Por Adolfo Caminha (1895)
acompanhava-o a toda parte, a bordo e em terra, quer ele quisesse quer não, com uma insistência de remorso. Desejava odiá-lo sinceramente, positivamente, esquecê-lo para sempre, varrê-lo da imaginação como a um pensamento mau, como a uma obsessão insólita e enervante; mas, debalde! O aspecto repressivo do marinheiro estava gravado em seu espírito indelevelmente; a cada instante lembrava-se da musculatura rija de Bom-Crioulo, de seu gênio rancoroso e vingativo, de sua natureza extraordinária — híbrido conjunto de malvadez e tolerância —, de seus arrebatamentos, de sua tendência para o crime, e tudo isso, todas essas recordações o acovardavam, punham-lhe no sangue um calafrio de terror, um vago estremecimento de medo, qualquer cousa latente e aflitiva... Suas expansões com a portuguesa eram incompletas, vibravam-lhe os lábios em sorrisos de falsário, cada vez que ela o exaltava para deprimir o outro...
Todavia a noite foi como um delírio de gozo e sensualidade. D. Carolina cevou o seu hermafroditismo agudo com beijos e abraços e sucções violentas...
CAPÍTULO IX
Vida triste era a de Bom-Crioulo, agora, no hospital, longe da Rua da Misericórdia e do seu único afeto, obrigado a um regimen conventual, alimentandose parcamente, ouvindo a toda hora gemidos que lhe entravam na alma como uma salmodia agourenta, como a dorida expressão de seu próprio abandono, metido entre as paredes de uma lúgubre enfermaria — ele que amava a liberdade com um entusiasmo selvagem, e cujo ideal era viver sempre na companhia de Aleixo, do ingrato Aleixo...
A figura do rapazinho, rechonchuda e nédia, esvoaçava-lhe na imaginação provocadoramente, seduzindo-o, arrastando-o para um mundo de gozos, para uma atmosfera de lubricidade, para o silêncio misterioso de uma existência devotada ao amor clandestino, ao regalo soberano da carne , a todos os delírios de uma paixão que chegava à loucura.
A ausência aumentava-lhe o desespero, aquela vida triste de hospital enchiao de aborrecimentos, era um castigo sem nome para quem, como ele, reclamava liberdade e amor — liberdade absoluta de proceder conforme o seu temperamento, amor físico por uma criatura do mesmo sexo que o seu, extraordinariamente querida como Aleixo... Nunca mais tivera notícias dele, nunca mais o vira, nunca mais haviam trocado um simples olhar...
Entretanto, quê de recordações povoavam-lhe o cérebro, à noite, quando, só ele Bom-Crioulo, d’olhos abertos no escuro, fitando o teto da enfermaria, velava, ele só, ali dentro! Quê de recordações, meu Deus! Via, como se estivesse vendo na realidade, as formas do grumete, o seu olhar azul e a face branca, o quartinho morno da Rua da Misericórdia, trepado, lá cima, no sótão, à beira do telhado, a cama de lona, o retrato do imperador, pregado à parede, muito sério, com um ar de suprema bonomia, e tudo que o cercava no voluptuoso ambiente, onde vivera tantos dias de felicidade... Ficava horas e horas pensando, horas e horas mergulhado numa abstração vagarosa, num êxtase calmo, recordando, capítulo por capítulo, a história de seu amor. Daí um profundo e inexplicável desgosto, uma idiossincrasia especial feita de ciúme e de ternura dolente. Imaginava cousas de homem que perdeu o juízo: — Aleixo ainda o estimaria? Não, com certeza. Se ainda o estimasse, tê-lo-ia procurado, onde quer que ele, Bom-Crioulo, estivesse; mas Aleixo nunca mais se importara, desde o dia da separação. Quem sabe? novos amores...
O negro enchia-se de ódio ao mesmo tempo que sentia aumentar dentro do coração o desejo de possuir eternamente o rapazinho.
Desejava-o, sim, mas virgem de qualquer outro contato que não fosse o dele, queria-o como dantes, para si unicamente, para viver a seu lado, obediente a seus caprichos, fiel a um regimen de existência comum, serena e cheia de dedicações mútuas.
Era-lhe impossível abandonar o grumete; e agora principalmente, agora é que esse amor, essa obsessão doentia redobrava com uma força prodigiosa impelindo-o para o outro, acordando zelos que pareciam estagnados, comovendo fibras que já tinham perdido antigas energias. o Bom-Crioulo da corveta, sensual e uranista, cheio de desejos inconfessáveis, perseguindo o aprendiz de marinheiro com quem fareja uma rapariga que estréia na libertinagem, o Bom-Crioulo erotômano da Rua da Misericórdia, caindo em êxtase perante um efebo nu, como um selvagem de Zanzibar diante de um ídolo sagrado pelo fetichismo africano — ressurgia milagrosamente.
Ele ali se achava no hospital, abandonado e só, gemendo tristezas inconsoláveis, arrastando os farrapos de sua alma, ganindo — pobre cão sem dono — blasfêmias contra a sorte que o desligara de Aleixo, contra Deus, contra tudo!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.