós somos um povo inteligente, um povo que não precisa de freios nem de monarcas. A república há de se fazer, creia!

(continua...)

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