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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

E muito terna, derreando-se de novo sobre os ombros do guarda-livros, beijou-o na face áspera de espinhas, sem repugnância, e começou a cofiar-lhe carinhosamente os bigodes, devagarinho, arregaçando-os, assanhando-os para tornar a alisá-los, prolongando assim a delícia de Loureiro que nesses momentos era como um escravo das mãozinhas brancas e delicadas da Lídia.

— Mas, que tem? perguntou ele com a voz trêmula, um fluido estranho no olhar terno.

— Não, meu bem, isso não, que é feio, tornou a Campelinho. Tem paciência.

Não fazia mal, continuou Loureiro. Não eram noivos? não eram quase casados? Que diabo! consentisse ao menos uma vez. Era um instantinho. Ora! uma coisa tão simples, tão natural... Ninguém via, deixasse, que tolice!

E enquanto falava muito baixo, com hesitações trêmulas na voz embargada pela sensualidade, estendia a mão por baixo, olhar fito nos olhos vivos e penetrantes da rapariga.

Nem um ruído na rua do Trilho, nem uma voz, nem o vôo pesado de um morcego: tudo silêncio, e uns restos de luar a extinguir-se esbatendo defronte nos telhados. Apenas, ao longe, vago e indistinto quase, o ruído monótono do mar no silêncio da noite calma.

— Oh! não... suplicou a Campelinho sentindo o contato da mão grossa do guarda-livros. Deixa...

Houve um frufru de vestidos machucados e o baque de uma cadeira.

Momentos depois o Loureiro despedia-se triunfante, pisando devagar, caminho do HOTEL DRAGOT.

Desde então começou a retirar-se muito tarde. Havia noites em que só saía depois de uma hora da madrugada. Ultimamente almoçava e jantava em casa da viúva. Era mais econômico do que pagar no hotel, dizia D. Amanda: bastava que ele contribuísse com trinta mil-réis mensais e tudo se arranjaria ali mesmo em família; de modo que o Loureiro pouco a pouco foi-se fazendo, por assim dizer, dono da casa, chefe da família. Por fim todas as despesas corriam por sua conta e risco. Aluguel de casa, comedoria, roupa lavada e engomada, vestidos para a Lídia, tudo era ele quem pagava de boa vontade, sem tugir nem mugir porque queria e tinha prazer nisso. Muito econômico, amigo de seu dinheirinho, mas em se tratando das Campelo, não tinha mãos a medir, era de uma prodigalidade sem limites. Coitadas! lamentava-se consigo, eram umas pobres; cada um sabe de si e Deus de todos; tinha quase o dever de ampará-las, tanto mais quando estava para ser marido da pequena. E abria o seu grande coração e a sua bolsa àquelas duas criaturas, que se lhe afiguravam duas santas através do prisma azul de seu amor pela rapariga. Subscritor da Sociedade de São Vicente de Paulo, um pouco devoto, às vezes tinha rasgos de verdadeiro filantropo. D. Amanda e a filha eram aos seus olhos “duas vítimas da maledicência de uma sociedade hipócrita e torpe até à raiz dos cabelos”. Agora jantava e almoçava em casa da viúva, que já lhe sabia os gostos, as manias. Ela mesma ia preparar a comida, os ovos quentes e a lingüiça assada ao almoço, o feijão e o lombo assado para o jantar. D. Amanda estava radiante com o genro. Tratava-o a velas de libra, fazia-lhe todas as vontades, escovava-lhe a roupa, e eram cuidados de mãe carinhosa ou de criança que tem um pássaro na mão e receia que lhe fuja.

Aos domingos o guarda-livros ia logo cedo para o Trilho, às vezes com a cara por lavar, metido em calças pardas, abotoado até o pescoço. Era quando tinha algum descanso das lidas quotidianas do armazém, da escrituração do Caixa. Às seis horas da manhã já ele estava de caminho para o Trilho, muito à fresca, cigarro ao canto da boca, prelibando as delícias de um dia em companhia da noiva, sem ter que dar satisfação à Carvalho & Cia., com a consciência tranqüila de quem cumpriu religiosamente o seu dever.

(continua...)

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