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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Em todo o caso, Filomena teria o seu baile de máscaras!...

CAPÍTULO XI

QUAL DOS DOIS MARIDOS SERÁ O MAIS INFELIZ?

Nas vésperas do grande dia, quando o Borges andava de baixo para cima, tratando de pôr em prática as ordens da mulher, deu cara a cara com o Barroso, uma noite em que entrava no Passeio Público.

Em outra ocasião, é possível que os dois companheiros de infância nem se cumprimentassem, pois nunca mais se tinham visto depois da rezinga do casamento; mas encontrados assim, de supetão, ambos colhidos de surpresa, não puderam conter o clássico— Oh! — dos momentos de circunstância, e, quando deram por si, já estavam nos braços um do outro.

Ah! eles haviam sido tão camaradas, tão parecidos nos gostos e nos costumes! usando da mesma moral e dos mesmos princípios! Durante quarenta anos tinham seguido sempre a mesma linha tesa das conveniências comerciais: — O Borges, como sabemos, transviara-se com o impulso que lhe deu Filomena; mas o Barroso, não senhor! — foi cada vez mais acentuando a sua circunspecção e enrijando os seus créditos de homem sério.

De sorte que, atirados agora um defronte do outro, em flagrante contraste — o Barroso tão grave, tão ríspido, tão Invulnerável dentro de seu paletó saco, fiel ao seu permanente chapéu alto de pelo e ao seu guarda-chuva desenrolado; — e o Borges, tão catita tão gamenho, tão moderno nos seus sapatões ingleses e na sua bengalinha de junco — não podiam fugir ao mais completo embaraço.

Sentaram-se ambos no primeiro banco, ao lado um do outro. sem uma palavra, mudos como dois frades de pedra.

Borges, no fim de alguns instantes de completo silêncio, caiu de novo nos braços do amigo e abriu a chorar copiosamente.

Não era o barão de Itassu quem chorava ali, era o João Touro, o primitivo, o bom João Touro doutros tempos, que agora reaparecia, como por encanto, à vista de um companheiro de seu doce passado, tão tranqüilo e singelo.

Chorou muito, muito, como se desabafasse naquele momento toda a acumulação de contrariedade, de desgosto e de fadigas, que se lhe foram amontoando no coração desde a primeira noite do casamento. Era um pranto velho, há muito tempo represado à falta de uma ocasião para rebentar.

O Barroso recebia no peito as lágrimas do antigo camarada, sem fazer um movimento, nem ter uma palavra para lhe dizer. Enquanto chorava o Borges, ele fazia por explicar a si mesmo como diabo se podia conciliar toda aquela lamúria com a jubilosa aparência do amigo.

— Não és então feliz com tua mulher? ... perguntou-lhe afinal.

— Adoro-a! respondeu o outro, limpando os olhos.

— Então?...

— Mas é que a minha vida de casado tem sido uma tempestade constante! Ainda não o disse a ninguém, digo-te a ti, que és o único amigo em quem deposito confiança. Ah! não imaginas! não imaginas, Barroso, o que tenho experimentado!

Não calcules de que força é minha mulher... Bem me dizias tu...

— Mas por que não a pões a teu jeito, filho?

— Porque a adoro, como te disse. Porque só a idéia de lhe cair em desagrado me faz tremer! Pô-la a meu jeito — dizes tu! É que não a conheces! É que, felizmente para ti , nunca te deixaste arrastar por uma paixão como a minha!

E, depois de uma pausa, enquanto o outro se torcia sob aquela expansão sentimental:

— Pô-la a meu jeito!... foi ela quem me pôs ao seu! Foi ela que me torceu a seu bel-prazer!

— Ora essa! E quem te mandou consentir?

— Repito! nunca amaste, que se já o houvesse feito, não estranharias a minha fraqueza.

E, baixando a voz, disse-lhe alguma coisa no ouvido. O Barroso fez um gesto de indignação.

— Desaforo! Não havia de ser comigo, juro-te!

— Ah! Só Deus sabe pelo que tenho passado!...

— Não! contradisse o Barroso. Não! Uma mulher dessa ordem, manda-a a gente plantar batatas!

— Impossível! Se te estou a dizer que a adoro!

O outro sacudiu os ombros:

— Não era isso o que ele supunha! Pelo que ouvira por ai, ia jurar que o Borges era o homem mais feliz do mundo!

— É o que todos julgam... tugiu o barão com tristeza.

— Pelo menos é o que leva a acreditar esse teu modo de viver, de tempos para cá! São só pagodes e mais pagodes! Eu... confesso-te — sempre estranhei!...

— Ah! gemeu o outro. Só Deus sabe quanto me custa tudo isto! Meu amigo, vês-me a cara e não me vês o coração...

— Vamos tomar alguma coisa, disse o Barroso erguendo-se do banco e seguindo na direção do botequim. Creio que agora já bebes...

— Se bebo! tartamudeou o outro, acompanhando-o. Se bebo!

E foram ambos sentar-se a uma mesinha no lugar das bebidas.

— Pois muito me contas!... prosseguiu o Barroso, enchendo os copos de cerveja.

— E ainda não te disse nada!... acrescentou o Borges, a olhar muito sério para um buraco que fazia no chão com a ponta da bengala.

E depois, encarando o amigo:

— Mas olha! Isto que não passe daqui. Imagina que pape1 faria eu, se viessem a saber que...

(continua...)

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