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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

— Pois minha amiga, quando precisar de missa com cerimônia, não tem mais do que se entender com o padre que lhe digo.. P muito pontual e contenta-se com o que a gente lhe da! Est'r'o dia, apanhou-me dezoito mil-réis por uma missinha cantada, mas também podia se ver a obra que o homem apresentou!.. Pois então! Há de dar uma criatura seus cobrinhos, que tanto custam a juntar, a muito padre, como há por aí, desses que, mal chegam ao altar, estão pensando no almoço e na comadre?... Deus te livre, credo! Até pesa na consciência de um cristão!

— Como o padre Murta! .. lembrou a outra.

— Oh! Esse, nem se fala! Às vezes, Deus me perdoe! nos enterros, até se apresenta bêbado!

E Maria do Carmo bateu na boca — Cá está, acrescentou, quem já o viu a todo o pano encomendar o corpo de José Caroxo!...

— Não! que hoje em dia a gente perde a fé... isso está se metendo pelos olhos!... Mas é o que já não tem o outro... porta-se muito bem! muito bem procedido! muito cumpridor das suas obrigações! Zeloso da religião! Acredite, minha amiga, que faz gosto... Dizem até...

E Amância, segredou alguma coisa à vizinha Maria do Carmo baixou os olhos. e resmungou beaticamente:

— Deus lhe leve em conta. coitado!

Houve um rumor de cadeiras que se arrastam. Os comensais afastaram-se dos seus lugares

— Mesa feita. companhia desfeita!...gritou logo José Roberto chupando os restos dos dentes E tratou de seguir as senhoras, que se encaminhavam silenciosas para a sala.

Nisto, entrou o Dias, trazendo o Benedito pelo cós. Vinha a deitar os botes pela boca e, quase sem poder falar, contou que “seguira o ladrão até o fim da Rua Grande, e que c, ladrão quebrara para o Largo dos Quartéis e quase que alcança o mato da Camboa”. Dito isto, conduziu ele mesmo o moleque lá para dentro. Anda, peste! Vai preparando o pelo, que ainda hoje te metes em relho!”

Apreciaram muito o serviço da Dias, e conversaram sobre aquele ato de dedicação, elogiando o zelo do bom amigo e caixeiro de Manuel. Daí a uma hora despediam-se as moças. entre grande barafunda de beijos e abraços.

— Lindoca! gritava Ana Rosa, agora não arribe de novo, ouviu?... — Sim, minha vida. hei de aparecer... olha!

E subiu dois degraus para lhe dizer m um segredinho.

— Sim, sim! E Eufrasinha adeus! D. Mana do Carmo, não deixe de levar essas meninas à quinta no dia de São João. Temos torta de caranguejos, olhe lá!

— Adeus, coração!

— Etelvina, não se esqueça daquilo!...

— Bibina, despeça-se da gente!... guarde seus quatro vinténs!...

— Olhe, observou o Sebastião Campos, que as tais moças, para se despedirem... são terríveis!

— “Pudesse uma só nau contê-las todas...” recitou o Freitas. coçando o bigode com a sua unha de estimação, “e o piloto fosse eu... triunfo eterno!...” E.. após uma gargalhada seca, voltou-se para Raimundo e ofereceu-lhe com ar pretensioso “um talher na sua parca mesa”.

— Vá doutor, vá por aquela choupana, disse. Vá aborrecer-se um pouco...

Raimundo prometeu distraidamente. Bocejava. Por mera delicadeza, perguntou se alguma das senhoras `'queria um criado para acompanhá-las a casa”.

As Sarmentos aceitaram logo, com muitos trejeitos de cortesia. Ele interiormente contrariado, levou-as até às Mercês, onde moravam, ali mesmo, perto. Voltou pouco depois.

— Recolha-se. doutor, trate de recolher-se... aconselhou-lhe Manuel, que o esperava de pé. O senhor deve estar com o corpo a pedir descanso...

Raimundo confessou que sim, apertou-lhe a mão. “Boas noites, e obrigado”.

— Até amanhã! Olhe! se precisar de qualquer coisa, chame pelo Benedito, ele dorme na varanda. Mas deve estar tudo lá; a Brígida é cuidadosa Passe bem!

Raimundo fechou-se no quarto: despiu se, acendeu um cigarro e deitou-se. Abriu por hábito um livro; mas, no fim da primeira página, as pálpebras se lhe fechavam Soprou a vela. Então sentiu um bem-estar infinito, profundamente agradável: abraçou-se aos travesseiros e, antes que algum dos acontecimentos desse dia lhe assaltasse o espírito, adormeceu.

Todavia, a pouca distancia dali, alguém velava, pensando nele.

CAPÍTULO V

Era Ana Rosa. Logo que ela se recolhera ao quarto, gritara pela Mônica.

— Mãe-pretinha!

Assim tratava a cafuza que a criara e que dormia todas as noites debaixo da sua rede...

— Mãe-pretinha! Ó senhores!

— O que é, laiá? Não se agaste!

— Você tem um sono de pedra! oh!

Deu um estalo com a língua.

— Dispa-me!

E estendeu-se negligentemente em uma cadeira, entregando à criada os pés pequeninos e bem calçados.

Mônica tomou-os, com amor, entre as suas mãos negras e calejadas; descalçou-lhe cuidadosamente as botinas, sacou-lhe fora as meias; depois, com um desvelo religioso, como um devoto a despir a imagem de Nossa Senhora, começou a tirar as roupas de Ana Rosa; desatou-lhe o cadarço das anáguas; desapertou-lhe o colete e, quando a deixou só em camisa, disse, apalpando-lhe as costas:

— laiá? vos vossemecê está tão suada!...

E correu logo ao baú.

(continua...)

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