Por Aluísio Azevedo (1880)
Nem sequer olhavam os viajantes para as preciosidades naturais e artísticas que se desenrolavam a seus olhos; contudo ali estava um artista, não sem alma para ver, sentir e admirar, mas não tomado de suas preocupações, tão pasmado e absorvido por uma idéia fixa, que não lhe dava a alma pressa de regalar a sede do artista, quando um coração se ressequia à mingua de outro carvalho. Um artista, um lazarone e um cão, isto é, o primeiro abstrato, o segundo rude e o terceiro irracional, são justamente as espécies mais refratárias ao belo, mas em verdade é que pareciam identificados pelo mesmo interesse e levados pelo mesmo fim, porque, igualmente apressados, caminhavam no mesmo compasso, se é que dois homens podem andar pelo compasso de um cão.
De repente Castor se pôs a ladrar contra um portão de ferro, que servia de vasta entrada para um jardim, em cuja casa muito se dançava e folgava. A música do baile absorvia os latidos do animal, este porém, ladrando cada vez mais, enfiava a cabeça e patas pelos intervalos dos varões lanceados da grade.
Nas salas principais do edifício estorcia-se o baile em convulsões sensuais; da rua viam-se rodar vertiginosamente as cabeças muito frisadas e as espáduas nuas de alabastro e banhadas de luz.
Sombra da Noite parou, olhou com atenção para a fachada do edifício e, calcando a cinza do cachimbo disse secamente:
— É aqui!
Miguel estava imóvel e distraído; tinha os olhos arregalados e as mãos frias; a luz imensa, a música, o luxo, o zunzum das sedas e veludos, ofuscavam-no, ao mesmo tempo que o enchiam de raivosa tristeza.
— Agora, disse o outro em voz baixa, podemos entrar por ali, sem risco de sermos vistos. Conheço uma ruazinha particular pertencente à casa e por onde é permitido ao povo transitar.
E arrancando o companheiro do labirinto de reflexões em que parecia perdido, foi com ele atravessando a frente do edifício. Miguel ia atrás, caminhava de cabeça baixa e passos lentos. Desse modo, costearam o jardim pelo lado esquerdo, depois, embrenhando-se por uma sombria alameda de laranjeiras, Sombra da Noite disse ao companheiro:
— Esta rua cerca toda a casa; caminhemos por aqui.
Quando chegaram ao meio da ruazinha, o guia parou novamente, acrescentando em segredo:
— Daqui se vê perfeitamente o fundo de toda a casa. Aquela grande varanda em forma de arco, disse ele, apontando para a enorme balaustrada do andar superior, fecha toda a casa; por aí pouca gente pode agora transitar, porque naturalmente estão entretidos com a dança e com o jogo; os salões do baile são no centro, e a eles pertencem aquelas cinco janelas que o senhor viu da rua; dos lados estão os dois salões do jogo e dão também para a rua aquelas duas outras janelas, que o senhor viu de cada lado, porém, compreende? É tudo resguardado pela varanda, onde agora não chegam os convidados. Estão no diabo da festa! Daqui a pouco, ouve-se o barulho que fazem, porque o vento leva contrário. Olhe agora para baixo, continuou Sombra da Noite, debruçando-se nos ombros de Miguel e acompanhando a descrição com o indicador da mão direita, olhe! vê aquela grade de mármore? na parte escura!... Está inteiramente sombreada pelo diabo da varanda do andar de cima...
— Onde estão aquelas vidraças de cor? Perguntou Miguel, todo atenção.
— Justo, disse o outro estendendo a palavra e os lábios. Também é o único aposento do andar de baixo que tem luz. Pois ali, continuou, abaixando misteriosamente a voz e chegando a boca ao ouvido de Miguel, é o aposento da filha do senhor Maffei!...
Miguel encostou-se à grade do jardim, segurou a cabeça com a mão e ficou a fitar embevecido as vidraças coloridas da janela. Sentia uma tempestade na alma; luziam-lhe ali na sombra os vidros iluminados do quarto de Rosalina, como um farol no alto mar.
Teria ele encontrado o porto?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.