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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

— Minha senhora, volveu Leandro, reanimado por estas palavras e aproximando a sua cadeira para mais perto da minha, ainda há pouco não pude entrar em pormenores, nem disse quase nada do que trago a intenção de dizer... V. Ex.a compreenderá sem dúvida o meu estado de comoção...

— Sim. Fale.

— Minha senhora, eu adoro sua filha, e sei, e sinto, e afianço, que nunca mais amarei assim outra pessoa em toda a minha vida! Juro que...

— Não! — interrompi. — Não prometa coisa nenhuma! Fale só do presente; deixe lá o futuro que a Deus pertence! Quem pode nesta vida determinar com segurança alguma coisa futura?... Pois se pelo passado, que já está vivido, nem sempre podemos responder, porque ele às vezes nos foge da memória, como quer o senhor legislar sobre o porvir, ainda todo incerto? Fale-me do presente!

— Tem razão, minha senhora, e consinta que eu prossiga: Amo loucamente a senhora sua filha e só com ela posso compreender uma união eterna... Mas, V. Ex.as são ricas e eu sou pobre... ganho pouco; esse pouco, porém, chega com economia para duas pessoas resignadas... Entretanto, se ela própria me não tivesse jurado aceitar com satisfação o sacrifício de partilhar da minha pobreza, não faria a V. Ex.a, nem por pensamento, o temerário pedido que acabo de fazer. Desejo que V. Ex.a me conceda sua filha, sem outro dote além das virtudes que a enobrecem e além dos seus encantos pessoais...

Eu sorri. Não sei se era sincero o que ele dizia. Talvez fosse, porque a mocidade é quase sempre generosa e o primeiro amor é leal e adora o sacrifício. Mas a idéia, de consentir que minha filha partilhasse do magro ordenado de um amanuense de secretaria, pareceu-me infinitamente extravagante.

Já se vê que entrava no meu sorriso um pouco de vaidade; qual é, porém, o nosso ato social em que a vaidade não entre em grande ou pequena dose?

— Senhor José Leandro de Oviedo, declarei-lhe formalmente — o dote de minha filha pertence a minha filha. Dele partilhará a pessoa que se casar com ela; e se dela tiver filhos, herdará de mim, como a esposa, o que eu por minha vez herdei de meus pais, de meu sogro e de meu marido. Isso é questão assentada e nem é disso que convém tratar aqui. Entendo que tanto pode dignamente um moço pobre casar com uma moça rica, como um rico dar a mão de esposo a uma pobre, desde que essa união seja inspirada no interesse do amor e não no interesse do dinheiro. As idéias a isso contrárias são cópia de mal-entendido orgulho do homem. Entendem eles que uma mulher deve aceitar tudo das mãos do marido, e que este no entanto fica humilhado recebendo iguais benefícios da mão da consorte. Não é má essa moral! Que o homem faça do casamento um meio de enriquecer, acho indigno, como igualmente acho se o fizer a mulher; se o consórcio, porém, não for obra do dote e sim do amor, nada mais curial que os dois dividam amigavelmente entre si o que um deles possua, e que vivam felizes. Mas, graças a Deus, tanto minha filha como eu, somos bastante ricas para nos não preocuparmos em saber se o noivo dela traz ou não traz bens de fortuna; mesmo porque o casamento de Palmira não será um casamento vulgar, e coisas muito mais sérias que o dinheiro têm de ser discutidas nesta ocasião, aqui entre nós dois. Ponhamos pois de parte a questão pecuniária. Não se persuada, todavia, o senhor de que, por não trazer dote, esteja dispensado de dotá-la. A retribuição que exijo é de outra espécie, mas não é por isso menos valiosa que o dote dela...

— V. Ex.a tenha a bondade de dizer o que exige de mim. Seja o que for, estou pronto a cumprir! E o que não faria eu para alcançar tão grande e sublime prêmio?

Pois responda às perguntas que lhe vou fazer...

Estou inteiramente às suas ordens, minha senhora.

O senhor ama minha filha tanto quanto diz?

Juro que a amo tanto quanto é possível!

E será capaz de um grande sacrifício para obtê-la em casamento?

Desde que não seja um sacrifício de honra... estou disposto a tudo!

— Não, não é um sacrifício de honra, e antes de prosseguir, declaro-lhe que minha filha é pura, perfeitamente pura!

— Posso então jurar que, seja qual for o sacrifício, eu o farei, minha senhora!

— E como me provará o senhor que é um homem de honra, para que sua palavra me sirva de garantia?

— Pode V. Ex.a indagar a meu respeito de todas as pessoas que me conhecem. Até hoje tenho sido um homem honrado: nunca faltei à minha palavra, nem cometi ação que pudesse desdourar o meu caráter...

— E como garantir a sua palavra?

— Posso assinar um documento, um título de honra. Aceito as condições que V. Ex.a exigir...

— Pois então o senhor assinará uma declaração, formal e precisa, dirigida à polícia, dizendo que a ninguém devem atribuir a autoria da sua morte, porque foi o senhor mesmo quem pôs termo aos seus dias. E empenhará comigo a sua palavra de honra em como a ninguém revelará a existência desse documento; documento que será reformado de três em três meses. Aceita?

E é esse o sacrifício que V. Ex.a exige de mim?... perguntou Leandro, a sorrir.]

(continua...)

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