Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Quando Macário entrou, a orquestra, composta do Chico Ferreira, tocador de flauta, e do Manduca sapateiro, rabequista, tocava a Varsoviana. Os rapazes, às portas, empurravam-se rindo, excitando-se mutuamente a romper a dança, nenhum queria ser o primeiro a tirar par, procurando disfarçar o pejo com galhofas e risadas! Estavam ali os mais pintados, os mais atirados, os mais bonitos rapazes de Silves. Eram o Totônio Bernardino, irmão do noivo, recém-chegado do Pará, onde cursara as aulas do Liceu Paraense, viera às férias da Semana Santa, e deixara-se ficar vadiando; o Pedrinho Sousa, também estudante, companheiro do Totônio nos estudos e na cábula; o Manduquinha Barata, pequenino, bonitinho, bem vestidinho, fugira do Seminário de Manaus, por não poder meter o dente no Hora-horæ, e o pai, depois de lhe dar uma tremenda sova à beira do cacaual, quando o viu chegar de surpresa, pondo-o em papas e de cama por quinze dias, deixava-o andar vagando em Silves, namorando as moças e fumando cigarros, por não saber o que fazer dele; o juiz municipal, Anselmo Pereira de Campos Natividade, bacharel de Pernambuco, trigueiro e récem-formado, muito míope e muito pedante; o Felício boticário, irmão de D. Prudência, magro e esguio, parecendo filho do Valadão; e o Quinquim da Manuela, bom menino, sobrinho do Neves Barriga, pobre mas muito estimado.

Macário não vinha ali para dançar, nem fora convidado para isso. Não freqüentava bailes, e viera à festa do Bernardino por condescender, e ao mesmo tempo porque andava com muita vontade de perguntar a toda a gente, com quem não falara ainda, a sua opinião sobre o sermão da manhã.

— Venha espiar o baile, dissera-lhe o Cazuza Bernardino, e ele, condescendente, espiava.

Vendo as nicas que os amigos faziam, o Cazuza Bernardino atravessou a sala, com passo firme, afrontando com denodo os olhares das senhoras e foi convidar a noiva para dar começo ao baile. Na fila das cadeiras houve um riso nervoso que disparou duma ponta a outra quando os noivos vieram para o meio da sala, de braço dado, prontos a começar. O Totônio animou-se e foi tirar uma irmã da noiva. O Felício boticário atirou-se a D. Dinildes e o Manduquinha Barata, por troça, foi convidar a D. Eulália que se fez de manto de seda.

O Barata foi bater à porta de D. Cirila, que lhe respondeu, desdenhosa, no seu vestido verde, precioso e largo:

— Axi! seu Manduquinha, eu não danço com menino.

O riso estalou na sala. O Barata, já meio vexado, foi oferecer a mão à filha do Valadão, uma rapariga meio loura, muito pálida, de nariz afilado e grandes dentes em ponta, vestida de musselina branca com pingos vermelhos, e laços cor de castanha:

— Já estou comprometida com o filho do Chico Sousa, respondeu a filha do Valadão, com maus modos.

Foi uma gargalhada. Afinal o Manduquinha achou quem o quisesse, uma menina de onze anos, sardenta e endefluxada, e a Varsoviana começou compassada, em cadência, com requebros convencionais de elegância provinciana. A noiva, com o véu atirado para trás, o rosto descoberto, as ventas dilatadas, o ventre para diante, sacudia as saias amplas e engomadas, batendo fortemente no chão com os pés calçados em botinas grandes de cetim branco, de carregação, ao som da música monótona e pontuada da Varsoviana. O Cazuza Bernardino, direito como um fuso, apertava-a contra a bela farda nova, aspirando-lhe enlevado o macaçar dos cabelos negros, coroados pela grinalda de flores de pelica branca, e desmanchando-se já, na desordem des primeiros passos da dança, do penteado de bandós custosamente arranjado para aquele dia solene, único na vida da donzela do Urubus. Agarravam-se um ao outro, como temendo uma separação, e volteavam pela sala, mudos, corados, sentindo nas costas os olhares agudos das senhoras, e nos ouvidos as graçolas dos homens e o murmúrio confuso dos cochichos das velhas, sentadas ao canto da sala, maldizendo, vestidas de preto. O Totônio e a irmã da noiva, a Milu, iniciavam um namoro na Varsoviana. Haviam principiado rindo, metendo à bulha os noivos, e dançando com desembaraço e graça, sobressaindo aos outros pares na elegância dos passos e dos requebros, mas agora, sentindo uma emoção evidente, estavam sérios, com os olhos cruzados num estrabismo de enlevo, parecendo não pisar o chão, quase abraçados, ele soprava-lhe os cabelos castanhos com a respiração forte, ela, com o vestido de popelina azul-celeste caindo em pregas sobre os amplos quadris de mulher feita, deitava a cabeça sobre o fraque do cavalheiro, abandonando-se. O Felício botava a alma pela boca, carregando a irmã do Mapa-Múndi; não acertavam os passos, pareciam dois pistões duma peça mecânica em movimento alternado. O Manduquinha, esse, sim, divertia-se. Agarrara a menina pela cintura, e eram pulos, pinotes, saltos incríveis, patadas formidáveis querendo arrancar tijolos, uma dança desenfreada e patusca que punha tudo em rebuliço.

— É um diabinho, dissera D. Eulália, lisonjeada da preferência que rejeitara.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3031323334...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →