Por Domingos Olímpio (1903)
Renascia-lhe, no coração, a esperança de melhoras da mãe adorada; e, ao mesmo tempo, suspeitava que aquele prolongado sono fosse efeito de dormideiras, que lhe houvesse dado o médico. Meditava na tranquilidade angélica de Teresinha, seminua, apenas coberta por uma leve camisa de esguião, preciosa relíquia de antiga abastança, e acreditava que lhe houvera Deus perdoado as culpas, porque era boa na essência, e as purgara neste mundo. Entretanto, ela, que nunca havia feito mal a ninguém, que não abandonara os pais, nem traíra, nem ocasionara a morte de homens que a amassem, ela que tudo sacrificara, aspirações de moça e prazeres, que resistira aos instintos de mulher, para manter, em meio do paul, a sua pureza imaculada, ali estava, acabrunhada de pensamentos tristes, cruciantes como remorsos, com a alma inquieta e o coração latejando de susto, à previsão de perigos tremendos.
Que havia feito para sofrer tanto? Que funesta influência exercia sobre as pessoas que lhe queriam? Fora, talvez, ela que trouxera desgraça a Alexandre. Bastou que ele lhe desse os cravos rubros, crestados ao calor de seu seio, para lhe imputarem um crime infamante e ser preso como um réprobo.
Teria má sina, mau olhado?... Seria dessas criaturas fatídicas, cujo contacto desorganiza e destrói? Conhecera uma formosa moça, em cujas mãos, ovos batidos para mal-assadas, não cresciam e desandavam em aguadilha choca; talhava o leite; definhava e morria a planta de que ela colhesse uma flor, ou matava com o olhar ninhadas de pintos espertos e lindos, como macias borlas de veludo? Havia, então, criaturas, predestinadas para o bem e para o mal?... Nasciam umas para o sofrimento, outras para o gozo, da mesma forma que as havia destinadas ao céu ou ao inferno?... E Deus, Deus, pai de misericórdia, permitia isso, essa iniquidade revoltante?!...
E o seu espírito, flutuando à mercê de noções incompletas do bem e do mal, das causas e efeitos reguladores da vida, se rebelava, em assomos impotentes, contra as injustiças do destino cego e louco.
CAPÍTULO XIV
Uma surpresa auspiciosa assinalara o amanhecer: a velha enferma erguerase, sozinha, da rede; e, escorada a um pequeno cacete de cocão, envernizado pelo uso, apareceu à porta do quarto.
— Deus seja louvado – exclamou Luzia, em gárrula expansão alvoroçada.
— Seja bem-vinda, tia Zefinha!... – disse Teresinha, com largos ademanes maneirosos - Abanque-se aqui, no alpendre, que está mais fresco. Ora, até que enfim... Não há mal que sempre dure...
— É a minha promessa a São Francisco das Chagas, de Canindê – observou a enferma – que me restituiu a saúde... Eu tinha uma fé...
E o seu rosto de pergaminho, retalhado de rugas e dobras, se dilatava em meigo sorriso.
— Olhem – continuou, caqueando no seio do cabeção, bordado de cacundês, onde imergiam confundidos, entrelaçados, os rosários, bentinhos e medidas de santos, que lhe pendiam do pescoço; e mostrando uma caçoila com a imagem do milagroso padroeiro em péssima gravura, cujos milagres admiráveis atraíam os fiéis, vindos de longínquas paragens, em contínua romaria à sua bela igreja cheia de exvoto, pernas, braços, mãos e cabeças, modelados em cera, ou toscamente esculpidos em madeira, viscosamente coloridos e marcados de chagas hediondas, muito sarapintados de sangue e arroxeados de equimoses e alguns verdadeiros aleijões, monstruosidades repugnantes; muletas e ligaduras de pano velho, duras de sânie embebida; todas essas relíquias de piedade, penduradas, em simetria, às paredes da nave, rememorando curas, obtidas pela intercessão do santo, a quem Jesus Cristo concedera a graça de marcar com o estigma das cinco chagas.
Também fizera uma promessa a São Gonçalo da Serra dos Cocos e a outros patronos celestiais, não menos afamados pelo prestígio de sarar enfermos, desesperados da saúde. Estava em verdadeiro apuro para dar conta de todas elas; mas, o padre Antônio Fialho, ouvindo-a em confissão, lhas comutara em leve penitência, impondo-lhe a obrigação de rezar algumas coroas, terços e o ofício de Nossa Senhora, hino mirífico, que, quando é cantado na terra, os anjos se ajoelham no céu. Nas horas de alívio, ela se penitenciava debulhando, entre vagos fulgores de esperança, as contas luzidias de um rosário bento pelo santo missionário frei Vidal.
— Não sinto quase o puxado, minhas filhas, e aquele entalo, que me sufocava, também desapareceu. Dormi, que nem um passarinho, louvado Deus.
— Eu bem lhe dizia, tia Zefinha, que o remédio, abaixo de Deus, havia de ser a sua salvação.
— Agora – observou Luzia – é continuar com ele: estamos de viagem.
— E tu a dar-lhe, filha. Espera mais um pouco. Estou tão afeita a sofrer que, se não fosse falta de fé, desconfiava ser isso visita da saúde...
— Qual, vosmecê vai arribar mesmo – afirmou Teresinha, com muita convicção.
A velha sentou-se, acariciada pela filha, que lhe endireitou as dobras da saia e o lenço da cabeça, enquanto Teresinha preparava o chá de erva-cidreira, que ela tomava todas as manhãs.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.