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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

- Vamos, filha, basta de tolice! Dá-me a chave.

- Não quero que saia, já disse!

- Dá-me a chave por bem ou eu te obrigo a dar-me à força!...

Ernestina passou-lhe os braços em volta do pescoço.

- Não sejas mau! disse chorando; não judies comigo deste modo!

Dá-me o diabo dessa chave! berrou ele, soltando-lhe um empurrão.

A rapariga deixou-se cair por terra e começou a soluçar.

- Ora pílulas! rosnou Teobaldo, avançando sobre a porta disposto a arrombá-la com um pontapé. Mas nesse momento alguém bateu pelo lado de fora e ele estacou, perguntando com um grito:

- Quem é?

- Abra! respondeu uma voz.

- Estou perdida!... gaguejou Ernestina. É o Almeida.

- Bonito! pensou o estudante; vamos ter escândalo!...

E, voltando-se para a mulher:

- Abra a porta!

- Abrir? E onde me escondo?

- Em parte alguma. Fique!

Ernestina entregou a chave a Teobaldo, abriu a porta. Mas, enquanto ele fazia isto, ela, apanhando as saias, fugia para a alcova imediata.

- Entre! disse o moço, empurrando com um movimento desembaraçado a folha da porta.O Almeida entrou; estava mais vermelho cinqüenta por cento do que era de costume. O seu colete branco, boleado pelo grande abdome, arfava; os músculos faciais tremiam-lhe como as carnes de um bêbado velho.

Pela primeira vez Teobaldo reparou bem para aquele tipo. Notou, obra de um segundo, que ele tinha na fisionomia e no feitio do corpo alguma coisa que lembrava uma foca; notou que as suíças do Almeida principiavam logo por debaixo dos olhos e perdiam-se por dentro do colarinho: notou que ele tinha uma cabeça quase quadrada, encalvecida pela face superior; notou que o nariz do homem não era grego, nem árabe, nem tampouco romano e que, se o separassem do rosto, ninguém seria capaz de dizer o que aquilo era, e tanto podiam supor que seria um legume ensopado, como um pólipo extraído ou um mexilhão fora da casca; e notou ainda que o Almeida constava de quatro pés de altura sobre outros tantos de largura e que as mãos dele eram tão papudas, tão escarlates e tão reluzentes de suor, que pareciam esfoladas.

- Exponha o que deseja! ordenou secamente o rapaz, depois deste exame instantâneo.

- O senhor escusa de negar... principiou o Almeida.

- Eu nunca nego o que faço!... interrompeu Teobaldo..

- Escusa, porque eu sei que ela está aqui.

- Ela quem?

- A Ernestina.

- Está.

- Pois era disso que eu precisava me capacitar! Não me suponha tão tolo, que não tivesse há mais tempo desconfiado da marosca; quis, porém, ter uma certeza e agora posso proceder à vontade, sem me doer a consciência!

- Explique-se.

- Pois não: uma vez que ela o prefere a mim, cedo-lha!

- Hein? Como é lá isso?

- Cedo-lha, repito!

- Cede-ma?!

- Sim. Pode tomar conta dela. É sua!

E, dito Isto, o Almeida soprou com força, como quem se vê livre de uma carga pesada, e abicou para a saída.

Teobaldo deteve-o com um gesto.

- Espere, disse-lhe. Antes de tomar conta de um fardo, que eu estava longe de esperar, quero saber ao qual é o seu conteúdo e a sua procedência!

- Ela que lhe explique tudo!... respondeu o velhote.

- Não; contradisse o outro; não quero trocar com ela uma palavra!... Ao senhor compete por tudo em pratos limpos. Em primeiro lugar, desejo saber ao certo que diabo vem a ser o senhor para D. Ernestina.

- Pois então o senhor não sabe?

- Se soubesse não perguntaria.

- Com franqueza?

- Não falo de outro modo.

- Pois então, ouça.

Teobaldo ofereceu uma cadeira ao Almeida e assentou-se em outra.

- Vamos lá disse.

- Haverá coisa de oito anos.. . casei-me, principiou aquele.

- Muito bem.

- Casei-me, mas não fui feliz...

- Sua mulher traiu-o?

- Não; tinha mau gênio. Era uma víbora!

- Muito bem.

- Suportei-a durante três anos; empreguei todos os meios para quebrar-lhe a fúria.

- Quebrou?

- Foi tudo debalde. A megera ficava cada vez pior. Resolvi largar de mão o negócio! - Abandonou-a?

- Justamente; mas...

- Que idade tinha sua mulher?

- Cinqüenta anos.

- Ah!

- E o senhor casou por amor?

- Sim, por amor... dos seus interesses.

- Ah! era rica..

- Nem por isso...

- Quanto possuía?

- Cinqüenta contos.

- Um conto por ano. Adiante!

- Mas bem, como eu lhe dizia...

- Como me dizia...

- Resolvi separar-me dela e, foi dito e feito, zás!

- Separou-se!

- Logo.

- Muito bem.

- Foi então que uma noite, voltando para a minha nova residência, encontrei, encostada à porta da rua, uma rapariga...

- Era D. Ernestina...

- Não; era uma mulatinha que me disse haver fugido de casa, porque o senhor estava muito bêbado e queria dar-lhe cabo da pele, depois de ter feito o mesmo à mulher. Perguntei onde ficava a tal casa, e como era perto, dei um pulo até lá. A mulatinha entrou adiante com toda a cautela e voltou pouco depois,. declarando que a peste do patrão havia já pegado no sono. "E o cadáver?" perguntei eu. "Deve estar na sala", respondeu a mulatinha. Abrimos a porta, e vi então um corpo de mulher estendido no chão. Esta é que era D. Ernestina.

- Estava morta?

(continua...)

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